Jornalismo visual e cobertura do governo federal são destaques em versão presencial do Congresso da Abraji

Após uma maratona de cursos, oficinas, palestras, paineis e rodas de conversa que debateram temas como jornalismo de dados, agravamento da repressão a jornalistas em regimes autocráticos, proteção e segurança de jornalistas, desinformação, checagem, técnicas de investigação e Lei de Acesso a Informação, o 17º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, realizado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), acabou neste domingo (7).

Atualizado em 08/08/2022 às 12:08, por Redação Portal IMPRENSA.


Pela primeira vez o evento ocorreu de forma híbrida, com uma versão online e gratuita realizada em 3 e 4 de agosto, e uma presencial e paga, que aconteceu nos dias 5, 6 e 7, na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), na capital paulista. Veja a seguir alguns destaques da versão presencial do congresso selecionados pelo Portal IMPRENSA.
Planalto

Com participação de Andreza Matais, editora executiva do Estadão e chefe da sucursal do jornal em Brasília, Fernando Molica, comentarista da CNN Brasil, Guilherme Amado, colunista do Metrópoles, e Juliana Dal Piva, colunista do UOL, o painel sobre a cobertura do Governo Federal buscou debater como a eleição do presidente Jair Bolsonaro afetou a imagem da imprensa perante a opinião pública. Crédito: Maria Ferreira dos Santos Andreza Matais, chefe da sucursal do Estadão em Brasília: governo deslegitimou imprensa com ataques nas redes sociais Nas palavras de Molica, Bolsonaro "conseguiu desacreditar o trabalho da imprensa" e "estabelecer um diálogo direto com a sociedade, com o eleitorado, pelas redes sociais”. Já Andreza Matais observou que o governo defende a tese de que não elaborou políticas públicas contra a liberdade de imprensa, tendo concentrado seu esforço de deslegitimar a imprensa em ataques a jornalistas e veículos via redes sociais.
Para recuperar a credibilidade da imprensa, Guilherme Amado ressaltou a importância de "chamar os leitores para dentro das redações, das histórias", enquanto Juliana criticou o jornalismo declaratório e enfatizou a importância de denunciar mentiras do chefe de Estado. “O título tem que vir dizendo que é mentira.” Para Molica, a imprensa tem que endurecer com os políticos e governantes. Já Andreza ressaltou que Bolsonaro tem que ser responsabilizado pelos seus atos.
Lobby

No âmbito do poder legislativo, o congresso da Abraji discutiu no sábado (6) a cobertura de lobby no Brasil. Mediada por Jamile Santana, jornalista de dados especializada na Lei de Acesso à Informação, a mesa contou com a presença de Gustavo Gaudarde, jornalista da agência epbr, Julia Affonso, repórter do Estadão, e Maria Vitória Ramos, co-fundadora da agência de dados Fiquem Sabendo. Crédito: Leti A partir da esquerda: Julia Afonso, Jamille Santana, Gustavo Gaudarde e Maria Vitória Ramos

Afirmando que a maioria das leis votadas no Congresso Nacional são propostas e escritas por lobistas, Gustavo Gaudarde classificou a Frente Parlamentar do Agronegócio como o maior lobby do país hoje. ‘’As relações que vão se construindo geram discussões, que a gente decidiu como sociedade que são legítimas, para influenciar a formação de políticas públicas.’’ Para ele, a cobertura do lobby exige identificar quem são os lobistas de cada área de atuação.
A esse respeito, Julia Affonso ponderou que é preciso agir de forma circunspecta, pois, segundo ela, há muita gente que mente ao dizer a jornalistas que representa os interesses de um grupo específico.
Ao abordar o papel das agendas públicas dos políticos na cobertura de lobby, a mesa destacou que muitos compromissos acabam sendo secretos e que as informações disponibilizadas são muitas vezes superficiais e fragmentadas.
Foi aí que Maria Vitória Ramos, da Fiquem Sabendo, falou sobre o Agenda Transparente, software que vem sendo desenvolvido pela própria agência de dados para disponibilizar agendas públicas de políticos, autoridades e governantes de forma mais transparente e acessível. Ainda em desenvolvimento, o software poderá ser usado por jornalistas e profissionais que atuam com transparência pública.
Guerra

Com mediação de Sônia Bridi, repórter da TV Globo, a mesa Os brasileiros vão à guerra: relatos de duas gerações de correspondentes, contou com participação do jornalista Yan Boechat, que cobriu in-loco uma série de conflitos armados para diferentes veículos de comunicação, e do jornalista Hélio Campos Mello, que falou sobre sua experiência de cobrir a guerra do Iraque na década de 1990.
Apesar da larga experiência internacional, que inclui a cobertura de guerras como a da Ucrânia e da Etiópia, Boechat destacou a violência de comunidades do Rio de Janeiro disputadas pelo tráfico.
Na mesma linha Sônia Bridi, afirmou que o lugar que o Rio de Janeiro foi o lugar mais perigoso em que ela já trabalhou. “As únicas vezes que usei colete a prova de balas foi no Brasil, no Rio de Janeiro cobrindo o tráfico.”
Para Yan Boechat, o desequilíbrio da cobertura feita pela imprensa, com episódios de violência que ocorrem em comunidades pobres do país recebendo muito menos destaque do que aqueles registrados em áreas nobres, contribui para a normalização da violência em regiões periféricas. Sônia Bridi aproveitou para criticar operações policiais em comunidades do Rio de Janeiro. “É muito fácil a gente aceitar a frase da polícia de que morreram 18 traficantes."
I nvasão ao Capitólio

O documentário do New York Times “Days of Rage”, sobre a invasão ao prédio do Congresso americano, ocorrida em 6 de janeiro de 2021, foi o tema do painel mediado por José Roberto de Toledo, que teve a participação da jornalista Haley Willis, que integra a equipe de investigações visuais do jornal americano. Ela contou como ferramentas gratuitas e acessíveis, como o TweetDeck e planilhas do Google, foram utilizadas na apuração das informações. Crédito: Letícia Gouveia Haley Willis e José Roberto de Toledo discutiram jornalismo visual e invasão do Capitólio Ganhandora de um Pulitzer e um Emmy, Willis contou que a produção do documentário exigiu a análise de milhares de informações, incluindo postagens em redes sociais, vídeos e monitoramento do rádio da polícia no momento da invasão do Capitólio.
Ainda segundo Willis, também foram usadas ferramentas de geolocalização que identificaram com exatidão locais e horários dos acontecimentos, a fim de montar a cronologia exata do trajeto dos invasores, da escolta dos parlamentares em fuga e do trabalho dos agentes de segurança. “Mostramos como a invasão foi planejada (...) E como o vice-presidente Mike Pence saía do Capitólio, enquanto Trump tuitava que ‘não defendia a Constituição e o país’.”
Citando as execuções de civis nas cidades invadidas pelo exército russo no início da guerra na Ucrânia, Haley Willis também ressaltou a importância de softwares e aplicativos de geolocalização, como o Street View, do Google Maps, para apurar remotamente informações cruciais de eventos ocorridos em ambientes hostis e de difícil acesso. Nesse sentido, o trabalho do NYT comprovou que as imagens de corpos de civis ucranianos espalhados nas ruas de Bucha eram reais e não de atores, como o Kremlin chegou a dizer.