Jornalistas apontam desafios e perspectivas de reportagens em quadrinhos no Brasil
Se o futuro do jornalismo é incerto, uma das alternativas de redenção pode estar presente nos moldes das reportagens em quadrinho. O gênero foi marcado com a publicação "Maus", de Art Spiegelman, e "Palestina", do jornalista maltês Joe Sacco, em meados da década de 1990.
Crédito:Reprodução Revista "Fórum" publica o gênero em artes criadas por Alexandre de Maio e Carlos Carlos
Com apropriações de recursos literários, a narrativa é breve, mas precisa no que importa a uma apuração. Estão presentes nela, combinados em imagens e palavras, o lead, o gancho jornalístico e o lado humano dos fatos.
Apesar de ser uma prática ainda pouco utilizada em jornais e revistas, ganhando contornos maiores em obras, há quem aposte na técnica. A revista Fórum , por exemplo, consolidou, em versão impressa, uma série de reportagens em quadrinhos dos jornalistas Carlos Carlos e Alexandre de Maio.
Ao longo de 2012 foram 11 edições e o trabalho continua. Alexandre conta que além de produzir conteúdos para revista, lançará um livro do gênero no próximo ano. “É algo que ainda tem muito para crescer e alguns veículos estão começando a usar essa vertente”, explica.
Alexandre ressalta que ainda há muita confusão do jornalismo em quadrinhos com charges e tirinhas de jornais, além da falta de credibilidade sobre a prática, pois há uma avaliação de que, no uso da técnica pode haver uma grande carga de interpretação, fugindo ao relato fiel dos fatos. No entanto, para o jornalista, cada trabalho é relativo.
“O jornalista pode ser muito fiel aos fatos desenhando, como Joe Sacco e vários outros caras fizeram. Eles produziram coberturas incríveis com desenho e sem interferir no conteúdo de veracidade. Até porque se a gente for analisar mais o assunto, todo texto tem o olhar de quem faz”, diz.
Já Augusto Paim, que ministra palestras e oficinas sobre o assunto, além de ser curador e organizador do 1º Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos, em 2010, que ocorreu no Goethe-Institut Porto Alegre (RS), discute a prática em seu doutorado e afirma que é necessário aliar a credibilidade do jornalismo com o que o gênero oferece.
“Há o desafio de inventar o campo e estabelecer regras que não existem. Muitos praticam, mas não são jornalistas. Outro ponto seria conhecer bem a linguagem para realmente fazer obras de relevância e entender para quais temas e que tipos de reportagens a linguagem dos quadrinhos podem ser úteis. O desenho tem que trabalhar junto com o texto e não só como acessório”, explica.
Paim destaca que, para que a arte sequencial dê certo no jornalismo, é preciso conhecer bem a linguagem do gênero, saber sobre a produção, pensar visualmente, entender os aspectos relevantes e quais informações visuais devem ser inseridas no desenho. “O quadrinho precisa mostrar e o jornalismo contar”, completa.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves
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