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Jornalistas formados em outras áreas refletem sobre a necessidade do diploma

O dilema colocado diante da queda da exigência do diploma - ocorrida em 2009 - e o debate a respeito das novas Diretrizes Curriculares Nacionais, entrando para o foco das discussões nas faculdades de jornalismo e comunicação social, colocam em pauta a necessidade de formação do profissional e, por outro lado, a alternativa de obter conhecimento em outras áreas e seguir na profissão.

Jornalistas formados em outras áreas refletem sobre a necessidade do diploma
Jornalistas formados em outras áreas refletem sobre a necessidade do diploma

Quem é a favor da formação acadêmica acredita que ela garante um mínimo nível de qualidade profissional e amplia a segurança nas negociações trabalhistas com os empregadores. Quem é contra, argumenta que a liberdade de expressão pública deve ser garantida a qualquer cidadão e que esse ato não deveria ser impedido pela ausência do diploma. Mas qual é a opinião dos jornalistas? IMPRENSA conversou com profissionais formados em outras áreas, mas que atuam na mídia para saber seus pontos de vista.
Crédito:Divulgação Jornalistas formados em outras áreas refletem sobre a necessidade do diploma Silvio Lancellotti, Rosana Jatobá e Luis Augusto Simon são formados em outras áreas
Vocação – Do Direito ao Jornalismo
Rosana Jatobá conta que, aos 17 anos, prestou vestibular para Direito e Jornalismo ao mesmo tempo. Sempre soube que queria algo ligado à comunicação. Cursou Direito por influência de seu pai, que é juiz. Quando acabou a faculdade, passou num concurso público como analista processual da Procuradoria do Trabalho do Ministério Público Federal, onde permaneceu por três anos.
Como trabalhava meio turno, Rosana conseguiu retornar à faculdade de jornalismo que estava trancada. Faltava apenas um ano para concluir. Antes de receber o diploma, conseguiu um estágio na Band, como repórter. "Sempre gostei de conversar e ouvir as pessoas, emitir minhas opiniões, defender meu ponto de vista e me apaixonei pela rotina da redação de TV", diz.
Rosana pediu exoneração da Procuradoria após três anos para dedicar-se à carreira jornalística e foi atuar como repórter em São Paulo. "Descobri cedo a minha vocação e acho que foi uma grande sorte, pois pude experimentar as delícias da profissão e abraçar grandes oportunidades", ressalta.
Além da atuação no Ministério Público Federal, advogou por três anos na área de família. Já no jornalismo Rosana acumula sete anos como repórter de rua e 16 de carreira. "O mais fascinante do jornalismo é poder transitar por muitos ambientes e realidades diferentes, com a missão de descobrir algo novo", pondera.
Segundo a jornalista, cursar direito contribuiu muito em sua atuação no jornalismo, pois a proporcionou uma visão abrangente do que é ser cidadão, ensinou a exercitar o contraditório, pensar os fatos sob diversos ângulos e em pautas que envolvem assuntos jurídicos.
"No início, confesso que tinha uma certa dificuldade para escrever os textos de TV, pois tinha uma forma muito erudita de falar, com palavras incomuns e um jeito formal, herança dos códigos e da literatura do Direito. Tive que aprender a ser mais coloquial, direta, simples na TV", explica.
Para ela, a formação oferece as ferramentas técnicas para atuar na área, mas o domínio da palavra independe do curso. "Isso se obtém na prática. No entanto, a formação de jornalista é necessária para manter a boa qualificação do profissional. Ter diploma em outras áreas poderia fazer um curso de jornalismo reduzido, apenas para apropriar-se da técnica", sugere.
Depois dos números
O jornalista Luis Augusto Simon, mais conhecido como Menon, também é formado em engenharia, mas não chegou a exercer a profissão. "Foi melhor para a vida das pessoas", brinca ele.
Colunista do portal UOL, Menon atua como repórter desde 1988 e acumula passagens pelo portal Trivela e os jornais Agora e Jornal da Tarde. Também é autor dos livros "Os 11 Maiores Goleiros do Futebol Brasileiro" e "Nascido Para Vencer".
Ele conta que na época em que estudava jornalismo encontrou com um amigo que lhe ofereceu uma vaga no Jornal da Tarde . Em sua primeira experiência com a profissão, fez uma matéria sobre a seleção brasileira de basquete, que havia recém conquistado a vitória nos Jogos Pan-Americanos de 1987, realizados na cidade de Indianápolis, nos Estados Unidos, e foi contratado.
Para Menon, o curso de engenharia contribui na questão da afinidade com os números, o que facilita numa cobertura que envolva raciocínio rápido. O jornalista, entretanto, explica que o que mais contribuiu não foi propriamente seu conhecimento na área, mas porque o cursou em 1970, época da ditadura. “Sempre me interessei por política também e outros assuntos ligados ao jornalismo”.
Menon avalia que ter o diploma de jornalista é muito bom para ter meios de valorizar a classe trabalhadora, mas ao mesmo tempo, estabelecer que apenas os profissionais formados na área possam fazer jornalismo é uma ameaça à liberdade de expressão. “A história do jornalismo brasileiro é construída por profissionais que não têm diploma como Cláudio Abramo e Nelson Rodrigues”, pondera.
Arquitetando o jornalismo
Formado em arquitetura, Silvio Lancellotti também é jornalista, gastrônomo, escritor e comentarista esportivo. Iniciou a carreira no jornalismo em 1968. A oportunidade veio quando leu um anúncio na revista Realidade , no qual informava que a Abril estava em busca de jovens com diploma universitário e que falassem mais de um idioma. Ele enviou uma carta-resposta e foi convidado a participar de um curso compacto. “Foi a montagem da equipe que, em setembro, lançaria a Veja. Nunca mais larguei”, relata.
Lancellotti deixou a arquitetura em 1977, quando já atuava na IstoÉ como redator-chefe, o que impossibilitou seguir nas duas áreas. Ele destaca que ser arquiteto contribui em muitos aspectos não apenas da profissão. “Um arquiteto tem uma visão bem abrangente da vida, pessoal ou profissional”, diz.
O jornalista também passou pelas redações da Vogue e Gourmet , colaborou para a Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo . Na televisão trabalhou na Rede Manchete, Rede Record e ESPN Brasil. Atualmente, mantém um blog que mistura culinária e esportes no portal R7. Como escritor, produziu 23 livros entre culinária, romances e esportes
Para ele, que se aprofundou no jornalismo anos depois de começar a carreira em 1972, quando estudou na Universidade de Stanford, a formação não é o único fator que torna o jornalista um bom profissional. ”Um jornalista necessita, mesmo, é ler bastante, e aprender de que maneira se domina o código dos idiomas”, acrescenta.
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* Com supervisão de Vanessa Gonçalves.

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