Lições de jornalismo investigativo: como não achar o Belchior

Lições de jornalismo investigativo: como não achar o Belchior

Atualizado em 23/08/2009 às 23:08, por Rodrigo Manzano.

O Fantástico acabou de exibir uma matéria (dia 23) em que relata o "misterioso" desaparecimento do cantor e compositor Belchior, célebre músico que, entre tantos sucessos, é responsável por "Como nossos pais" e aquela outra canção, sobre o medo de aeroplanos. Fiquei o dia todo esperando a reportagem: adoro casos complicados, procurar índices, discutir possibilidades. A matéria do Fantástico, no entanto, é risível porque, travestida de um suposto desaparecimento e carregada de emoções, se rende ao mais baixo dos tipos de sensacionalismo: aquele que julga burro o telespectador médio.

Pois bem, diz a matéria que Belchior está "sumido" desde 2007. Mas apareceu em um show do Tom Zé há alguns meses. Entrevista o responsável pelo estacionamento que guarda um de seus carros e essa fonte fala que não o vê desde 2008. Outras fontes, no entanto, ressalvam que uma mudança de vida talvez fosse a razão pela qual Belchior tomou sua dose de Doril e que, possivelmente, uma surpresa se anuncia, para o deleite dos fãs.

À primeira vista, me pareceu algo sério. Essa percepção durou apenas dois ou três segundos. Logo depois, imaginei que pudesse ser uma grande estratégia de marketing que o incauto repórter não teve condições de considerar. Algo articulado entre artista, gravadora, empresário e família. Mas tão obvia consideração - qualquer espectador de CSI perceberia a armação na hora - beira o ridículo. Por sua vez, a última e derradeira hipótese me levou a crer se tratar de burrice ou de má fé. O problema (ou a solução?) está no site da própria emissora: Belchior deu uma em setembro de 2008. Onde andará Belchior?

Na guerra da audiência - trata-se de um chavão - quase sempre quem perde é o telespectador. A verdade factual, mais sólida de todas elas, é, infelizmente, trincada pelo tiroteio por pontos do Ibope. Àlgumas considerações: 1) Belchior sumiu, de fato. Se essa hipótese é verdadeira, pergunto qual o direito de uma emissora de televisão procurá-lo. Há uma recomendação muito delicada e generosa, no sofisticado Manual de Princípios da BBC, que reza não ser recomendável procurar e fazer reportagens sobre pessoas desaparecidas, porque talvez essa seja a vontade delas. Se o sumiço é fato, há um problema ético na matéria. Belchior desejaria ser encontrado? 2) Supondo que a matéria seja um embuste, maquinaria eficiente da família e da gravadora para alavancar a carreira do cantor, por que uma emissora séria encamparia a história que tem ares fraudulentos sem o menor questionamento, a não ser que 3) ela tenha conhecimento de isso tudo e sabe que uma boa dose de mistério, fama, desaparecimento e clamor público não fazem mal à audiência. O Fantástico de hoje rendeu uma bela homenagem ao NP em seus melhores dias.

Eu, experiente repórter e Sherlock Holmes nas horas vagas, tenho a solução para o intrigante mistério: se Belchior fugiu, decerto não foi de avião.