“Levo tudo como aprendizado”, diz jovem com síndrome rara que sonha ser jornalista

Aos 13 anos, durante uma internação hospital após passar por uma cirurgia, o jovem Ronald dos Santos Trindade, mais conhecido como Ron

Atualizado em 16/06/2016 às 15:06, por Alana Rodrigues*.

Aos 13 anos, durante uma internação hospital após passar por uma cirurgia, o jovem Ronald dos Santos Trindade, mais conhecido como , decidiu que queria ser jornalista. O desejo foi alimentado ao criar um blog e sintonizar na Rádio CBN para acompanhar futebol, outra de suas paixões. Hoje, com 17, o estudante faz planos enquanto luta diariamente contra a Síndrome de Marfan, uma deficiência que afeta o sistema cardiovascular, esquelético, os olhos e a pele.
Crédito:Arquivo Pessoal/Ronald Capita Ronald na antiga redação do Torcedores.com
Ronald foi diagnosticado com a rara síndrome aos dois anos. Entre as características dela estão as mãos grandes, pés largos, crescimento acelerado e o não acompanhamento do tronco, o que gerou uma má formação em sua coluna, chamada escoliose. Desde os nove, passou por diversas intervenções cirúrgicas, cerca de 11. Antes de fazer a primeira delas, andava, corria e brincava normalmente. Depois dos procedimentos, o corpo não aguentou o peso das hastes que sustentavam sua coluna reta e passou a usar cadeira de rodas.
Em meio à sua luta para superar os desafios impostos pela deficiência, Ronald mostra, aos poucos, as habilidades que tem para escrever. Depois de administrar o blog e ter quase três mil seguidores no Twitter, criou o site Esporte na Web. Contava com cerca de 30 colaboradores. A ideia era dar base para uma web-rádio.

Apesar de o projeto não ir para frente, a experiência rendeu ao jovem contatos e visibilidade. Em agosto de 2014, recebeu um convite de Renan Prates, editor de comunidades do Torcedores.com, para integrar a equipe do portal. Já escreveu mais de cem matérias. Grande parte de sua colaboração é pautada pela falta de acessibilidade nos estádios brasileiros de futebol. Esse ano, ele também foi convidado para participar do time do site ONDDA. À IMPRENSA, Ronald fala sobre seu sonho em ser jornalista, as experiências que já carrega na área, o apoio de ídolos, como a deficiência afeta seu dia a dia, o amor pelo futebol e seu empenho para debater a acessibilidade e inclusão nos estádios.
IMPRENSA: Quando surgiu seu interesse pelo jornalismo? RONALD CAPITA: Em 2012. Estava internado no hospital Abreu Sodré, localizado na unidade da AACD Ibirapuera. Fiquei cinco meses internado e, na ocasião, faria um procedimento novo chamado halo craniano, onde perfurariam o meu crânio e colocariam pinos. Quatro. Dois na frente e dois atrás da cabeça. A ideia desse tratamento era, com pesinhos que eles colocavam dia sim dia não, tracionar a coluna reta, pois tenho escoliose grave. A meta era atingir 15 kg. Consegui 14,750 antes de ir para a sala de cirurgia fazer a que eles chamam de definitiva, a última — que não deu certo.

A partir de fevereiro, um mês após colocarem o halo, passei a procurar algo para fazer. Na ocasião estava ouvindo uma web rádio. Gostei. Criei um blog no mesmo mês e, dois meses depois, um site - que tinha até colaboradores. Ambos não existem mais. Para acompanhar futebol, sobretudo a Libertadores, sintonizava sempre na Rádio CBN SP, pois no meu quarto só passava jogos dos times do Rio de Janeiro. Foi muito marcante para mim isso. Importantíssimo para optar pelo jornalismo. Inclusive tenho contato com Deva Pascovicci, hoje narrando na Fox Sports Brasil, e Mário Marra, comentarista da CBN e dos canais ESPN.
E pelo esporte? Entre 2009 e 2010, época em que o Ronaldo voltou ao Brasil. Acompanhei mais frequentemente por causa dele. Chegou desacreditado depois de uma lesão grave e deu a volta por cima, conquistou títulos com a camisa do Corinthians e fez história. Me inspira bastante. Passei a acompanhar de fato por causa dele, além da influência do meu pai.
Você tem uma participação frequente no portal Torcedores.com. Como surgiu essa oportunidade? Eu escrevia para um site de Santos. Já conhecia o Torcedores.com. Em uma conversa com o Renan Prates, editor de comunidades do portal, fui convidado. Fiquei muito feliz com a oportunidade, pois além de ser um projeto ambicioso, já acompanhava o Renan no UOL. Tive a ideia de escrever sobre acessibilidade nos estádios para eles (do Torcedores.com) e, inclusive, recebi o incentivo dele. A partir daí tudo começou.
Você também escreve no ONDDA, mantém um blog, já criou um site. Como são essas experiências? Tem alguma matéria que te marcou mais? Eu vejo que ter tentado mesmo sob desconfiança e falta de apoio há quatro anos atrás foi a melhor decisão que tomei. Não conhecia ninguém do meio. Não escrevia bem e tampouco tinha conhecimento jornalístico. Mas tentei. Arrisquei. Com o tempo, pegando gosto, fui aprimorando. Estas experiências aliadas aos conselhos e às dicas que recebi com o passar dos anos de profissionais da área foram fundamentais para meu crescimento.
Como a sua deficiência afeta seu dia a dia? Ultimamente tem afetado bastante. Até os nove anos eu andava. Hoje não mais. A escoliose afeta o sistema cardiovascular, o sistema esquelético, os olhos e a pele. Apesar disso, o que mais me afeta (a meu ver) é a escoliose. Por estar em um grau muito elevado, ela comprime o pulmão. Com isso, dificulta para falar, pois falo muito baixo, e para respirar - até sofro com falta de ar frequente.
Você já passou por 11 cirurgias. Como foi passar por tantos procedimentos? Você notou melhoras? Foram momentos bem difíceis. Passei por muita coisa. Já tive inclusive paradas cardiorrespiratórias e havia, também, o medo de que acontecesse algo na última cirurgia que fiz, em 2012. Em contrapartida, a cada procedimento eu amadurecia mais. Particularmente, não vejo melhoras. A coluna continua torta. Além disso, antes de iniciar o tratamento da escoliose, que anteriormente era um formato de S, eu andava normalmente, corria... e hoje em dia ninguém sabe o que aconteceu para eu não andar mais. Dizem que pode ter sido a medula ou algo parecido. Mas, felizmente, mexo as pernas e sinto normalmente. O tempo foi passando e, infelizmente, perdi forças e emagreci bastante. Não sei o que será daqui pra frente, mas levo tudo como aprendizado.
Quais são seus objetivos no jornalismo? Acho cedo falar em objetivos, pois ainda tenho muita coisa a aprender e a enfrentar. É só o começo. Claro que tenho sonhos e metas, mas é muito cedo para falar disso. Sou muito novo e ainda percorrerei um longo caminho para conquistar aquilo que almejo. Mas, no futuro, posso dizer que quero poder ajudar pessoas de alguma forma. A luta particular pela acessibilidade nos estádios é uma destas ações.
Você já deu várias entrevistas. Recebe apoio de profissionais da área para seguir no jornalismo? Diria que o que eu mais recebo é apoio de profissionais da área. De verdade. Pode até parecer clichê, mas não é. Muita gente mesmo. Às vezes, fico pensando como foi difícil o começo e hoje ser apoiado por pessoas que eu acompanhava é uma sensação muito boa. Tem uns que se tornaram grandes amigos, inclusive. Recentemente recebi a visita aqui em casa do Marcelo Hazan, do GloboEsporte.com SP, e do Cahê Mota, do GloboEsporte.com RJ. São dois exemplos. Mas tem bastante gente mesmo... Fico muito feliz com isso.
Você é engajado na questão de acessibilidade e inclusão. O que tem observado ultimamente? Quais são os principais desafios que você enfrenta? O que mais acontece é descaso e despreparo. Das pessoas e em termos de estrutura mesmo. A ideia de levar adiante a causa da acessibilidade, divulgar e buscar apoios surgiu por eu ter sofrido em estádios de futebol em algumas ocasiões. Quando fui à Javari, por exemplo, iria entrar em campo com o Alemão, lateral-direito do Independente de Limeira à época e hoje no Bragantino. Estava tudo acertado com o clube limeirense. Quando minutos antes da bola rolar um fiscal da FPF barrou a minha entrada no gramado. Questionado pelo assessor da equipe - que alegou ser permitida a entrada de crianças nos jogos do Galo em Limeira -, o mesmo disse: "crianças são diferentes de cadeirantes".

Algumas pessoas têm apoiado a campanha pela acessibilidade nos estádios, mandando vídeos. Gabigol (Santos), Lucas Lima (Santos), Luís Henrique (Botafogo), Fernando Fernandes (atleta de paracanoagem) e os jornalistas do Esporte Interativo. Esses vídeos dão uma força enorme à campanha.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves