Jornalismo, Brasil Foods e manga bichada

Jornalismo, Brasil Foods e manga bichada

Atualizado em 26/05/2009 às 15:05, por Wilson da Costa Bueno.

O agronegócio brasileiro está novamente na berlinda e certamente, desta vez, isso não ocorre em virtude do aumento das exportações, do superávit da balança comercial ou algo parecido, mas em função de uma série de fatos menos charmosos que exigem da sociedade e das autoridades atenção redobrada.

Evidentemente, a pauta principal da mídia nessa área é a fusão Sadia x Perdigão que, na prática, não surpreendeu aqueles que acompanham este segmento há algum tempo e que, recentemente, protagonizou uma oferta hostil por parte da Sadia e uso de informações privilegiadas por parte de executivos (também da Sadia) no mercado financeiro, o que já se constitui em caso de polícia.

Foi a Sadia também que andou especulando com derivativos e quebrou a cara, com um prejuízo imenso para investidores e para ela própria, inclusive de imagem. Infelizmente para todos nós, brasileiros e consumidores, a Sadia não tem mesmo andado lá muito saudável nos últimos anos, sobretudo após a ausência de Luiz Fernando Furlan, que andou colaborando (e com competência) para o primeiro mandato do Governo Lula e não deixou substituto à altura na empresa.

Furlan retornou logo após a crise dos derivativos, mas com o objetivo único de apagar o incêndio (as labaredas podiam ser vistas de longe) porque a porta da casa já estava arrombada e os prejuízos saindo pelo ladrão. Essa situação atropelou o processo de fusão que, como mencionado, poderia acontecer a qualquer momento, tendo em vista as circunstâncias do mercado, o acirramento da concorrência global e as dificuldades enfrentadas pelas duas companhias.

A nós consumidores (as duas empresas têm produtos de excelência) e cidadãos interessa observar em que medida esta fusão poderá implicar prejuízos como o aumento de preços dos alimentos, derivado da redução da concorrência, ou o estrangulamento de fornecedores, refém de um poder imenso agora concedido à Brasil Foods.

Neste último final de semana, os dois jornalões paulistas trouxeram grandes reportagens sobre a relação entre a Sadia e a Perdigão e os pequenos produtores de frangos e suínos de Santa Catarina, em ambos os casos ressaltando o temor dos criadores de que essa nova empresa possa impor a eles condições desfavoráveis.

É preciso lembrar que nestes últimos meses os produtores não andaram lá sendo bem tratados pelas duas empresas (enquanto elas dialogavam para fechar o acordo que lhes favorecerá no futuro, abandonaram pelo menos parcialmente os parceiros), com atrasos de pagamentos e outras medidas não muito agradáveis em época de crise. Empresas que não andam bem das pernas costumam (é compreensível, mas não justificável) lançar mão de seu saco de maldades contra os parceiros, constrangendo-os de várias formas.

Na verdade, alguns produtores de Santa Catarina até defendem a fusão porque acreditam que uma empresa forte poderá garantir o seu negócio daqui pra frente. Mas não é sempre assim que acontece (empresas monopolistas tendem a não ser generosas, muito pelo contrário) porque o desequilíbrio nas relações pode, se não for bem regulamentado, sacrificar a parte mais fraca.

É aí que devem entrar o Governo, o Cade, os sindicatos, as cooperativas de produtores, a sociedade e também a mídia, buscando contemplar esta relação de forma abrangente e impedindo que braços fortes (a Brasil Foods terá agora um poder descomunal) apertem em demasia pescoços fragilizados. Queremos uma empresa competitiva, mas não a custo de determinados segmentos, geralmente os menos favorecidos. Já botamos a boca no trombone quando grandes usinas de cana-de-açúcar, tidas como exemplos de sucesso empresarial, foram flagradas utilizando trabalho escravo, ao mesmo gerando receitas até para o País (e sobretudo para os seus donos) mas afrontando os direitos humanos, a dignidade e a responsabilidade social.

A Brasil Foods será bem-vinda, se puder conciliar os interesses das empresas parceiras, do Governo, mas também (e principalmente) de todos aqueles que contribuem (e sempre contribuíram) para a sua bela história (ainda que maculada nos últimos anos). Se dessa fusão resultarem demissões em massa (os empresários disseram que os empregos serão mantidos , mas foi também o que disse a Vale, a Aracruz e a Embraer e a gente viu no que deu quando a crise apareceu no horizonte).

Vamos ficar de olho porque o agronegócio, que deve ser estimulado, e até protegido como fazem também os países desenvolvidos com a sua agropecuária (eta briga de cachorro grande!), não pode continuar assaltando a nossa biodiversidade, devastando o cerrado e a Amazônia, poluindo os rios, o solo e o ar e escravizando os nossos trabalhadores rurais. Não pode também aceitar, impassíveis, esse lobby formidável da bancada ruralista no Congresso que tem como principal objetivo gerar vantagens para grandes produtores que se aproveitam da reclamação justa de pequenos agricultores para manter e ampliar os seus privilégios. Como bem acentuou dia 26/05 último a jornalista Miriam Leitão, em seu comentário vespertino na rádio CBN, é escandaloso perceber que o BNDES possa emprestar dinheiro (que vem do Fundo do Trabalhador) para financiar empresários rurais que submetem legiões de brasileiros a condições desumanas.

E já que falamos de agronegócio é bom também estendermos o nosso olhar para os vendedores de insumos, os que estão antes da porteira, como as empresas agroquímicas (lembrando sempre: agrotóxico é veneno e não remedinho de planta!) . Elas continuam, mercê de pressões junto ao Governo, ao Parlamento, ou de artifícios utilizados junto à Justiça, que anda mais lenta como nunca, para impedir que a ANVISA retire de vez do mercado um punhado de produtos químicos (veneno puro) que andam vitimando os homens do campo e contaminando as frutas e verduras que consumimos na cidade. É bom consultar a respeito matéria da Carta Capital deste mês de maio de 2009.

Está na hora de, como jornalistas e cidadãos, enxergarmos o agronegócio com espírito crítico e sem esse viés nacionalista que novamente é invocado para a aceitação, sem análise maior, da fusão entre a Sadia e a Perdigão.

É fundamental ficarmos atentos à ação de empresas monopolistas (ninguém vai fazer nada para impedir o monopólio das sementes, em particular na área da biotecnologia?), à investida nefasta para tornar inócuo o Código Florestal (aliás, Santa Catarina saiu na frente no processo de destruição da biodiversidade) e à farra do boi que caracteriza a CTNBIO que anda liberando transgênicos a dar com o pau.

Vamos torcer para que o novo presidente da Embrapa tenha um perfil descomprometido com os grandes interesses que rondam a agricultura e que mantenha a trajetória vitoriosa da empresa, uma das nossas principais referências em pesquisa, em ciência e tecnologia. Vamos esperar que, apesar de seu vínculo com o Ministério da Agricultura, ela não importe alguns de seus vícios, sobretudo a natural tendência de privilegiar o negócio em detrimento do meio ambiente, como tem feito o sr. Stephanes em embate permanente com as entidades ambientalistas e o próprio Ministério do Meio Ambiente em função da sua generosidade para com os grandes interesses.

Como sempre acontece, também no agronegócio (assim como na imprensa e em todos os setores) não há apenas heróis (e os que existem na maioria dos casos estão situados entre os pequenos produtores, os agricultores familiares, os bóias-frias, as mulheres camponesas e não junto a latifundiários que financiam campanhas de deputado e senadores) mas também bandidos.

Cabe à imprensa e à sociedade separarem o joio do trigo. A cautela exige que se adote uma perspectiva plural , não transgênica, e que repudiemos as monoculturas da mente. Queremos uma Brasil Foods forte, mas com parceiros e colaboradores também fortes. Não é justo que os menos favorecidos continuem emprestando suas mãos, suas costas, seu suor para que um punhado de empresas e empresários sem escrúpulos continuem mantendo fartas as mesas de seu banquete. Sem justiça social, o agronegócio é como manga bichada na beira do estrada. Em tempo: isso não é uma rima, é uma constatação.