Ivo Patarra diz que jornalismo foi imprescindível para desvendar o mensalão
Ivo Patarra diz que jornalismo foi imprescindível para desvendar o mensalão
Após sofrer resistência de algumas editoras na tentativa de publicar seu livro, o jornalista Ivo Patarra decidiu disponibilizá-lo na íntegra na Internet. A dificuldade foi por conta do tema, considerado por muitos polêmico e incômodo: o escândalo do mensalão. Considerado a maior crise política sofrida pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o termo se refere a um esquema de compra de votos de deputados, em 2006, em favor de projetos de interesse do Poder Executivo.
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| Ivo Patarra |
"A imprensa foi imprescindível para desvendar este que é, na minha opinião, o maior esquema de corrupção governamental que se tem notícias no Brasil, em todos os tempos", afirmou o jornalista. Para ele, "a corrupção e a impunidade são os maiores problemas do Brasil. Precisamos de profissionais de imprensa que se escandalizem com esse estado de coisas e denunciem a malversação do dinheiro do povo. Só assim a sociedade ficará indignada e cobrará das autoridades medidas efetivas para controlar e dar transparência ao uso dos recursos públicos".
Redação Portal IMPRENSA - Como foi a produção do livro, que aborda um assunto tão delicado?
Ivo Patarra - O livro organiza os inquéritos, depoimentos, laudos, levantamentos e testemunhos das CPIs que investigaram o escândalo do mensalão, assim como o que foi apurado pela Procuradoria-Geral da República, Ministérios Públicos, Polícia Federal, Polícias Civis, Controladoria-Geral da União e Tribunal de Contas da União, além, é claro, do trabalho dos repórteres de vários veículos de comunicação que cobriram o caso. Entendo que a imprensa foi imprescindível para desvandar este que é, na minha opinião, o maior esquema de corrupção governamental que se tem notícias no Brasil, em todos os tempos.
Portal IMPRENSA - Você foi assessor da prefeita Luiza Erundina e, posteriormente, do PSDB. Essa trajetória profissional te deu mais liberdade e independência para escrever sobre o governo Lula?
Patarra - Não se tratou de mais liberdade ou independência. É claro que a vivência do mundo político ajuda a compreender as coisas como se dão na prática. Os jornais publicam denúncias sobre corrupção política quase todos os dias. O que me fez decidir a escrever a história do mensalão, além do tamanho do escândalo, foi o fato de o PT ter propagado por 20 anos, alto e bom som, que era o partido da ética na política. Assumiu o poder central do País em 2003 e montou um esquema para obter governabilidade subornando parlamentares com dinheiro público. Isso é inaceitável.
Portal IMPRENSA - Por que as editoras rejeitaram o livro? O que elas alegaram?
Patarra - Aconteceu o seguinte: o escândalo do mensalão terminou praticamente no início da campanha presidencial de 2006. Queria publicar o material. Percorri, rapidamente, algumas editoras, mas elas resistiram. Lula era o franco favorito a ganhar as eleições. Um dos editores chegou a confidenciar que tinha medo de represálias. Eu achava que o livro deveria ser de conhecimento do público antes do pleito e decidi disponibilizá-lo, como livro eletrônico, na internet. O está no ar desde setembro de 2006. Recebeu até agora 453 mil visitas, de 384 mil computadores diferentes. Isso significa que, em média, 2 em cada mil brasileiros acessaram o livro. Se pegarmos a cidade de São Paulo, por exemplo, com 94 mil visitas, temos que uma média de 8 de cada mil paulistanos abriram o site. Os números são relevantes num País em que a tiragem média de um livro gira em torno de 3 mil exemplares, né?
Portal IMPRENSA - Você sofreu algum tipo de represália por conta do conteúdo exposto na obra?
Patarra - A maior parte das cerca de mil pessoas que entraram em contato comigo por conta de "O Chefe" elogiou o trabalho. É claro que teve gente que não gostou, que perguntou quanto recebi do PSDB e da "direita" para atacar Lula, ou para dizer que no governo de FHC era muito mais corrupto. Respondi com elegância: já que era pior com FHC, o internauta poderia, da mesma forma, escrever um livro a respeito.
Portal IMPRENSA - Por que tomou a iniciativa de publicá-lo na íntegra na internet? Acha que a repercussão pode abrir a discussão sobre a política do país?
Patarra - Sem dúvida o livro estimula o debate político. Sem anúncios ou propaganda, é repassado entre as pessoas. Umas mandam para as outras o endereço do site. Nesta semana, por exemplo, "O Chefe" foi acessado mais de mil vezes por dia, de segunda a quinta.
Portal IMPRENSA - Seu pai (o jornalista Paulo Patarra, um dos criadores da mítica revisra Realidade ) foi um dos maiores jornalistas brasileiros e pode-se dizer que o trabalho dele foi precursor de um jornalismo ativo e diferenciado no país, como o que foi feito em "O Chefe". Você considera que o legado dele inspira gerações de jornalistas que vieram depois?
Patarra - Eu espero que o legado de Paulo Patarra possa sempre inspirar jornalistas patriotas a defender os interesses do País. A corrupção e a impunidade são os maiores problemas do Brasil. Precisamos de profissionais de imprensa que se escandalizem com esse estado de coisas e denunciem a malversação do dinheiro do povo. Só assim a sociedade ficará indignada e cobrará das autoridades medidas efetivas para controlar e dar transparência ao uso dos recursos públicos.






