Ivo Patarra diz que jornalismo foi imprescindível para desvendar o mensalão

Ivo Patarra diz que jornalismo foi imprescindível para desvendar o mensalão

Atualizado em 10/11/2008 às 17:11, por Ana Luiza Moulatlet/Redação Portal IMPRENSA.

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Após sofrer resistência de algumas editoras na tentativa de publicar seu livro, o jornalista Ivo Patarra decidiu disponibilizá-lo na íntegra na Internet. A dificuldade foi por conta do tema, considerado por muitos polêmico e incômodo: o escândalo do mensalão. Considerado a maior crise política sofrida pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o termo se refere a um esquema de compra de votos de deputados, em 2006, em favor de projetos de interesse do Poder Executivo.

Divulgação
Ivo Patarra
Em "O Chefe", Patarra organiza os inquéritos, depoimentos, laudos, levantamentos e testemunhos das CPIs que investigaram o escândalo do mensalão, assim como o que foi apurado pelas Procuradoria-Geral da República, Ministérios Públicos, Polícia Federal, Polícias Civis, Controladoria-Geral da União e Tribunal de Contas da União, além do trabalho dos repórteres que cobriram o caso.

"A imprensa foi imprescindível para desvendar este que é, na minha opinião, o maior esquema de corrupção governamental que se tem notícias no Brasil, em todos os tempos", afirmou o jornalista. Para ele, "a corrupção e a impunidade são os maiores problemas do Brasil. Precisamos de profissionais de imprensa que se escandalizem com esse estado de coisas e denunciem a malversação do dinheiro do povo. Só assim a sociedade ficará indignada e cobrará das autoridades medidas efetivas para controlar e dar transparência ao uso dos recursos públicos".

Redação Portal IMPRENSA - Como foi a produção do livro, que aborda um assunto tão delicado?
Ivo Patarra -
O livro organiza os inquéritos, depoimentos, laudos, levantamentos e testemunhos das CPIs que investigaram o escândalo do mensalão, assim como o que foi apurado pela Procuradoria-Geral da República, Ministérios Públicos, Polícia Federal, Polícias Civis, Controladoria-Geral da União e Tribunal de Contas da União, além, é claro, do trabalho dos repórteres de vários veículos de comunicação que cobriram o caso. Entendo que a imprensa foi imprescindível para desvandar este que é, na minha opinião, o maior esquema de corrupção governamental que se tem notícias no Brasil, em todos os tempos.

Portal IMPRENSA - Você foi assessor da prefeita Luiza Erundina e, posteriormente, do PSDB. Essa trajetória profissional te deu mais liberdade e independência para escrever sobre o governo Lula?
Patarra -
Não se tratou de mais liberdade ou independência. É claro que a vivência do mundo político ajuda a compreender as coisas como se dão na prática. Os jornais publicam denúncias sobre corrupção política quase todos os dias. O que me fez decidir a escrever a história do mensalão, além do tamanho do escândalo, foi o fato de o PT ter propagado por 20 anos, alto e bom som, que era o partido da ética na política. Assumiu o poder central do País em 2003 e montou um esquema para obter governabilidade subornando parlamentares com dinheiro público. Isso é inaceitável.

Portal IMPRENSA - Por que as editoras rejeitaram o livro? O que elas alegaram?
Patarra -
Aconteceu o seguinte: o escândalo do mensalão terminou praticamente no início da campanha presidencial de 2006. Queria publicar o material. Percorri, rapidamente, algumas editoras, mas elas resistiram. Lula era o franco favorito a ganhar as eleições. Um dos editores chegou a confidenciar que tinha medo de represálias. Eu achava que o livro deveria ser de conhecimento do público antes do pleito e decidi disponibilizá-lo, como livro eletrônico, na internet. O está no ar desde setembro de 2006. Recebeu até agora 453 mil visitas, de 384 mil computadores diferentes. Isso significa que, em média, 2 em cada mil brasileiros acessaram o livro. Se pegarmos a cidade de São Paulo, por exemplo, com 94 mil visitas, temos que uma média de 8 de cada mil paulistanos abriram o site. Os números são relevantes num País em que a tiragem média de um livro gira em torno de 3 mil exemplares, né?

Portal IMPRENSA - Você sofreu algum tipo de represália por conta do conteúdo exposto na obra?
Patarra -
A maior parte das cerca de mil pessoas que entraram em contato comigo por conta de "O Chefe" elogiou o trabalho. É claro que teve gente que não gostou, que perguntou quanto recebi do PSDB e da "direita" para atacar Lula, ou para dizer que no governo de FHC era muito mais corrupto. Respondi com elegância: já que era pior com FHC, o internauta poderia, da mesma forma, escrever um livro a respeito.

Portal IMPRENSA - Por que tomou a iniciativa de publicá-lo na íntegra na internet? Acha que a repercussão pode abrir a discussão sobre a política do país?
Patarra -
Sem dúvida o livro estimula o debate político. Sem anúncios ou propaganda, é repassado entre as pessoas. Umas mandam para as outras o endereço do site. Nesta semana, por exemplo, "O Chefe" foi acessado mais de mil vezes por dia, de segunda a quinta.

Portal IMPRENSA - Seu pai (o jornalista Paulo Patarra, um dos criadores da mítica revisra Realidade ) foi um dos maiores jornalistas brasileiros e pode-se dizer que o trabalho dele foi precursor de um jornalismo ativo e diferenciado no país, como o que foi feito em "O Chefe". Você considera que o legado dele inspira gerações de jornalistas que vieram depois?
Patarra -
Eu espero que o legado de Paulo Patarra possa sempre inspirar jornalistas patriotas a defender os interesses do País. A corrupção e a impunidade são os maiores problemas do Brasil. Precisamos de profissionais de imprensa que se escandalizem com esse estado de coisas e denunciem a malversação do dinheiro do povo. Só assim a sociedade ficará indignada e cobrará das autoridades medidas efetivas para controlar e dar transparência ao uso dos recursos públicos.