Jornalistas relatam importância de Luciano do Valle no desenvolvimento do esporte no Brasil

Carmona, Milton Neves, Nivaldo Prieto e Flávio Gomes destacam a importância de Luciano do Valle no desenvolvimento do esporte no Brasil.

Atualizado em 23/04/2014 às 17:04, por Christh Lopes e Lucas Carvalho*.

Desde o último sábado (19/4), o que se ouve em diversos veículos de imprensa é o quanto o jornalismo esportivo brasileiro perdeu com a morte de Luciano do Valle. O narrador foi vítima de um infarto enquanto viajava para Uberlândia (MG), para narrar o jogo entre Corinthians e Atlético-MG pela primeira rodada do Campeonato Brasileiro. O locutor não teve a chance de abrir o que seria o 43º Brasileirão de sua história.
Crédito:Divulgação Colegas de profissão lamentam a morte de Luciano do Valle
Nascido em Campinas (SP), em 4 de julho de 1947, Luciano começou a carreira aos 16 anos, em 1963, como locutor da Rádio Brasil, em sua cidade natal. Quatro anos depois, mudou-se para São Paulo, escalado como sexto narrador da “Equipe Disparada”, comandada pelo jornalista Pedro Luiz, na Rádio Gazeta. Foi lá que ele conheceu outro jornalista que superou recentemente a marca dos 50 anos de profissão: Roberto Carmona.
“O Luciano era o sexto narrador. Você imagina, num Campeonato Paulista... é claro que a gente fazia tudo, mas o jogo mais importante da rodada era feito pelo Pedro ou pelo Darcy [Reis]. O segundo de importância era feito pelo Marco Antônio ou pelo Domingos Leoni. Aí o terceiro jogo, o de menor importância, que de repente seria Juventus e Ferroviária, quem fazia era o Luiz César. O Luciano, como sexto narrador, ia narrar o quê? Uma partida a cada dois meses, a cada três meses? Mas ele sempre foi muito cuidadoso com a carreira dele, sempre caprichou muito, sempre quis ser o melhor no que ele estava fazendo”, conta o repórter da Rádio Transamérica.
“Quando ele percebeu que narrar futebol ia ser meio complicado, ele ia todo dia na sala do Pedro Luiz falar assim: 'Pô, Pedro! Quarta-feira que vem vai ter um jogo de basquete, o Chile vai jogar contra o Corinthians, você acha que a rádio deve fazer?'. Aí o Pedro dizia: 'Tá bom, então vamos fazer esse jogo'. Para ele poder narrar alguma coisa, né! Então ele narrava basquete, narrava boxe, narrava tudo. E sempre foi um cara muito interessado nisso”, completa Carmona.
O empenho em popularizar diversos outros esportes no Brasil, além do futebol, foi uma marca na carreira de Luciano. O jornalista foi o principal responsável pela viabilização de uma série de jogos de vôlei da seleção brasileira contra a icônica equipe da Rússia (União Soviética na época), durante a década de 1980.
Uma partida específica ficou marcada na memória do público brasileiro. No jogo entre Brasil e URSS, em 26 de julho de 1983, a seleção nacional venceu os soviéticos numa quadra montada em pleno estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro (RJ), para um público de mais de 100 mil pessoas. Após a transmissão pela Rede Record, o jornalista deixou seu desabafo para aqueles que, segundo ele, “não acreditavam no esporte brasileiro”.
“Para você que prestigiou, eu só poderia contar com essa condição de fidelidade. Para você que não estava prestigiando, eu acredito que, a partir de agora, a gente tem um diálogo mais aberto, mais tranquilo, porque, afinal de contas, nós todos estamos trabalhando pelo esporte brasileiro”, afirmou.

Assista ao vídeo:

Ainda em 1983, Luciano foi para a Bandeirantes. Entre idas e vindas, por cerca de 15 anos o locutor trabalhou lado a lado com outro ícone do jornalismo esportivo, o apresentador Milton Neves. O convívio garantiu ao apresentador a frase que circulou a programação da emissora paulista desde a notícia da morte de Luciano: “domingo sem Luciano não Valle”.
“Eu tenho ouvido e assistido narradores desde os anos 50. Tivemos grandes gênios na história. Você tem aí o carisma do Walter Abrahão, na TV Tupi; a voz e a emoção de Geraldo José de Almeida na Copa de 70; os bordões do Januário de Oliveira, também na Band; a precisão de Oduvaldo Cozzi, da TV Tupi; e a técnica e a extrema importância de Galvão Bueno. Você tem essas características desses ícones da história da narração esportiva na TV. Mas o único que reuniu todas essas qualidades foi Luciano do Valle. Ele teve carisma, técnica, importância, bordões, voz e emoção. Ele teve tudo isso de cada um desses grandes narradores, que é uma coisa muito difícil de acontecer”, diz.
Milton lembra que, em seu último contato em frente às câmeras com Luciano, na final do campeonato paulista no último dia 13 de abril, o apresentador chamou a transmissão da partida - a última narrada por Luciano - dizendo: “Alô, Luciano, agora é com você, o melhor gol da TV... do mundo!”, ao que o narrador respondeu com risos.
O momento foi reprisado no último domingo (20/4), quando Milton chamou Nivaldo Prieto, outro locutor da casa para falar sobre o falecido ícone. O jornalista não conseguiu entrar no ar, tamanha a emoção que o acometia pela morte daquele que considerava um “professor”.
“Não tenho como dimensionar a importância de Luciano do Valle para o jornalismo esportivo. Ele foi muito importante para mim nos meus dias difíceis ficando ao meu lado. Quando eu cheguei na Bandeirantes, eu não sabia fazer uma narração da forma como tive a oportunidade de aprender com ele. Quem trabalha como radialista e jornalista esportivo sabe da relevância que ele tem para a área”, diz.
Com múltiplas facetas, Luciano registrou sua voz marcante em momentos antológicos do esporte internacional. O narrador se tornou um ídolo para profissionais contemporâneos, e uma lenda para aqueles que cresceram com o seu trabalho. Quando Flávio Gomes, jornalista da Fox Sports 2, começou sua carreira na imprensa, o cronista esportivo já tinha quase duas décadas de experiência e já era referência para os aspirantes do segmento jornalístico voltado ao esporte.
“Tive a chance de trabalhar com alguém que admirava, mas que não tinha exatamente como ídolo. Era mais um ícone, de uma importância enorme. Afinal, foi ele a voz da narração esportiva da Globo na Copa de 82, era ele a voz oficial do esporte olímpico, era ele o cara que tinha inventado o vôlei, o boxe, a NBA, o Campeonato Italiano, a Fórmula Indy, a sinuca, o hóquei, os domingos com esporte de cabo a rabo na TV”, afirmou Gomes em seu blog.

Aos 66 anos, Luciano do Valle deixou a esposa, Flávia do Valle, três filhos, incontáveis gols, pontos, cestas e vitórias automobilísticas narradas, mas o que vale, de verdade, é o legado incontestável para o jornalismo esportivo brasileiro.

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves