Livro conta resistência de jornal do PCB no Pará
Livro conta resistência de jornal do PCB no Pará
Um retrato de 212 páginas da imprensa comunista no Brasil, mais especificamente no Pará, é o que apresenta o livro "Páginas de Resistência", do jornalista Francisco Ribeiro do Nascimento. Especialmente a trajetória do jornal "Tribuna do Pará", editado por integrantes do Partido Comunista Brasileiro, que circulou de 1946 a 1958. "Seu" Chiquinho, como é conhecido o autor, natural da ilha do Marajó, integra a diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo. Militante histórico da imprensa esquerdista paraense, chegou a ser diretor do jornal, no ano de seu fechamento.
Editado pela Imprensa Oficial do Estado e o Sindicato paulista, "Páginas de Resistência" narra a instalação do PCB no Pará, em agosto de 1931, de acordo com informações de outro pioneiro, o motorneiro Henrique Felipe Santiago, e a biografia do jornalista Pedro Pomar, assassinado pela ditadura, em São Paulo, em 1975. Conta inclusive como os então jovens ginasianos Pomar e João Amazonas içaram a bandeira da Aliança Nacional Libertadora, ligada ao PCB, no cume da caixa d'água do bairro da Campina, em Belém, alvoroçando os meios políticos locais.
Um capítulo é dedicado às lutas, prisões, campanhas e manifestações de comunistas paraenses como o romancista Dalcídio Jurandir, o político Alberto Chermont - chefe civil da Revolução de 30 no estado que depois aderiu às idéias socialistas -, o poeta Ruy Barata, o magistrado Levi Hall de Moura e a jornalista Eneida Vilas Boas Costa de Moraes, entre outros, inclusive Pedro Pomar e João Amazonas, que, por divergência com a linha política do PCB, fundaria o PC do B, nos anos 60.
"Nossos Mártires" relaciona os 22 jornalistas desaparecidos ou assassinados pela ditadura militar. São eles Joaquim Câmara Ferreira, Luiz Eduardo R. Merlino, Antônio Benetazzo, Ruy Osvaldo A. Pfitzenreuter, Luiz Guilhardini, Wladimir Herzog, Pedro Pomar, Vânio José de Matos, entre os declarados mortos. Entre os tidos como desaparecidos: Jayme Amorim de Miranda, Luís Inácio Maranhão Filho, Mário Alves de Souza Vieira, Orlando Bonfim Júnior e Tomaz Antônio S. Meireles.
Francisco Ribeiro do Nascimento, 76 anos, entrou para o PCB aos 18 e foi preso pela primeira vez em 1954, em Parintins, no Pará, quando liderava uma manifestação a favor de Luiz Carlos Prestes. Após o golpe de 64, ficou seis meses escondido antes de conseguir fugir para Santos, deixando a mulher e dez filhos, que só se reuniram a ele cerca de um anos depois.
"A função da imprensa é extraordinária quando cumpre os seus deveres, quando defende os interesses públicos e quando está ao lado das causas do povo". O capítulo sobre os 12 anos de existência da "Tribuna" começa com essa citação de Barbosa Lima Sobrinho. Narra as dificuldades enfrentadas pelo jornal, a começar pela clandestinidade, que quase inviabilizava a impressão e a distribuição. A pesquisa enfocou 91 edições da "Tribuna", com 431 páginas, 175 títulos, confirmando a observação do professor Marcos Cipra, da PUC-SP, segundo o qual "a imprensa, mesmo sem compromisso com a História, registra os fatos que passam a fazer parte da História".
O jornal se ocupava de temas como reforma agrária, conflitos e assassinatos no campo, defesa da Amazônia, desemprego e salários mais dignos, bandeiras daquela época que continuam vigentes nos dias de hoje, o que, frisa o pesquisador, desmascara "a mistificação dos golpistas de 64, que falavam na tentativa de instalação no Brasil de uma pretensa república sindicalista".
Como integrante do PCB, ele participou de todas essas lutas e mais a campanha pela criação da Petrobrás e a defesa de Fernando de Noronha, além do movimento sindical e pela legalidade do próprio partido. "O livro é dedicado a Wladimir Herzog e outros jornalistas que sofreram as conseqüências dos tempos da ditadura", diz
"Páginas de Resistência" traz 173 páginas de edições da "Tribuna" com matérias sobre a luta política nacional e notícias a respeito de conquistas da população paraense. Começa com um poema de Ferreira Gullar, de 2002, que alude à fundação do PCB 80 antes: "Eles eram poucos / e nem puderam cantar muito alto a Internacional/ naquela casa de Niterói em 1922./ Mas cantaram e fundaram o partido (...)/ O PCB não se tornou o maior partido do Ocidente./ Nem mesmo do Brasil. / Mas quem contar a história de nosso povo e seus heróis/ tem que falar dele. / Ou estará mentindo".
Fonte: ABI






