Jornalista ex-refém do Estado Islâmico revela detalhes sobre cativeiro

Nicolas Henin disse que os extremistas consumiam filmes e videogames norte-americanos, e que inclusive assistiam a série "Game of Thrones".

Atualizado em 11/03/2015 às 18:03, por Redação Portal IMPRENSA.

Nicolas Henin viveu como refém do Estado Islâmico por 10 meses na Síria. Agora, o jornalista francês publica um livro infantil produzido dentro do cativeiro, e, em entrevista à BBC, revela detalhes da rotina e dos costumes dos extremistas.
Crédito:Reprodução/Twitter Jornalista escreveu livro infantil enquanto estava nas mãos do Estado Islâmico
O livro, "Será que um dia o papai ouriço volta para casa?", foi escrito por Henin junto com o colega de cela Pierre Torres. Os dois produziam trechos da história de noite, quando os guardas iam dormir, em pedaços de embalagem de queijo. O jornalista contou à BBC que o livro nasceu de uma brincadeira entre os reféns para passar o tempo.
"O objetivo era dizer qual animal te representa melhor. Eu falei sobre ser um ouriço, gostava da ideia de ter uma boa proteção - apesar de que a proteção de um ouriço é totalmente idiota", disse o jornalista. Ele revelou ainda que, em cativeiro, costumava encolher-se "como uma bola", assim como um ouriço, mas "nada disso funcionava". "Como refém, você é só um fantoche."
Herin revela ainda que seus captores não tinham nada em comum com a cultura islâmica ou árabe. "Eles falam nossa língua, eles têm as mesmas referências culturais que nós temos, assistem aos mesmos filmes, jogam os mesmos videogames que nossos filhos jogam... São produtos da nossa cultura, do nosso mundo." O jornalista afirma ter visto os extremistas assistindo "de tudo", inclusive a série de TV "Game of Thrones", além do programa infantil "Teletubbies".
O jornalista diz que em longas conversas com seus captores notou que suas convicções são, de certa forma, "frágeis". "Eles sentiam que precisavam justificar a si mesmos, mas alguns de seus atos eram injustificáveis". Mesmo acreditando que alguns dos extremistas chegaram ao grupo terrorista com um desejo genuíno de reparar as injustiças na Síria, ele diz que, uma vez obrigados a cometer crimes contra a humanidade, "não há mais volta".
"Talvez eles até tenham um pouco de arrependimento pelo que estão fazendo. Mas não tinham pena [dos reféns], eles são totalmente fechados à piedade. Pedir piedade é a pior coisa que você pode fazer. É burrice, nunca tente", contou ainda o jornalista.