Jornalista Pedro Rodrigues Neto mostra que a corrupção é ‘culpa do jeitinho brasileiro’
Primeira obra do jornalista trata sobre o vírus da política, a corrupção. Para evitá-la, é preciso acabar com suas ocorrências no cotidiano.
Atualizado em 11/11/2014 às 17:11, por
Christh Lopes*.
Acabamos de sair de uma eleição, mas nos debates não foram colocadas em pauta as propostas dos candidatos, mas a ética e lisura dos postulantes à presidência diante do patrimônio público. De um lado, desvios numa estatal, de outro a construção de um aeroporto na terra de um parente. Agora, como o leitor quando fica diante de uma situação em que pode ganhar em detrimento dos demais?
Crédito:Divulgação Jornalista analisa como o jeitinho brasileiro ajuda na corrupção no país
O comportamento contraditório do brasileiro motivou o jornalista Pedro Rodrigues Neto a estudar afinco o que leva cada um a pensar de acordo com o 'próprio umbigo' num caso e bater o martelo como um juiz noutro. Basicamente, passa por uma interpretação dos fatos.
Em “A Culpa é do Jeitinho Brasileiro”, o leitor poderá acompanhar como cada atitude ilícita no dia a dia pode influenciar as pessoas que hoje ocupam os cargos mais importantes da nação. Baseada na experiência profissional do autor em jornais e em marketing político, a obra revela um lado do povo que não conhecemos. Uma parte em que ele deixa de ser vítima e passa a ser um dos responsáveis pela continuidade do processo.
O primeiro ponto a ser notabilizado é a ignorância. Quando a corrupção é encarada de frente, fica exposta como algo originado dentro da política, como um filho gerado pelos que estão no poder. “Sempre acreditei que isso não era verdade e por força da minha profissão acabei tendo provas reais de que a corrupção começa nas ruas, entre as pessoas e se propaga em todas as esferas da sociedade brasileira”, relata Rodrigues Neto.
Como repórter de cadernos de bairro, conta que conheceu histórias de líderes comunitários que desviaram doações direcionadas às associações. Houve também aqueles que tentaram “plantar” notícias e denúncias com interesses políticos. Na reportagem policial, o autor teve acesso a histórias em “off” que custariam a sua vida caso fossem publicadas. Quando trabalhou em um jornal sindical, a situação também se repetia. Nela, entidades negociavam com empresários a partir de interesses.
Por outro lado, viu pais de família roubando água, energia elétrica e invadindo terrenos mesmo tendo uma casa própria. “Então, digo que escrever este livro foi como poder colocar para fora uma parte das coisas erradas que presenciei e sempre me deixaram muito triste. Infelizmente, temos um senso latente de que ‘o mundo é dos espertos’ e todos devem se defender com as armas que têm”.
A relação político vs eleitor
Na obra, o autor chama essa ligação entre eleitores e políticos de simbiose política, em que dois elementos cultivam e fortalecem o sistema: o eleitor coloca o preço no seu voto e o político compra o que puder. O que, para ele, mostra que não existe um vilão e uma vítima, mas revela que no final somos todos culpados.
Há algumas décadas, porém, o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda fez um estudo que extrai outra linha para explicar os motivos pelos quais apresentamos essa atitude. Ao analisar as “Raízes do Brasil”, o acadêmico apresenta o brasileiro como um homem que, ao se relacionar com instituições públicas, se deixa levar pela emoção para beneficiar um ou outro, e que isso seria uma herança maldita da coroa portuguesa.
Em sua visão, a cordialidade tupiniquim não passa de um comportamento espelhado nos colonizadores, que montaram órgãos unilaterais e que seriam propensos a negociatas, como passar um colega na frente de uma fila por ser seu amigo.
A verdade é que após Buarque de Holanda identificar uma característica da conduta do cidadão brasileiro, poucas pessoas tentaram ir a fundo para compreendê-la. Apesar do termo “jeitinho” ser massificado, o conceito não foi aprofundado. O jornalista Pedro Rodrigues Neto preenche essa lacuna. “É engraçado, porque é uma obra de 1936 e retrata situações e traça perfis que são exatamente iguais aos que encontramos hoje”, disse ele, que discorda do idealizador deste verbete.
Sem querer se comparar ao nobre escritor, pretende colocar holofotes no tema que, em sua visão, falta um senso de debate e uma defesa dos princípios. “Nos falta à crítica sobre quem somos, porque somos e como agimos. Tudo é muito normal no Brasil. Furar fila, jogar lixo no chão, falsificar atestado médico, mentir em audiência, desviar dinheiro de caixa, receber troco errado”, disserta.
A causalidade pode ser percebida quando o protagonista de um ato ilícito defende: “tudo pode, ao menos que seja ‘eu’ quem ganhe”. Portanto, a publicação tem como norte levantar uma reflexão sobre o que acontece para deixar com que tamanha desvirtuação da ética permaneça como algo comum no cotidiano, pois é assim, debatendo os problemas que surgem as grandes soluções.
Crédito:Divulgação Obra analisa como sociedade se corrompe
Neto avalia que parte da população quer viver uma vida fácil, que “ganha hoje para comer hoje” e quando tudo dá errado joga a culpa no governo. “Eu diria a você que um grande vilão nessa história é a mídia de entretenimento, que vende o brasileiro como vira-lata que não desiste nunca e vive de jeito. Basta puxar na memória quantos programas enaltecem a falta de dinheiro como algo característico”, diz.
Na telinha, é onde os estereótipos ganham força e, aos poucos, tomam conta da cultura dos que a assistem. “Agostinho, de ‘A Grande Família’, era o personagem mais adorado da série. Tudo bem que era divertido, mas admirar um malandro que não paga as contas, vive de golpe e sempre querendo se dar bem diz muito sobre nós, não é mesmo? Ao mesmo tempo tinha o Lineu, que era um servidor público incorruptível que sustentava os filhos que não estudaram, a esposa e o genro”.
O jornalista afirma que Lineu devia para ser o espelho de todos nós, mas era visto como o chato, o ‘Caxias’, que sempre estava de mau humor. “Vejo que nós achamos bonito ser assim e isso tem relação alguma com um povo que passou aqui há mais de 500 anos. As gerações poderiam ter corrigido o curso moral da sociedade, não o fez porque é mais conveniente ser assim”, salienta.
Imprensa e a corrupção: tudo a ver?
Formadora de opinião, a mídia atua no processo de construção da realidade. Ao escolher como abordar um assunto, pode levar pontos de vista e causar reações nos espectadores, como indignação seletiva ou emoção exacerbada. Para o autor, a questão é o que as pessoas fazem com a informação. “Como jornalista, senti na pele o desdém com que as pessoas tratam este trabalho”.
A desvalorização do que está sendo noticiado e a não contestação da moralidade das instituições públicas são algumas razões que explicam tais atitudes. “Nós levantamos problemas, mas é a população quem tem que dar andamento no processo exigindo mudanças reais e aplicando a moralização do sistema ao votar. O trabalho da imprensa reverbera nas mesas dos bares, mas não ecoa aos ouvidos da justiça pela falta de interesse e de ação da população”, ressalta o jornalista.
Com uma educação que ainda não atende às necessidades básicas de um cidadão, o brasileiro fica refém da pouca leitura, da mínima reflexão, e das facilidades de viver o hoje sem planejar o que será do amanhã. “A imprensa pode seguir denunciando, mas se o povo não tomar postura junto, as coisas vão terminar em conversa de mesa de bar com ares de indignação e nada mais”. No entanto, Neto lembra que a mídia também contribui para a manutenção do sistema de corrupção em vigor.
Tema central do debate eleitoral
Neste ano, os brasileiros viram na disputa presidencial mais disputada da história dois candidatos que se viam acusados de cometer atos ilícitos quando gestores das contas públicas. Estratégico e dirigido, o tema entra em discussão pela comoção que causa no público, segundo o profissional de imprensa.
Após trabalhar em mais de vinte campanhas eleitorais, Neto sabe bem as técnicas utilizadas para convencer o povo de que aquele político é mais preparado do que o adversário. Para ele, não há ainda o discernimento para ouvir um debate mais aprofundado sobre políticas públicas, política econômica, metas orçamentárias, sendo essa uma das causas para a escolha sobre o assunto.
“Você adapta o espetáculo ao público presente. São esses espetáculos de acusação entre os lados que ajudam o povo a decidir como se fala no dito popular, ‘no menos pior’. É uma agressão a nossa moralidade. Se você chega ao nível de debater em uma campanha eleitoral crimes de corrupção de um candidato ou partido tem alguma coisa erra aí. O errado virou certo no Brasil”, alerta o jornalista.
Conforme conta, os programas que colocam frente a frente os políticos que disputam os mais altos postos públicos apresentam ‘pessoas entrincheiradas, que usam metralhadores giratórias disparando acusações e se defendendo de uma enxurrada de denúncias’. “Parece que no Brasil, responder a crimes de corrupção é um requisito básico para ser político e vencer eleição”, reclama.
“Não precisamos de um salvador da pátria, aliás, esse é outro engodo plantado pela mídia e que até hoje as pessoas esperam aparecer. O sistema não resolve a vida de ninguém, o sistema é o reflexo daquilo que as pessoas fazem em coletividade então vamos colocar a conduta, o comportamento e a moral de muitos brasileiros como o epicentro dos atos ilícitos no Brasil”, ressalta Rodrigues Neto.
Reforma política: dois pesos
Uma das poucas coisas que apresenta um consenso geral é a reforma política. Seja você de esquerda, direita, centro ou não politizado, todos concordam com a necessidade de mudanças no sistema atual. Só que, há um porém: quem irá conduzi-la? Apesar de a presidente manifestar um desejo de compor uma assembleia constituinte, ela dificilmente não será feita pelos parlamentares.
“Reforma política é uma grande brincadeira que fazem com o povo brasileiro. Como você vai elaborar algo que vai simplesmente tirar todas as vantagens e os vícios que foram construídos pelo executivo e o legislativo nesse país? Agora, se ela fosse bem feita nos daria novo oxigênio para seguir em frente e, com certeza, seria um elemento importante no combate a corrupção”, diz Neto.
O jornalista lista algumas medidas que poderiam diminuir a incidência dos atos ilícitos no poder público: fim da reeleição, cortar verbas de gabinete, tirar metade do salário dos políticos, exigir ensino superior completo e pós-graduação e cobrar históricos do candidato, como antecedentes criminais e negativas fiscais para evitar alçar alguém comprometido com crimes ou desvios.
Mas, é visto que ainda há entraves que dificultam a compreensão do juízo perante fatos errados para a lei, como a sociedade brasileira deveria se preparar para combater a corrupção? Como pode ajudar neste processo? “Vou responder com outra pergunta que poderá trazer uma resposta a cada leitor. Você está preparado para fazer o certo custe o que custar, em qualquer situação?”, indaga.
Para o autor, se cada brasileiro for capaz de fazer uma reflexão pessoal, seremos capazes de combater a corrupção e saber que ela não vem apenas da política, mas nasce e cresce na sociedade, nos bairros, entre pobres e ricos, patrões e empregados, eleitores e políticos, e fica exposta nos órgãos públicos, quando a imprensa traz os atos aos olhos do público.
Neste primeiro livro, Neto trata de um tema polêmico, mas para os próximos deve abordar questões mais conceituais e discorrer sobre outros temas."Quero colaborar com o processo de construção de um novo momento do país, auxiliar na condução de um novo comportamento para o povo brasileiro. É um desejo meu”, conclui.
Serviço: “A culpa é do jeitinho brasileiro” Autor: Pedro Rodrigues Neto. Editora: Novo Século – Talentos da Literatura Brasileira. Páginas: 120. Preço: R$ 24,90.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves
Crédito:Divulgação Jornalista analisa como o jeitinho brasileiro ajuda na corrupção no país
O comportamento contraditório do brasileiro motivou o jornalista Pedro Rodrigues Neto a estudar afinco o que leva cada um a pensar de acordo com o 'próprio umbigo' num caso e bater o martelo como um juiz noutro. Basicamente, passa por uma interpretação dos fatos.
Em “A Culpa é do Jeitinho Brasileiro”, o leitor poderá acompanhar como cada atitude ilícita no dia a dia pode influenciar as pessoas que hoje ocupam os cargos mais importantes da nação. Baseada na experiência profissional do autor em jornais e em marketing político, a obra revela um lado do povo que não conhecemos. Uma parte em que ele deixa de ser vítima e passa a ser um dos responsáveis pela continuidade do processo.
O primeiro ponto a ser notabilizado é a ignorância. Quando a corrupção é encarada de frente, fica exposta como algo originado dentro da política, como um filho gerado pelos que estão no poder. “Sempre acreditei que isso não era verdade e por força da minha profissão acabei tendo provas reais de que a corrupção começa nas ruas, entre as pessoas e se propaga em todas as esferas da sociedade brasileira”, relata Rodrigues Neto.
Como repórter de cadernos de bairro, conta que conheceu histórias de líderes comunitários que desviaram doações direcionadas às associações. Houve também aqueles que tentaram “plantar” notícias e denúncias com interesses políticos. Na reportagem policial, o autor teve acesso a histórias em “off” que custariam a sua vida caso fossem publicadas. Quando trabalhou em um jornal sindical, a situação também se repetia. Nela, entidades negociavam com empresários a partir de interesses.
Por outro lado, viu pais de família roubando água, energia elétrica e invadindo terrenos mesmo tendo uma casa própria. “Então, digo que escrever este livro foi como poder colocar para fora uma parte das coisas erradas que presenciei e sempre me deixaram muito triste. Infelizmente, temos um senso latente de que ‘o mundo é dos espertos’ e todos devem se defender com as armas que têm”.
A relação político vs eleitor
Na obra, o autor chama essa ligação entre eleitores e políticos de simbiose política, em que dois elementos cultivam e fortalecem o sistema: o eleitor coloca o preço no seu voto e o político compra o que puder. O que, para ele, mostra que não existe um vilão e uma vítima, mas revela que no final somos todos culpados.
Há algumas décadas, porém, o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda fez um estudo que extrai outra linha para explicar os motivos pelos quais apresentamos essa atitude. Ao analisar as “Raízes do Brasil”, o acadêmico apresenta o brasileiro como um homem que, ao se relacionar com instituições públicas, se deixa levar pela emoção para beneficiar um ou outro, e que isso seria uma herança maldita da coroa portuguesa.
Em sua visão, a cordialidade tupiniquim não passa de um comportamento espelhado nos colonizadores, que montaram órgãos unilaterais e que seriam propensos a negociatas, como passar um colega na frente de uma fila por ser seu amigo.
A verdade é que após Buarque de Holanda identificar uma característica da conduta do cidadão brasileiro, poucas pessoas tentaram ir a fundo para compreendê-la. Apesar do termo “jeitinho” ser massificado, o conceito não foi aprofundado. O jornalista Pedro Rodrigues Neto preenche essa lacuna. “É engraçado, porque é uma obra de 1936 e retrata situações e traça perfis que são exatamente iguais aos que encontramos hoje”, disse ele, que discorda do idealizador deste verbete.
Sem querer se comparar ao nobre escritor, pretende colocar holofotes no tema que, em sua visão, falta um senso de debate e uma defesa dos princípios. “Nos falta à crítica sobre quem somos, porque somos e como agimos. Tudo é muito normal no Brasil. Furar fila, jogar lixo no chão, falsificar atestado médico, mentir em audiência, desviar dinheiro de caixa, receber troco errado”, disserta.
A causalidade pode ser percebida quando o protagonista de um ato ilícito defende: “tudo pode, ao menos que seja ‘eu’ quem ganhe”. Portanto, a publicação tem como norte levantar uma reflexão sobre o que acontece para deixar com que tamanha desvirtuação da ética permaneça como algo comum no cotidiano, pois é assim, debatendo os problemas que surgem as grandes soluções.
Crédito:Divulgação Obra analisa como sociedade se corrompe
Neto avalia que parte da população quer viver uma vida fácil, que “ganha hoje para comer hoje” e quando tudo dá errado joga a culpa no governo. “Eu diria a você que um grande vilão nessa história é a mídia de entretenimento, que vende o brasileiro como vira-lata que não desiste nunca e vive de jeito. Basta puxar na memória quantos programas enaltecem a falta de dinheiro como algo característico”, diz.
Na telinha, é onde os estereótipos ganham força e, aos poucos, tomam conta da cultura dos que a assistem. “Agostinho, de ‘A Grande Família’, era o personagem mais adorado da série. Tudo bem que era divertido, mas admirar um malandro que não paga as contas, vive de golpe e sempre querendo se dar bem diz muito sobre nós, não é mesmo? Ao mesmo tempo tinha o Lineu, que era um servidor público incorruptível que sustentava os filhos que não estudaram, a esposa e o genro”.
O jornalista afirma que Lineu devia para ser o espelho de todos nós, mas era visto como o chato, o ‘Caxias’, que sempre estava de mau humor. “Vejo que nós achamos bonito ser assim e isso tem relação alguma com um povo que passou aqui há mais de 500 anos. As gerações poderiam ter corrigido o curso moral da sociedade, não o fez porque é mais conveniente ser assim”, salienta.
Imprensa e a corrupção: tudo a ver?
Formadora de opinião, a mídia atua no processo de construção da realidade. Ao escolher como abordar um assunto, pode levar pontos de vista e causar reações nos espectadores, como indignação seletiva ou emoção exacerbada. Para o autor, a questão é o que as pessoas fazem com a informação. “Como jornalista, senti na pele o desdém com que as pessoas tratam este trabalho”.
A desvalorização do que está sendo noticiado e a não contestação da moralidade das instituições públicas são algumas razões que explicam tais atitudes. “Nós levantamos problemas, mas é a população quem tem que dar andamento no processo exigindo mudanças reais e aplicando a moralização do sistema ao votar. O trabalho da imprensa reverbera nas mesas dos bares, mas não ecoa aos ouvidos da justiça pela falta de interesse e de ação da população”, ressalta o jornalista.
Com uma educação que ainda não atende às necessidades básicas de um cidadão, o brasileiro fica refém da pouca leitura, da mínima reflexão, e das facilidades de viver o hoje sem planejar o que será do amanhã. “A imprensa pode seguir denunciando, mas se o povo não tomar postura junto, as coisas vão terminar em conversa de mesa de bar com ares de indignação e nada mais”. No entanto, Neto lembra que a mídia também contribui para a manutenção do sistema de corrupção em vigor.
Tema central do debate eleitoral
Neste ano, os brasileiros viram na disputa presidencial mais disputada da história dois candidatos que se viam acusados de cometer atos ilícitos quando gestores das contas públicas. Estratégico e dirigido, o tema entra em discussão pela comoção que causa no público, segundo o profissional de imprensa.
Após trabalhar em mais de vinte campanhas eleitorais, Neto sabe bem as técnicas utilizadas para convencer o povo de que aquele político é mais preparado do que o adversário. Para ele, não há ainda o discernimento para ouvir um debate mais aprofundado sobre políticas públicas, política econômica, metas orçamentárias, sendo essa uma das causas para a escolha sobre o assunto.
“Você adapta o espetáculo ao público presente. São esses espetáculos de acusação entre os lados que ajudam o povo a decidir como se fala no dito popular, ‘no menos pior’. É uma agressão a nossa moralidade. Se você chega ao nível de debater em uma campanha eleitoral crimes de corrupção de um candidato ou partido tem alguma coisa erra aí. O errado virou certo no Brasil”, alerta o jornalista.
Conforme conta, os programas que colocam frente a frente os políticos que disputam os mais altos postos públicos apresentam ‘pessoas entrincheiradas, que usam metralhadores giratórias disparando acusações e se defendendo de uma enxurrada de denúncias’. “Parece que no Brasil, responder a crimes de corrupção é um requisito básico para ser político e vencer eleição”, reclama.
“Não precisamos de um salvador da pátria, aliás, esse é outro engodo plantado pela mídia e que até hoje as pessoas esperam aparecer. O sistema não resolve a vida de ninguém, o sistema é o reflexo daquilo que as pessoas fazem em coletividade então vamos colocar a conduta, o comportamento e a moral de muitos brasileiros como o epicentro dos atos ilícitos no Brasil”, ressalta Rodrigues Neto.
Reforma política: dois pesos
Uma das poucas coisas que apresenta um consenso geral é a reforma política. Seja você de esquerda, direita, centro ou não politizado, todos concordam com a necessidade de mudanças no sistema atual. Só que, há um porém: quem irá conduzi-la? Apesar de a presidente manifestar um desejo de compor uma assembleia constituinte, ela dificilmente não será feita pelos parlamentares.
“Reforma política é uma grande brincadeira que fazem com o povo brasileiro. Como você vai elaborar algo que vai simplesmente tirar todas as vantagens e os vícios que foram construídos pelo executivo e o legislativo nesse país? Agora, se ela fosse bem feita nos daria novo oxigênio para seguir em frente e, com certeza, seria um elemento importante no combate a corrupção”, diz Neto.
O jornalista lista algumas medidas que poderiam diminuir a incidência dos atos ilícitos no poder público: fim da reeleição, cortar verbas de gabinete, tirar metade do salário dos políticos, exigir ensino superior completo e pós-graduação e cobrar históricos do candidato, como antecedentes criminais e negativas fiscais para evitar alçar alguém comprometido com crimes ou desvios.
Mas, é visto que ainda há entraves que dificultam a compreensão do juízo perante fatos errados para a lei, como a sociedade brasileira deveria se preparar para combater a corrupção? Como pode ajudar neste processo? “Vou responder com outra pergunta que poderá trazer uma resposta a cada leitor. Você está preparado para fazer o certo custe o que custar, em qualquer situação?”, indaga.
Para o autor, se cada brasileiro for capaz de fazer uma reflexão pessoal, seremos capazes de combater a corrupção e saber que ela não vem apenas da política, mas nasce e cresce na sociedade, nos bairros, entre pobres e ricos, patrões e empregados, eleitores e políticos, e fica exposta nos órgãos públicos, quando a imprensa traz os atos aos olhos do público.
Neste primeiro livro, Neto trata de um tema polêmico, mas para os próximos deve abordar questões mais conceituais e discorrer sobre outros temas."Quero colaborar com o processo de construção de um novo momento do país, auxiliar na condução de um novo comportamento para o povo brasileiro. É um desejo meu”, conclui.
Serviço: “A culpa é do jeitinho brasileiro” Autor: Pedro Rodrigues Neto. Editora: Novo Século – Talentos da Literatura Brasileira. Páginas: 120. Preço: R$ 24,90.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves





