Jornalista de SC acusa deputada de assédio moral e exorcismo

Jornalista de SC acusa deputada de assédio moral e exorcismo

Atualizado em 09/12/2008 às 15:12, por Ana Luiza Moulatlet/Redação Portal IMPRENSA.

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A jornalista Marly de Paulla, de 57 anos, está acusando a deputada estadual Odete de Jesus (PRB-SC) de assédio moral. Entre outras coisas, ela teria sofrido humilhação, redução salário, negação de atendimento médico e exoneração do cargo. Pastora da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), presidente da Comissão de Ética e Decoro Parlamentar da Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina (ALESC) e presidente Nacional do PRB Mulher, a deputada contratou Marly como assessora parlamentar em fevereiro de 2008.

Ao Portal IMPRENSA, a jornalista contou que ocupou por onze meses as funções de assessora de imprensa - após ser contratada através de envio de currículo ao gabinete -, criando materiais jornalísticos sobre a deputada e os enviando aos veículos de comunicação, além de ter feito cartilhas educativas e informativos mensais, entre outros produtos.

Ela afirmou que "desde o começo soube que seria difícil trabalhar com Odete". Segundo a jornalista, a parlamentar tinha um perfil psicológico bastante inconstante, e dificultava seu trabalho, pois ao mesmo tempo que exigia aparecer na imprensa, não falava com os jornalistas quando solicitada por eles. "Tentei fazer meu trabalho para impedir que houvesse dicotomia entre ela e a imprensa, já que os jornalistas e os assessores trabalham juntos", diz Marly.

"A deputada costumava se negar a atender a imprensa, usando as mais banais e insustentáveis desculpas. Ela tem medo de falar, dar entrevistas, se manifestar, porque sabe que não sabe nada do que fazem por ela, não conhece seus projetos a fundo e, portanto, é incapaz de defendê-los com vigor e conhecimento necessários", declara a assessora.

Trabalho escravo

Divulgação/PRB
Odete de Jesus (PRB)
Ela considera o que fazia no gabinete como "trabalho escravo". Trabalhava 18 horas por dia, numa rotina que começava às 7h30. Marly afirma que a deputada dizia que "quem ganha bem tem que se dedicar com exclusividade, deixando o celular ligado, inclusive aos finais de semana". A maior carga de trabalho que teve, conta, foi no período de preparação de campanha eleitoral. "Criei, diagramei e enviei à gráfica cerca de 44 santinhos dos candidatos do PRB à cadeira de vereador, em vários municípios catarinenses".

A jornalista afirma que seus atrito com Odete começou após fazer dois santinhos de maneira "incorreta"; ela alega que não sabia que dois candidatos usavam apelidos para concorrer, e que ao saber do "erro", pagou a quantia de R$ 800,00 para ressarcir os prejuízos. "Sou hipertensa e peso 120 quilos; quando ela reclamou do meu 'grave erro', falei que era injusto e reclamei com ela", explicou. "Ele me dispensou por conta do ocorrido, disse que eu não me cuidava e que meu peso atrapalhava meu trabalho, que eu era insubordinada, e como tinha cargo comissionado, fiquei sem nenhuma segurança. Eu fiz planos, fiquei sem dinheiro para pagar as contas", continua.

Após 12 dias, a jornalista voltou ao gabinete e pediu seu emprgeo de volta, porque precisava do salário. "Fui até ela e humildemente a fiz ver que meu comportamento jamais havia sido de afronta senão de cuidados com a pessoa dela. Pedi a ela o emprego de volta, para pagar minhas contas, e ela resolveu me dar uma 'chance', mas reduziu meu salário em R$ 1780,00", conta Marly.

Exorcismo

"Ela adorava semear insegurança; era bastante desequilibrada, me xingava, dizia que meu físico não me permitia trabalhar direito. Ela queria me massacrar". Marly conta que, durante as reuniões, a deputada tentava convencer as pessoas a irem para a Igreja Universal, dizendo que todos que trabalhavam ali deviam ser fiéis de Deus.

A gota d'água foi no dia 18 de novembro, quando a jornalista foi reclamar para o chefe de gabinete da deputada de todas as "humilhações" que estava sofrendo. Marly conta que Odete a trancou na sala do chefe de gabinete, e começou a ameaçá-la, "dizendo que baixaria meu salário ainda mais, que eu era improdutiva, gorda". Sua reação, contou Marly ao Portal IMPRENSA, foi "chorar copiosamente". "Ela gritava comigo, dizia que eu estava fingindo. Comecei a ter falta de ar, e pedi para chamarem um médico, pois tenho hipertensão. Ela não deixava o chefe de gabinete pedir socorro, e ao tentar levantar da cadeira, ela tentou me exorcizar, dizendo que um demônio estava me possuindo".

"A deputada ordenou que eu me sentasse que ficasse calada, que isso era fruto da minha desobediência, falta de fé, das afrontas que eu fazia contra ela. Senti a mão de Odete de Jesus sobre meu ombro, me apertando contra a cadeira onde eu sentava, e, ofegante desesperada, pedi que chamassem um médico. Eu estava morrendo enquanto a deputada professora Odete de Jesus queria orar, gritando para que satanás desocupasse meu corpo".

Demissão

O chefe de gabinete acabou chamando a equipe médica da Assembléia Legislativa, que lhe deu oxigênio e remédio sublingual; sua pressão chegou a 26 por 19, e os médicos lhe disseram que a qualquer momento ela podia ter tido um AVC ou infarto. "Querendo mascarar sua culpa, Odete disse a todos que eu passara mal porque não 'tomo remédio'", contou Marly.

Mesmo com licença médica de 15 dias (de 19 de novembro a 2 de dezembro), Marly foi demitida no dia 1º, durante este período. "Registrei boletim de ocorrência no 1º DP de Florianópolis, e estou ingressando junto à Justiça com processos distintos (Trabalho, Assédio Moral e Danos Morais)". Marly conta ainda que a IURD está fazendo um auditoria contra a deputada após as denúncias, e que pretende "desmascarar um demônio travestido de pastora. De vez em quando as pessoas têm que dar a cara a tapa para não deixar que as injustiças aconteçam", completa.

Resposta da deputada

Odete de Jesus divulgou uma nota de repúdio "às calúnias e à difamação", com sua versão dos fatos. No comunicado, ela afirma que "trata-se de uma ex-funcionária tentando obter vantagens e cargos praticando chantagem e terror, e que, para isso, não está medindo esforços nem as consequências de seus atos".

Segundo Odete, a denúncia "beira ao ridículo, vem cheia de inverdades e está carregada de ódio pessoal (...) O que está sendo feito por essa jornalista para denegrir meu trabalho e minha vida deve ser desconsiderado com muita veemência. Adianto que as medidas judiciais cabíveis já estão sendo tomadas".

Ela explica que a demissão ocorreu porque o comportamento "destemperado" de Marly "criou um clima muito constrangedor entre os outros integrantes do gabiente. Enfrentou-me com desacato e desrespeito. Atitude, claro, não compatível com o cargo de confiança que ocupava. Dessa forma, mantê-la na equipe era contraproducente".

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