Jornalismo, denúncia, anúncio

Guardiã da memória intelectual de Arthur Ramos e exegeta da sua produção cultural, Luitgarde de Oliveira Cavalcanti Barros anima e surpreend

Atualizado em 04/11/2013 às 16:11, por José Marques de Melo.

Crédito:Leo Garbin e a comunidade acadêmica com a publicação de Arthur Ramos em Alagoas (São Paulo, Intercom, 2013), buscando entender a contribuição desse alagoano excepcional para configurar o panorama da identidade cultural brasileira, tendo a mestiçagem como marca indelével.
Embora esse fenômeno só despertasse seu apetite cognitivo na maturidade autoral, evidenciado pela publicação póstuma do ensaio “Le méstissage au Brésil” (Paris, Hermann, 1953), na verdade sua curiosidade explicativa remonta aos tempos da mocidade.
Quem demonstra claramente essa precocidade investigativa do jovem Arthur Ramos é a antropóloga sertaneja que reuniu os textos da juventude alagoana do cientista social da cidade de Pilar, antecipando muitas das questões que mereceriam observação sistemática e análise crítica nos livros editados no Rio de Janeiro, na primeira metade do século passado.
Trata-se de uma amostra típica do “jornalismo denúncia” que emulava o pragmatismo utópico daqueles candidatos ao olimpo gutemberguiano, movidos pelo voluntarismo e recompensados pela projeção social na comunidade a que serviam organicamente.
As matérias assinadas por Arthur Ramos no hebdomadário pilarense Vinte de Julho ou na folha católica da capital O Semeador, contrastam em certo sentido com os artigos estampados no Jornal de Alagoas. Neste diário, aparecem os indícios do cientista social engajado na defesa de teses progressistas, explicitamente sintonizadas com os ideais de uma sociedade justa, humana e fraterna. Nos periódicos de circulação semanal ou quinzenal, seus escritos parecem comedidos, embora firmes e resolutos. Exercitando uma espécie de “jornalismo anúncio”, ele argumenta didaticamente, na tentativa de convencer os formadores de opinião pública.
A leitura dos textos de divulgação cientifica e cultural de Arthur Ramos revela com nitidez uma faceta pouco conhecida desse brasileiro que ascendeu a um dos mais elevados postos da Unesco, ali estimulando o desenvolvimento de um programa mundial de divulgação do saber acadêmico, valendo-se dos meios modernos de comunicação.
Para melhor entender a personalidade intelectual de Arthur Ramos como agente da democratização do conhecimento torna-se indispensável completar o trabalho iniciado por Luitgarde Barros. Ela presta inestimável serviço público ao revelar a faceta pouco conhecida do divulgador científico que transitou das margens do Mundaú, na cidade de Pilar, aos jardins da Place de Fontenoy, em Paris, com a mesma desenvoltura que o consagrou como emblema da antropologia cultural e ícone da psicologia social.
Jornalista, professor universitário, pesquisador científico, consultor acadêmico, autor de diversos livros, foi docente da ECA-USP e é atualmente o titular da Cátedra Unesco de Comunicação na Universidade Metodista de São Paulo (www.marquesdemelo.pro.br).