Jornalista que ficou tetraplégica após acidente prepara seu retorno à TV Record MS
Jornalista que ficou tetraplégica após acidente prepara seu retorno à TV Record MS
Atualizado em 13/09/2010 às 19:09, por
Thaís Naldoni e editora-executiva do Portal IMPRENSA.
Por A jornalista Ana Paula Cardoso, 27, natural de Brasília (DF), está preparando seu retorno à redação da TV MS Record, de Campo Grande (MS). Dias depois de entrar em seu período de férias, em janeiro de 2009, Ana Paula rumou para a capital federal e depois para a cidade de Pirenópolis (GO). Na volta a Brasília, um acidente deixou a jornalista à beira da morte e, em consequência do impacto, uma lesão na medula tirou seus movimentos do pescoço para baixo.
Durante sua recuperação, a TV Record local divulgou diversas campanhas, no intuito de ajudar nos custos da reabilitação da jornalista, que vem, desde então, reaprendendo a conviver com seu corpo, e desenvolvendo novamente movimentos que se tornaram limitados após a lesão.
Com contrato ainda vigente com a emissora, a repórter gostaria de ter voltado a trabalhar em dezembro passado, mas continuou a dedicar-se à reabilitação para que tivesse mais autonomia em sua volta ao canal, prevista para o final deste ano.
E sobre seu retorno, seus planos, e a vida antes e depois do acidente é que Ana Paula Cardoso conversa com o Portal IMPRENSA. Acompanhe.
Portal IMPRENSA - Seu acidente aconteceu há pouco mais de um ano e meio. Qual era sua situação profissional na ocasião? Ana Paula Cardoso - Posso dizer que estava sendo lapidada. Isso porque após um ano de casa (estou na TV MS Record desde julho de 2007), a emissora passou por uma grande reformulação na estrutura jornalística. Antes tínhamos apenas um jornal, três repórteres de rua, três produtores e uma apresentadora. Isso foi até interessante, porque fazer um jornal com recursos de equipe limitados era um desafio. Tive muito apoio da nossa apresentadora na época, a jornalista Danielly Escher. Ela me ajudou a entender a estrutura e melhorar o texto.
Quando a emissora foi reformulada em agosto de 2008 com a contratação de profissionais de renome da concorrente, a TV Morena, afiliada da TV Globo, me agarrei à oportunidade e literalmente os sugava o tempo todo. Eles perceberam e gostaram. Tanto que da equipe anterior, apenas eu permaneci como repórter de rua.
Foram cinco meses de entrega total. Conquistei a confiança dos meus superiores e eles iam cuidando da minha estrutura textual. E fui ganhando pautas maiores.
A médio prazo, planejava alcançar mais qualidade e notoriedade. Eu ainda estava engatinhando e já ficando em pé. O acidente me pegou justo nessa fase, uma repórter nova que desejava ser reconhecida profissionalmente.
Portal IMPRENSA - Quanto ao acidente, como aconteceu? Você não estava trabalhando... Ana Paula - Eu estava de férias, após quase dois anos trabalhando. Tenho família em Brasília (DF) e sempre que podia ia visitá-los. Na segunda semana das férias, recebi um convite de um amigo de longa dada para ir a Pirenópolis (GO). O acidente aconteceu na volta, quase chegando a Brasilia.
Portal IMPRENSA - Você tem lembranças claras? Ana Paula - Sim. Voltamos pela antiga estrada que dá acesso ao município, a BR 414. Sempre soube da fama de Goiás de ter péssimas estradas e, mesmo assim, voltamos por uma estrada que o motorista não conhecia. Outro detalhe é que havia chovido muito no dia e no momento do acidente caía uma chuva fina.
Infelizmente, ele havia bebido horas antes de dirigir. Tive o relapso de permitir que ele dirigisse mesmo tendo feito várias matérias de acidentes em rodovias e até mesmo visto corpos. Mas é estranho como as coisas acontecem: não pensei nesse detalhe. Estávamos em três no carro.
Estávamos chegando a Cocalzinho de Goiás e, com isso, começaram os quebra-molas. Lembro que o motorista se abaixou segundos antes como se coçasse a perna. O carro estava a aproximadamente 120 km/h e próximo ao carro da frente que freou no quebra-mola. A colega que estava atrás se assustou e gritou. Com isso o motorista, ao invés de tentar frear e permitir uma batida puxou o carro para a esquerda.
A estrada em que estávamos é seguida por ribanceiras. Caímos de uma altura de quase 10 metros, o carro capotou aproximadamente quatro vezes. Lembro de ter vivenciado todo esse momento, não desmaiei.
Dessa forma pude perceber o exato momento da lesão, quando meus braços travaram e se fecharam. Embora não entendesse o que havia acontecido, nem imaginasse que estava tetraplégica.
Portal IMPRENSA - O acidente aconteceu em um local de difícil resgate? Ana Paula - Meu resgate demorou cerca de 1h40 minutos para chegar, isso porque fui atendida por equipe de Brasília. Só que, enquanto isso, Deus não me abandonou. Logo após o capotamento, meus colegas iam me tirar do carro. Isso poderia ter me matado porque meu pescoço estava literalmente solto. Atrás de nós vinha um carro com dois paramédicos fora de serviço. Creio que isso foi providência divina, Deus me preservou a vida!
Portal IMPRENSA - Qual foi a postura da empresa quanto à sua recuperação? Seu contrato de trabalho foi expirado? Ana Paula - A TV MS Record deu todo o suporte possível a mim e a minha família. Muitos me questionam sobre isso e até duvidam. Na época, ajudaram a montar uma campanha de arrecadação de dinheiro e divulgavam nos telejornais. Fora isso, meus colegas de redação e nosso diretor, Ulisses Serra Neto, mantiveram o apoio emocional.
Meu contrato não foi expirado, ao contrário, ele é mantido. Entretanto, ainda estou licenciada pelo INSS até fevereiro de 2011. Meus chefes não me forçam a retornar até que eu me sinta apta para isso, apesar de demonstrarem constantemente que desejam o meu retorno. Não por obrigação, mas por sentirem falta do meu trabalho e presença.
Portal IMPRENSA - Como está sendo o processo de reabilitação? Ana Paula - Faço fisioterapia três vezes por semana durante três horas em um centro desenvolvido pela faculdade Estácio de Sá chamado CRELAME (Centro de Recuperação do Lesado Medular). O atendimento é feito por professores doutores e acadêmicos a partir do primeiro ano de fisioterapia.
Além disso, tenho um dia de fisioterapia solo com uma fisioterapeuta particular. A mesma me acompanha nas sessões de hidroterapia. Atividade que ajudou muito na inibição dos espasmos e amplitude corporal.
Aventuro-me também no lombo do cavalo. Desde março faço equoterapia. É um exercício e tanto para eu trabalhar meu equilíbrio. O legal é que o trote do cavalo é o mais parecido com o nosso movimento de quadril quando andamos, logo é um estimulo sensorial enviado para o meu cérebro. No começo precisava de quatro pessoas me segurando, agora são duas. E tenho certeza que logo estarei sozinha!
E para as mãos e especifico trabalho de braço faço terapia ocupacional. Em cinco meses já tenho leve pinça lateral em ambas as mãos.
Portal IMPRENSA - Qual a gravidade de sua lesão? Ana Paula - Minha lesão é cervical, na vértebras C6 C7. O impacto na medula foi muito grave, mas já tenho conquistado grandes avanços. Já tenho sensibilidade de toque em quase todo o braço e já recuperei da coordenação motora. Com isso alimento-me sozinha e pego alguns tipos de objetos leves. O tronco está sob maior controle, possibilitando maior equilíbrio tanto ao sentar na cama quanto na cadeira. Além de contração voluntária de bíceps, leve contração de tricípites e avanço na contração abdominal. Consigo sentir o alongamento da lombar e observo pressão nas coxas e panturrilha, além de perceber quando sou tocada nas plantas dos pés.
Portal IMPRENSA - Qual você avalia ser a importância de ter havido uma novela na TV Globo, em que a temática da deficiência ganhou papel de destaque? Ana Paula - Até certo ponto foi útil. Isso porque tratou de um assunto que não era tão discutido abertamente entre o grande público. Mas ao mesmo tempo causou um desserviço ao explicar de maneira errada a tetraplegia. Tomo como exemplo cenas em que a personagem gritava histericamente. Apesar da licença poética, cenas assim deveriam ter sido mais cuidadosas. Muitos amigos me perguntavam se isso era possível já que demorei muitos meses para ter uma capacidade aceitável do diafragma.
Além disso, a pressa de se contar a história mostrou evoluções da personagem que demoram a acontecer. O autor errou em não localizar na linha temporal o tempo de lesão da personagem. Com isso, muitas pessoas questionavam porque eu não tinha tal movimento. Mas, de certa maneira, todas essas evoluções me motivaram a acreditar que eu posso, um dia, recuperar algum movimento e a tentar outros.
Portal IMPRENSA - E quanto às questões estruturais e de acesso aos deficientes? Ana Paula - Confesso que me irritava ao ver cenas em que a Luciana ia a um restaurante e estava tudo lindo: rampas de acesso, mesas espaçosas, espaço livre entre as mesas. Por que não a mostraram chegando a um desses lugares e o tal do Miguel tendo que subir degrau por degrau ou então no colo? Ou o Rio é um paraíso de acessibilidade ou onde moro são todos insensíveis. E o cinema?! Por que a novela não questionou a falta de preparo das salas e colocou a Luciana toda apaixonada e feliz na primeira fila? Ninguém gosta da primeira fila, agora imagina um tetra que tem o pescoço duro por conta de parafusos e placa de titânio. Não agüenta cinco minutos.
Mas ela trouxe à tona a discussão e conseguiu sensibilizar alguns cidadãos. Muito ainda precisa ser feito.
Portal IMPRENSA - Você acredita que a entrada de Flávia Cintra, tetraplégica, como repórter do Fantástico, pode abrir mais o mercado de jornalismo televisivo para deficientes físicos? Ana Paula - Acredito que sim. E o mais importante falando de outros assuntos que não são referentes apenas a deficientes físicos. Ou seja, uma pessoa com lesão ou qualquer outra limitação, não serve só para pautas especificas.
Prova disso são os jornalistas Carla Maia e Jairo Marques. Ela que fez uma importante cobertura dos Jogos Paraolímpicos de Pequim, em 2008, com o programa "Sem Barreiras", do canal Sport TV. Além de reportagens para o programa "Caminhos da Reportagem", da TV Brasil.
E o Jairo que depois de ser repórter para a Folha de S.Paulo em diversas pautas, assumiu o cargo de chefe de reportagem da Agência Folha e, mais tarde, colunista do jornal. Lembrando, é claro, da carismática Juliana Oliveira que faz um programa, também na TV Brasil. Esse já todo voltado para a inclusão de deficientes físicos.
Como qualquer profissional, pessoas com deficiência estão ai e deixando suas marcas, só que ainda em um público restrito. A postura da Rede Globo em contratar a Flávia Cintra pode ajudar a dar mais visibilidade para esses profissionais. Acredito que quanto mais os deficientes físicos aparecerem em canais abertos da TV brasileira, seja como jornalistas, atores, atletas, mais o preconceito embutido na sociedade será dissolvido.
Portal IMPRENSA - E seu planejamento profissional? Quando você volta à TV? Ana Paula - Eu já queria ter voltado em dezembro passado quando deixei o hospital Sarah, mas meus movimentos de braços ainda eram muito limitados. Logo dediquei esse ano para a reabilitação.
Neste mês de setembro, vou para o Sarah [O Hospital Sarah Kubitschek, especializado em reabilitação de vítimas de politraumatismos e problemas locomotores] e, quando voltar, vou direto para a redação! A princípio, vou trabalhar com produção e edição. Mas a meta é reconquistar a desenvoltura profissional e ir pras ruas, plano que já foi deixado claro pelos meus chefes. Sem falar no desejo de criar um programa que trate de assuntos relacionados a pessoas com deficiência inspirado no "Programa Especial". Mas esse é um projeto que ainda está sendo esquematizado para ser apresentado aos diretores.
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Durante sua recuperação, a TV Record local divulgou diversas campanhas, no intuito de ajudar nos custos da reabilitação da jornalista, que vem, desde então, reaprendendo a conviver com seu corpo, e desenvolvendo novamente movimentos que se tornaram limitados após a lesão.
Com contrato ainda vigente com a emissora, a repórter gostaria de ter voltado a trabalhar em dezembro passado, mas continuou a dedicar-se à reabilitação para que tivesse mais autonomia em sua volta ao canal, prevista para o final deste ano.
E sobre seu retorno, seus planos, e a vida antes e depois do acidente é que Ana Paula Cardoso conversa com o Portal IMPRENSA. Acompanhe.
Portal IMPRENSA - Seu acidente aconteceu há pouco mais de um ano e meio. Qual era sua situação profissional na ocasião? Ana Paula Cardoso - Posso dizer que estava sendo lapidada. Isso porque após um ano de casa (estou na TV MS Record desde julho de 2007), a emissora passou por uma grande reformulação na estrutura jornalística. Antes tínhamos apenas um jornal, três repórteres de rua, três produtores e uma apresentadora. Isso foi até interessante, porque fazer um jornal com recursos de equipe limitados era um desafio. Tive muito apoio da nossa apresentadora na época, a jornalista Danielly Escher. Ela me ajudou a entender a estrutura e melhorar o texto.
| Divulgação |
| Ana Paula Cardoso em entrevista |
Quando a emissora foi reformulada em agosto de 2008 com a contratação de profissionais de renome da concorrente, a TV Morena, afiliada da TV Globo, me agarrei à oportunidade e literalmente os sugava o tempo todo. Eles perceberam e gostaram. Tanto que da equipe anterior, apenas eu permaneci como repórter de rua.
Foram cinco meses de entrega total. Conquistei a confiança dos meus superiores e eles iam cuidando da minha estrutura textual. E fui ganhando pautas maiores.
A médio prazo, planejava alcançar mais qualidade e notoriedade. Eu ainda estava engatinhando e já ficando em pé. O acidente me pegou justo nessa fase, uma repórter nova que desejava ser reconhecida profissionalmente.
Portal IMPRENSA - Quanto ao acidente, como aconteceu? Você não estava trabalhando... Ana Paula - Eu estava de férias, após quase dois anos trabalhando. Tenho família em Brasília (DF) e sempre que podia ia visitá-los. Na segunda semana das férias, recebi um convite de um amigo de longa dada para ir a Pirenópolis (GO). O acidente aconteceu na volta, quase chegando a Brasilia.
| Divulgação |
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Portal IMPRENSA - Você tem lembranças claras? Ana Paula - Sim. Voltamos pela antiga estrada que dá acesso ao município, a BR 414. Sempre soube da fama de Goiás de ter péssimas estradas e, mesmo assim, voltamos por uma estrada que o motorista não conhecia. Outro detalhe é que havia chovido muito no dia e no momento do acidente caía uma chuva fina.
Infelizmente, ele havia bebido horas antes de dirigir. Tive o relapso de permitir que ele dirigisse mesmo tendo feito várias matérias de acidentes em rodovias e até mesmo visto corpos. Mas é estranho como as coisas acontecem: não pensei nesse detalhe. Estávamos em três no carro.
Estávamos chegando a Cocalzinho de Goiás e, com isso, começaram os quebra-molas. Lembro que o motorista se abaixou segundos antes como se coçasse a perna. O carro estava a aproximadamente 120 km/h e próximo ao carro da frente que freou no quebra-mola. A colega que estava atrás se assustou e gritou. Com isso o motorista, ao invés de tentar frear e permitir uma batida puxou o carro para a esquerda.
A estrada em que estávamos é seguida por ribanceiras. Caímos de uma altura de quase 10 metros, o carro capotou aproximadamente quatro vezes. Lembro de ter vivenciado todo esse momento, não desmaiei.
Dessa forma pude perceber o exato momento da lesão, quando meus braços travaram e se fecharam. Embora não entendesse o que havia acontecido, nem imaginasse que estava tetraplégica.
Portal IMPRENSA - O acidente aconteceu em um local de difícil resgate? Ana Paula - Meu resgate demorou cerca de 1h40 minutos para chegar, isso porque fui atendida por equipe de Brasília. Só que, enquanto isso, Deus não me abandonou. Logo após o capotamento, meus colegas iam me tirar do carro. Isso poderia ter me matado porque meu pescoço estava literalmente solto. Atrás de nós vinha um carro com dois paramédicos fora de serviço. Creio que isso foi providência divina, Deus me preservou a vida!
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| A jornalista durante fisioterapia |
Portal IMPRENSA - Qual foi a postura da empresa quanto à sua recuperação? Seu contrato de trabalho foi expirado? Ana Paula - A TV MS Record deu todo o suporte possível a mim e a minha família. Muitos me questionam sobre isso e até duvidam. Na época, ajudaram a montar uma campanha de arrecadação de dinheiro e divulgavam nos telejornais. Fora isso, meus colegas de redação e nosso diretor, Ulisses Serra Neto, mantiveram o apoio emocional.
Meu contrato não foi expirado, ao contrário, ele é mantido. Entretanto, ainda estou licenciada pelo INSS até fevereiro de 2011. Meus chefes não me forçam a retornar até que eu me sinta apta para isso, apesar de demonstrarem constantemente que desejam o meu retorno. Não por obrigação, mas por sentirem falta do meu trabalho e presença.
Portal IMPRENSA - Como está sendo o processo de reabilitação? Ana Paula - Faço fisioterapia três vezes por semana durante três horas em um centro desenvolvido pela faculdade Estácio de Sá chamado CRELAME (Centro de Recuperação do Lesado Medular). O atendimento é feito por professores doutores e acadêmicos a partir do primeiro ano de fisioterapia.
Além disso, tenho um dia de fisioterapia solo com uma fisioterapeuta particular. A mesma me acompanha nas sessões de hidroterapia. Atividade que ajudou muito na inibição dos espasmos e amplitude corporal.
Aventuro-me também no lombo do cavalo. Desde março faço equoterapia. É um exercício e tanto para eu trabalhar meu equilíbrio. O legal é que o trote do cavalo é o mais parecido com o nosso movimento de quadril quando andamos, logo é um estimulo sensorial enviado para o meu cérebro. No começo precisava de quatro pessoas me segurando, agora são duas. E tenho certeza que logo estarei sozinha!
E para as mãos e especifico trabalho de braço faço terapia ocupacional. Em cinco meses já tenho leve pinça lateral em ambas as mãos.
Portal IMPRENSA - Qual a gravidade de sua lesão? Ana Paula - Minha lesão é cervical, na vértebras C6 C7. O impacto na medula foi muito grave, mas já tenho conquistado grandes avanços. Já tenho sensibilidade de toque em quase todo o braço e já recuperei da coordenação motora. Com isso alimento-me sozinha e pego alguns tipos de objetos leves. O tronco está sob maior controle, possibilitando maior equilíbrio tanto ao sentar na cama quanto na cadeira. Além de contração voluntária de bíceps, leve contração de tricípites e avanço na contração abdominal. Consigo sentir o alongamento da lombar e observo pressão nas coxas e panturrilha, além de perceber quando sou tocada nas plantas dos pés.
| Divulgação |
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| Ana Paula sendo entrevistada em TV |
Portal IMPRENSA - Qual você avalia ser a importância de ter havido uma novela na TV Globo, em que a temática da deficiência ganhou papel de destaque? Ana Paula - Até certo ponto foi útil. Isso porque tratou de um assunto que não era tão discutido abertamente entre o grande público. Mas ao mesmo tempo causou um desserviço ao explicar de maneira errada a tetraplegia. Tomo como exemplo cenas em que a personagem gritava histericamente. Apesar da licença poética, cenas assim deveriam ter sido mais cuidadosas. Muitos amigos me perguntavam se isso era possível já que demorei muitos meses para ter uma capacidade aceitável do diafragma.
Além disso, a pressa de se contar a história mostrou evoluções da personagem que demoram a acontecer. O autor errou em não localizar na linha temporal o tempo de lesão da personagem. Com isso, muitas pessoas questionavam porque eu não tinha tal movimento. Mas, de certa maneira, todas essas evoluções me motivaram a acreditar que eu posso, um dia, recuperar algum movimento e a tentar outros.
Portal IMPRENSA - E quanto às questões estruturais e de acesso aos deficientes? Ana Paula - Confesso que me irritava ao ver cenas em que a Luciana ia a um restaurante e estava tudo lindo: rampas de acesso, mesas espaçosas, espaço livre entre as mesas. Por que não a mostraram chegando a um desses lugares e o tal do Miguel tendo que subir degrau por degrau ou então no colo? Ou o Rio é um paraíso de acessibilidade ou onde moro são todos insensíveis. E o cinema?! Por que a novela não questionou a falta de preparo das salas e colocou a Luciana toda apaixonada e feliz na primeira fila? Ninguém gosta da primeira fila, agora imagina um tetra que tem o pescoço duro por conta de parafusos e placa de titânio. Não agüenta cinco minutos.
Mas ela trouxe à tona a discussão e conseguiu sensibilizar alguns cidadãos. Muito ainda precisa ser feito.
Portal IMPRENSA - Você acredita que a entrada de Flávia Cintra, tetraplégica, como repórter do Fantástico, pode abrir mais o mercado de jornalismo televisivo para deficientes físicos? Ana Paula - Acredito que sim. E o mais importante falando de outros assuntos que não são referentes apenas a deficientes físicos. Ou seja, uma pessoa com lesão ou qualquer outra limitação, não serve só para pautas especificas.
Prova disso são os jornalistas Carla Maia e Jairo Marques. Ela que fez uma importante cobertura dos Jogos Paraolímpicos de Pequim, em 2008, com o programa "Sem Barreiras", do canal Sport TV. Além de reportagens para o programa "Caminhos da Reportagem", da TV Brasil.
E o Jairo que depois de ser repórter para a Folha de S.Paulo em diversas pautas, assumiu o cargo de chefe de reportagem da Agência Folha e, mais tarde, colunista do jornal. Lembrando, é claro, da carismática Juliana Oliveira que faz um programa, também na TV Brasil. Esse já todo voltado para a inclusão de deficientes físicos.
Como qualquer profissional, pessoas com deficiência estão ai e deixando suas marcas, só que ainda em um público restrito. A postura da Rede Globo em contratar a Flávia Cintra pode ajudar a dar mais visibilidade para esses profissionais. Acredito que quanto mais os deficientes físicos aparecerem em canais abertos da TV brasileira, seja como jornalistas, atores, atletas, mais o preconceito embutido na sociedade será dissolvido.
Portal IMPRENSA - E seu planejamento profissional? Quando você volta à TV? Ana Paula - Eu já queria ter voltado em dezembro passado quando deixei o hospital Sarah, mas meus movimentos de braços ainda eram muito limitados. Logo dediquei esse ano para a reabilitação.
Neste mês de setembro, vou para o Sarah [O Hospital Sarah Kubitschek, especializado em reabilitação de vítimas de politraumatismos e problemas locomotores] e, quando voltar, vou direto para a redação! A princípio, vou trabalhar com produção e edição. Mas a meta é reconquistar a desenvoltura profissional e ir pras ruas, plano que já foi deixado claro pelos meus chefes. Sem falar no desejo de criar um programa que trate de assuntos relacionados a pessoas com deficiência inspirado no "Programa Especial". Mas esse é um projeto que ainda está sendo esquematizado para ser apresentado aos diretores.
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