Jornalista que embarcou no "voo da morte" comenta bastidores da "reportagem"

"Na minha matéria eu tentei mostrar que a gente está indo atrás, é curioso, mas também é inútil e irrelevante", diz Rodrigo Bertolotto.

Atualizado em 28/11/2014 às 16:11, por Lucas Carvalho*.

“Repórter do UOL desafia premonição, embarca no ‘voo da morte’ e sobrevive”. A publicada na última quarta-feira (26/11) pelo portal UOL chamou a atenção dos internautas por trazer a narrativa, em primeira pessoa, do jornalista Rodrigo Bertolotto, sobre um corriqueiro voo entre São Paulo (SP) e Brasília (DF).
Crédito:Divulgação Rodrigo Bertolotto comenta bastidores da notícia que não foi
Além do UOL, Folha de S. Paulo e até a TV Bandeirantes também colocaram repórteres no voo JJ3720 da TAM, que partiu às 8h30 do Aeroporto de Congonhas com destino ao Juscelino Kubitschek, na capital federal. O vice-presidente de operações e manutenção da companhia aérea, Ruy Amparo, fez questão de embarcar no mesmo voo, cuja numeração foi alterada dias antes.
O motivo para o protagonismo da viagem vem de uma suposta “premonição” do autointitulado vidente Jucelino Nóbrega da Luz. Nove anos atrás, ele diz ter registrado em cartório a visão de que o voo 3720 da TAM teria um destino trágico, se chocando com um prédio na Av. Paulista, zona centro-sul de São Paulo. O mesmo vidente é conhecido por ter “acertado” a morte de Eduardo Campo durante a disputa presidencial deste ano.
A primeira matéria sobre a premonição foi publicada pelo próprio UOL, numa entrevista em vídeo com Jucelino que foi ao ar em abril. No início de novembro, outros veículos resgataram a notícia e o portal R7 informou que o síndico do edifício “condenado” estava avisando os condôminos sobre a iminência de uma catástrofe.
Depois disso, manchetes sobre a premonição se multiplicaram na web, alimentando a discussão nas redes sociais. Esse trending foi o que chamou novamente a atenção do UOL, deslocando o repórter Rodrigo Bertolotto para embarcar no “voo da morte”. “Meu chefe teve a ideia, assim como um monte de jornalistas teve. Dois dias antes a gente fechou que iríamos fazer a pauta e no dia seguinte compramos a passagem”, revela.
A possibilidade de a premonição se confirmar, porém, nem passou pela cabeça do jornalista, que ri da ideia. “O engraçado é o seguinte: eu estava com mais medo no dia anterior, porque eu não poderia morrer antes. Tipo o peru que não pode morrer na véspera. [risos] Eu tinha que morrer de alguma coisa que me desse fama, e não morrer, sei lá, atropelado ou de parada cardíaca”, brinca.
“Deve ter sido um dos voos mais seguros, até porque a TAM se preocupou, mudou o número do voo, tinha um executivo da companhia a bordo… Já o voo da volta, de Brasília, foi mais conturbado. Teve turbulência e a gente teve que descer no aeroporto de Cumbica e não em Congonhas como era o planejado. O voo do retorno foi mais problemático, mas não deu medo”, acrescenta o jornalista.
Crédito:Reprodução Jornalista revela que o voo foi mais seguro que o normal
Bertolotto diz que o assunto chamou a atenção da mídia por conta do histórico de “acertos” do vidente, além do nível de detalhes de sua premonição e a referência imediata aos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, nos EUA. “Um avião cair na Paulista batendo em um prédio, já tem um imaginário em torno disso. As pessoas pensam ‘vai ter um 11 de setembro brasileiro’”, diz.
Já a decisão de escrever a matéria em primeira pessoa, como uma crônica, foi tomada pelo aspecto curioso da pauta. De acordo com Bertolotto, o fato de nada ter acontecido no voo torna a história uma “não-notícia”. “Era uma premonição, que o cara desmentiu dois dias antes, dizendo que o avião não ia cair mais. E não aconteceu nada! Não faria sentido fazer um lead normal, com uma manchete ‘avião pousa em Brasília’. Se cada avião que pousa em Brasília merecer uma matéria...”, comenta.
O repórter diz ainda que seu objetivo com o texto, de certa maneira, era o de provocar uma reflexão. No início da narrativa, ele escreve que a manchete “deve ser a mais sensacional que um corriqueiro voo São Paulo-Brasília já recebeu”, além de destacar o valor de sua profissão como um “sacerdócio”.
“Isso é um pouco de reflexo do noticiário motivado pelas redes sociais. Muitas vezes o que está acontecendo lá é um mundo à parte, que fomenta a audiência – mas qual a importância disso? Na minha matéria eu tentei mostrar que a gente está indo atrás, é curioso, é bizarro, mas também é inútil e irrelevante. Serve como lazer, diversão, mas não tem importância nenhuma”, diz Bertolotto.
“A lógica é aquela: vamos falar sobre o que os internautas estão falando e não sobre o que a gente acha que eles devem falar”, finaliza o jornalista.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves