Jornalistas superpoderosas V - Marília Gabriela:"Me olham na novela tentando encontrar a jornalista"
Jornalistas superpoderosas V - Marília Gabriela:"Me olham na novela tentando encontrar a jornalista"
Fotos: TV Globo/Rogério Domingues Descobrindo vocações, Marília Gabriela amplia seu leque de atividades. Está em permanente trânsito nos ofícios que lhe dão prazer: além do jornalismo, a música, o teatro e a teledramaturgia, após 35 anos de redações.Gravou três álbuns e, em 2001, estreou no teatro com "Esperando Beckett", de Gerald Thomas. Atualmente, paralelo ao programa "Marília Gabriela Entrevista", pela GNT, a jornalista dedica-se à interpretação, na novela "Senhora do Destino" (TV Globo), com planos para nova peça de teatro. "É maravilhoso encontrar uma nova vocação a essa altura da vida", garante.
IMPRENSA - Quais jornalistas mulheres você admira?
Gabi - Eu me lembro que comecei a me interessar pelo jornalismo, por causa de uma jornalista em especial, a italiana Oriana Fallaci (célebre por suas reportagens do mundo islâmico nos anos 70), que tem vários livros publicados, além de ser uma excelente jornalista. Por causa dela, percebi que, com o jornalismo, era possível conhecer pessoas extraordinárias, venturosas e aventureiras.
IMPRENSA - Você fez parte do projeto do núcleo da TV Mulher, em uma época em que o movimento feminista vinha com força para o Brasil. Este movimento se esvaziou? Ainda há espaço para ele no Brasil?
Gabi - Quando você fala em movimento, me vem logo à cabeça as passeatas, o negócio de queimar sutiãs. O movimento feminista, como trabalho de base, como sustentação de uma idéia é ainda muito necessário. A mulher tem uma vida cotidiana muito sacrificada, mesmo porque ela é, hoje, uma força representativa. Tem o lado profissional, mãe, esposa. A Delegacia da Mulher, por exemplo, acho fundamental.
IMPRENSA - As mulheres jornalistas recebem o mesmo tratamento que os homens nas empresas? Você já foi preterida ou preferida por ser mulher? Ainda existe este tipo de diferenciação?
Gabi - Claro que aconteceu! Eu era quem menos ganhava na TV Mulher, apesar de ser a cara da emissora. Tive que chorar muito, berrar muito, para ver se conseguia uma equiparação salarial. Agora, estou mais distante disso e não sei se as coisas continuam neste pé, então, seria leviano da minha parte afirmar que esta diferença persiste.
A minha impressão, em se tratando de televisão, é que as mulheres são maioria nos postos de trabalho. Minha equipe no GNT, tirando o pessoal da técnica, são só mulheres, inclusive nós respondemos para uma mulher: a Letícia Muhana, diretora do canal.
IMPRENSA - Você já fez parte de algum movimento sindical?
Gabi - Já fui sindicalizada, hoje não sou mais. Estava no sindicato em uma época sindical ativa, na qual questões importantes eram tratadas, na época da regulamentação da profissão, por exemplo.Havia uma grande interatividade entre sindicato e profissional. Tinham até bailes promovidos pelo sindicato.
IMPRENSA - Você acha importante o diploma de jornalismo para exercer a profissão?
Gabi - Eu sou uma jornalista não formada, eu não fiz faculdade de jornalismo, entrei por tempo de profissão. Na época da regulamentação, eu tinha dois anos de Jornal Nacional. Minha carteira de trabalho, para que você tenha uma idéia, é Folha 1, Livro 1, Pág. 1.
Na verdade, eu acredito que a formação universitária, seja qual for, é fundamental. Muito mais que o curso de jornalismo, o jornalista deve ser uma pessoa articulada, capaz e interessada. Ela deve ter a cabeça, os olhos e os ouvidos abertos a tudo. Quanto maior o conhecimento, melhor.
IMPRENSA - Você acompanhou a polêmica do Conselho Federal de Jornalismo? Qual sua opinião sobre isso?
Gabi - Acompanhei sim. Acho que foi uma precipitação. Deve ser muito tentador você estar no poder e ter a oportunidade de censurar ou reprimir o que vão dizer a seu respeito. Acredito que o bom senso não vá deixar que isso vá adiante.
IMPRENSA - Quando aos debates que você mediou nas eleições de 1989. Qual foi a importância deste debate para sua carreira?
Gabi - Todos os debates daquela época foram muito importantes para a minha carreira. Depois do primeiro, muitas pessoas olharam para mim e se perguntaram: "que raios de mulher é essa?", isso após 17 anos de carreira. Eu não tinha a menor noção da repercussão disso. Era a primeira eleição direta, após anos de ditadura e voto indireto.
Quando acabou o primeiro, com todos os candidatos, eu chorava e dizia para o Fernando Mitre (diretor de jornalismo de TV Bandeirantes) que não queria mais fazer aquilo, que eu não ganhava para fazer aquilo. Foi muita pressão, porque todos os candidatos brigaram comigo, eu era a válvula de escape deles.
IMPRENSA - Durante os debates, deu para perceber que o então futuro presidente Fernando Collor seria a fraude que se mostrou?
Gabi - Não. Eu conhecia o Fernando de bem antes, nossas famílias eram amigas. Tenho a impressão de que não podemos julgar ou falar sobre qualquer político antes que ele chegue ao poder. Como o próprio Fernando disse, "o tempo é o senhor da razão" e é mesmo, né?
Me parece que o poder é mesmo transformador. Quando a pessoa chega lá e senta naquele "trono", ela muda substancialmente.
IMPRENSA - Você já tem ou já teve alguma aspiração política?
Gabi - Nunca, nenhuma aspiração política. Quando estourei na TV Mulher, chegaram diversos convites a mim para que eu me candidatasse, até a palavra senadora chegou aos meus ouvidos, mas nunca me interessei.
IMPRENSA - Você tem interesse em voltar a fazer o jornalismo hard news ou voltar a campo como repórter?
Gabi - Reportagens até que sim. Recentemente, eu fiz uma que foi ao ar no "Domingão do Faustão", mas as hard news eu não quero mais fazer, por uma questão pessoal mesmo. Não deixo de me indignar, de me comover com a realidade, com as notícias de um jornal diário e não dá para fazer um jornal e começar a chorar com a notícia.
Agora, após 35 anos de profissão, me reservo o direito de fazer as coisas que me dão mais prazer, como as entrevistas em estúdio, mas uma boa reportagem também pode ser. Gosto muito de conhecer novas pessoas, novos lugares.
IMPRENSA - Você acha que jornalismo também pode ser entretenimento?
Gabi - Pode, claro. O Globo Repórter é um dos programas de mais sucesso da Rede Globo e é um jornalismo feito de uma forma muito agradável, repleto de informação. Para mim, qualquer peça bem escrita de um jornalista é um entretenimento. Eu leio quatro jornais por dia e começo pelos cadernos de cultura, também entretenimento. As colunas, as notas... Jornalismo pode ser entretenimento sim, com certeza.
IMPRENSA - Você já gravou cd´s e é atriz, tem uma inegável veia artística. Você se considera melhor atriz ou jornalista?
Gabi - Atriz ou jornalista? Me considero aprendiz para sempre, mas se estou fazendo, não faço mal feito. Com certeza, seu eu fui fazer novela, é porque tenho uma vocação natural para atuar. Não me convidariam para estar em uma novela das 8h, se eu não fizesse direito. Eu leio muito, estudo muito e estou feliz. Eu estou muito bem e quero estar bem.
Me lembro de ter invejado a Danuza Leão, que descobriu uma vocação mais tarde e sempre disse isso para ela, mas agora não invejo mais, porque eu também descobri outra vocação e estou muito feliz.
IMPRENSA - Você já recebeu críticas por ser uma jornalista e estar em uma novela das 8h?
Gabi - As pessoas me olham na novela tentando encontrar a jornalista e, como não encontram, elas acham que alguma coisa está errada. Na novela, eu não sou a jornalista.
O legal é que quem assiste a novela gosta do meu trabalho, tanto que fiz a participação no começo e agora, voltei.
IMPRENSA - Você hesitou em aceitar o convite para fazer "Esperando Beckett", de Gerald Thomas?
Gabi - No primeiro mês após o convite eu hesitei sim, ficava pensando nesse negócio de decorar texto, etc, mas meus filhos e o Giane (seu marido, Reinaldo Gianechinni) disseram que eu não poderia perder uma oportunidade dessas. Aí, eu encontrei o Gerald e disse que só faria se fosse um monólogo, foi quando ele me disse que era um monólogo mesmo.
Na época da Band, eu recebi um convite da Bibi Ferreira, depois do Bruno Barreto. Foram diversos convites.
IMPRENSA - O fato de estar na novela das 8h e estar casada com um ator, aumentou expressivamente sua exposição na mídia. Você se sente atingida pelo veneno de sua própria profissão?
Gabi - Com certeza. Já me separaram várias vezes do meu marido e falam que é definitivo, mas isso não é novo. É que hoje a mídia de fofocas é muito grande, cresceu demais. Há uns vinte e tantos anos atrás, saiu em uma revista assim: "Marília Gabriela se separa e vai para o exterior com uma mulher", pode?
Eu já me irritei muito com isso, mas este tipo de mídia é uma indústria que gira em torno de fofocas, mas que movimenta muito dinheiro. Então, eu penso: "O que é que eu vou fazer?" Nada. Eu tenho a impressão de que tem dia que eles acordam, percebem que não tem o que falar e decidem: "Vamos pegar no pé da Gabi". Então, deixa para lá, não há o que fazer.
IMPRENSA - Novos projetos para este ano no jornalismo?
Gabi - Para o jornalismo, novas conversações. Estamos com dois novos projetos, mas não posso adiantar nada, até que tudo esteja certo.
Já no teatro, este ano pretendemos estrear uma peça, que queríamos fazer desde o ano passado, mas faltou dinheiro. O texto é "Sangue", do sueco Lars Noren. A peça vai contar com o José Wilker, Guilhermina Guinle. Na TV, continuo também com o Marília Gabriela Entrevista, no GNT. Para este ano, é isso.
A Folha de São Paulo publicou homenagem ao Sinval de Itacarambi Leão no dia 5 de setembro.
"O ponto marcante da vida dele foi a trajetória da revista Imprensa. Foi um dos fundadores em uma mistura de sonho, filho e projeto de vida", diz na nota o filho Francisco Itacarambi, 47, também jornalista.





