Jornalismo e publicidade: a aproximação no distanciamento

Jornalismo e publicidade: a aproximação no distanciamento

Atualizado em 02/04/2008 às 13:04, por Kátia Zanvettor.

Entre as inúmeras mensagens eletrônicas que recebo uma me chamou atenção porque reflete uma questão preeminente em grande parte das escolas de jornalismo: a unificação parcial das turmas de jornalismo com as de publicidade e propaganda. Segundo o e-mail, enviado supostamente por uma aluna de uma faculdade em São Paulo, a instituição teria juntado as turmas em algumas disciplinas a partir do segundo ano, sem aviso prévio, justificando dificuldades financeiras. Essa política, feita no supetão neste caso, em muitos lugares não é novidade! Fora dos grandes centros, com exceção das universidades públicas, a prática de unificar as turmas dessas diferentes habilitações até o segundo ano do curso (ou até mais que isso), não só é comum como me arrisco a dizer que é uma postura generalizada.

Não podemos ser ingênuos a ponto de não reconhecermos de imediato que o primeiro motivo para a junção é de ordem econômica, contudo, os discursos nem sempre são tão claros e é preciso reorganizar a questão para entendermos seus diferentes aspectos. Em primeiro não podemos esquecer o fato das Diretrizes Curriculares Nacionais (parecer 492/2001) serem da área de Comunicação Social e de suas habilitações, isto é, jornalismo, publicidade e outras, e não do Curso de Jornalismo ou do Curso de Publicidade. Assim, não é difícil perceber que unificar não é prática isolada das faculdades, mas se justifica no discurso oficial que, apesar de reconhecer as especificidades profissionais, aponta para a existência de um discurso comum que unifica as habilitações no campo da comunicação.

Outro aspecto na própria diretriz é a orientação para o perfil comum e para o perfil especifico, descrevendo na primeira as características gerais do aluno de qualquer habilitação e na segunda as características pontuais de cada habilitação, mostrando, mais uma vez, que pelo entendimento das diretrizes existe um núcleo comum, uma formação básica que deve ser compartilhada por todas as habilitações do campo.

Do ponto de vista da interdisciplinaridade esta abordagem não deixa de ser positiva. No campo do conhecimento humano é mais que notório que as fronteiras disciplinares, que jogam na fragmentação do conhecimento, estão sendo cada vez mais atacadas pela abundante e complexa rede de informações. O momento atual exige uma formação plural, com referências múltiplas, e que permita um olhar atento e aberto, nisso, a heterogeneidade de uma classe com diferentes interesses pode ajudar.

Bom, mas tem também o dia-a-dia e muitas vezes a complexidade esbarra na sala de aula cheia e nas expectativas dos alunos, que como falamos semana passada, estão sedentos para ter acesso as práticas idealizadas do fazer profissional. Não é nada fácil entrar numa sala de aula em que essas expectativas falam mais alto do que a sua própria voz ou a voz do conhecimento.

Nesse emaranhado como dar aulas, ensinar as matérias básicas, respeitando a interdisciplinaridade teórica e, ao mesmo tempo, trazendo questões pontuais de cada habilitação, tanto do jornalismo como da publicidade? Acho que responder a estas questões não é tarefa nada simples para professor algum, mas ajudaria bastante se o verdadeiro motivo de se juntar as salas sempre fosse para valorizar a interdisciplinaridade. Se assim fosse, teríamos coragem de repensar o distanciamento entre as habilitações, descobrindo seus pontos comuns, apesar das evidentes diferenças.