Liberdade, honestidade e os jornalistas-houdinis
Liberdade, honestidade e os jornalistas-houdinis
Como em muitas áreas, o freelance jornalista é uma figura essencial. Não saberia quantificar ou estimar, mas tenho a impressão de que esse tipo de trabalho - terceirizado, sem vínculo empregatício, feito de escritório ou residência distante da sede - diz respeito a uma imensa parte do conteúdo noticioso do país, talvez até a maior. E como a relação entre empresa e frila - como carinhosamente se aportuguesou a expressão em inglês - permeia muitas questões éticas, vale um olhar atento a respeito de algumas particularidades que nem sempre vem à tona.
Pode ser difícil fazer uma análise justa sobre a realidade do frila quando seu autor se prende fortemente a um dos diversos lados da atividade jornalística. Um diretor editorial tem expectativas diferentes de um diretor comercial, que enxergam, por sua vez, o produto jornalístico de forma destoante do reportariado e da presidência, que também podem ter visões divergentes entre si. Hoje, particularmente, estou do lado do contratante, mas já passei muitas vezes pelo lado do contratado, fosse como repórter, redator, editor ou ilustrador.
Dessa perspectiva, é fácil perceber os problemas. O mais curioso é notar que a maioria diz respeito a uma ética (ou a falta dela) pessoal, do indivíduo, que passa longe das idiossincrasias de uma empresa noticiosa.
Como estabelecer limites entre partes que firmam acordos com base na confiança? No geral, assina-se uma espécie de contrato que só diz respeito à utilização da obra, o famoso CCDA (contrato de cessão de direitos autorais), que fornece ao contratante o poder sobre a publicação e uso do texto, desde que pago e mantido o devido crédito. Antes disso, o trabalho estabelecido entre empresa e frila costuma ser um acordo entre cavalheiros, no qual vale a palavra. Se algum dos dois vacila, é um estigma que se leva para a vida toda.
Geralmente, esse antiprofissionalismo se revela de duas formas: o frila que some ou o editor que some. "Sumir", aqui, como metáfora para "evitar contato" - um modo covarde de se dizer que está arrependido do acordo ou que será incapaz de realizá-lo.
Quase todo o resto de problemas é plausível de explicação digna, numa conversa civilizada. Um clássico é o caso do frila que percebe estar a ponto de estourar o prazo. O motivo quase sempre é irrelevante, desde que se tenha honestidade como premissa para conversar com o contratante antes que a coisa estoure. Obviamente, ressaca e esquecimento repentino não entram na lista de motivos razoáveis.
Da mesma forma, o editor convenientemente desaparece para não falar, por exemplo, que o texto tem baixa qualidade ou que falta verba - motivos quase sempre justificáveis desde que se preze a atender ao telefone e dizer um "sinto muito", por pior que seja.
Claro, há casos dissonantes, minúcias mais delicadas do que os problemas citados, que merecem um olhar mais cuidadoso. Eu mesmo, por exemplo, fiz algo do qual não me arrependo, mas não foi totalmente correto. Em certa empresa amarguei muito tempo como frila-fixo (outro subgênero exótico do freelance que merece uma análise à parte). Sem ter nem mesmo uma reclamação que me desabonasse, fui preterido num momento em que parte dos colaboradores seria contratada, por motivos explicitamente pessoais. Apesar da desconsideração, mantive meu trabalho como frila. No entanto, disse "sim" de imediato à primeira proposta melhor que me surgiu. Claro, não gostaram nem um pouco da situação e disseram que eu tinha compromissos. Repliquei que freelance subentende liberdade, mas nunca falta de respeito, e havia me sentido desrespeitado na recente decisão da chefia. Saí.
Foi uma espécie de retaliação, admito (e não recomendo). Mas o que me redimiu nessa situação é que em nenhum momento me esquivei de conversar. E nunca, em nenhum caso, fugi da conversa franca, fosse como fornecedor, fosse como negociador. Se atualmente tem gente em algum desses lados que ainda se pergunta como tocar a questão com honestidade, a base da resposta está no diálogo. Mas pior que isso é o predomínio, nesse mercado, dos jornalistas-houdinis. Gente que ao passar por situações do gênero nem cogita questionar limites, quanto mais um simples e-mail ou telefonema. Simplesmente some.






