Internacional: Ségoléne Royal - La Femme Fatale
Internacional: Ségoléne Royal - La Femme Fatale
Internacional: Ségoléne Royal - La Femme Fatale
Por"La Femme Fatale" (A mulher Fatal). A primeira vista, o título pode soar como um romance policial americano. Ledo engano. O livro está na lista dos mais vendidos na França e foi escrito por duas repórteres especiais do vespertino Le Monde: Ariane Chemin e Raphaëlle Bacqué. Elas revelam os bastidores da campanha eleitoral de Ségolène Royal, candidata (derrotada) do Partido Socialista (PS) às eleições presidenciais da França, realizadas em maio.
Com uma tênue separação entre vida púbica e privada, as jornalistas tratam de um caso inédito na historia da política francesa: uma candidata à presidência que, ao mesmo tempo, é companheira e mãe dos quatro filhos do primeiro secretario do Partido Socialista (François Hollande). O livro já deu muito pano para manga, tanto que Ségoléne e Hollande pediram, na justiça, uma indenização de 150 mil euros (cerca de 400 mil reais). O detalhe interessante (e fato aparentemente inédito) é que os dois não pediram nenhuma correção no texto, apenas a compensação financeira.
A dupla de jornalistas lança a hipótese de que, além da ambição política de madame Royal (Real em português), sua candidatura ao Palácio do Eliseu (Elysées) teria um outro ingrediente explosivo: orgulho ferido, ciúme. Segundo Ariane e Raphëlle, as raízes da crise do casal (que nunca oficializou a união e que anunciou a separação em meados de junho), remontam a 2005.
O estopim seria uma bela jornalista loira, encarregada de cobrir o dia-a-dia do PS, e que estaria recebendo uma atenção especial por parte do então companheiro de Ségoléne. A ex-candidata à presidência da França lançou mão de um velho estratagema feminino. Ela pediu a seu primogênito, Thomas (de 22 anos) e a seu irmão, Gérard Royal (ex-agente do serviço secreto francês) de intervirem junto à direção da revista em que trabalhava a jornalista para transferi-la de função.
A dupla do Le Monde, contudo, não revela o nome da jornalista ou o veiculo em que ela trabalhava. Elas argumentam que esta informação faz parte da vida privada dos envolvidos. Aliàs, a discussão entre vida privada e publica está no centro dos debates na mídia francesa. As jornalistas do Le Monde francesas argumentam que se concentraram apenas nos elementos da vida privada com conseqüências políticas.
A idéia original das duas jornalistas era abordar as razões que levaram à derrota de Ségoléne Royal (ela obteve 46,9% dos votos do eleitorado francês, ante os 53% do candidato Nicolas Sarkozy). Mas como não falar da intimidade de políticos, quando se trata de uma candidata à presidência que dividia o mesmo teto que o presidente do segundo maior partido do pais ? Uma corrente de críticos do livro sublinham que as jornalistas tiraram um proveito econômico ao lançarem a publicação. As autoras rebatem e alegam que parte das informações já foi publicada nas paginas do « Le Monde ». E notório que a vida publica e os lençóis dos lideres políticos se misturam há séculos e mesmo na corte francesas, as amantes dos monarcas desempenhavam um papel importante nas escolhas feitas pelos soberanos.
Mas a França mantém, ou mantinha, um certo pudor ao tratar da vida intima dos seus políticos. Um bom exemplo é o caso do ex-presidente socialista François Mitterrand - cujo principal escândalo foi desvendado justamente no momento em que as duas jornalista iniciaram suas carreiras. Mitterrand (que presidiu a França entre 1981 e 1994) escondeu de todo o pais a existência de uma « família paralela » e uma filha - Mazarine. A existência da jovem foi revelada graças a um artigo, publicado um ano antes da morte de Mitterrand, pela revista semanal Paris Match. Mas, nas redações, a noticia corria desde os anos 80. Ao que parece, os jornalistas franceses não dão muita importância aos segredos de alcova dos políticos.
Com a publicação de "Femme Fatale" foi relançamento do debate sobre a exposição dos políticos à mídia. Se por um lado as jornalistas do « Monde » foram criticadas por terem aberto a caixa de pandora do casal Royal e Hollande, por outro, não há como negar que os próprios políticos apreciam, em determinados momentos, a cobertura intensiva da imprensa. Ora, mesmo madame Royal que se sentiu extremamente ofendida com o livro já se mostrou bem mais complacente com a imprensa. Em 1992, madame Royal, então ministra do Meio Ambiente, convocou a imprensa, para registrar o day after do nascimento de uma de suas filhas. Naquela época, ela não se envergonhou de misturar um evento publico e uma cena intima. Curioso é que 14 anos depois, ela deixou de comparecer a uma importante reunião do Partido Socialista, justamente para posar para uma sessão de fotos com a filha para uma grande revista francesa, Paris Match. Esta semana (12 julho) ela se rebelou mais uma vez, justamente contra Paris Match, que publica na capa uma foto de Ségolene banhando-se nas águas da Córsega sob o titulo: "Ségoléne Royal: férias solitárias na Córsega".
As autoras de "Femme Fatale" pintam um quadro com cores sombrias de Ségoléne. Elas mostram que a política (três vezes ministra, presidente de região e deputada por cerca de 20 anos), seria dura, e, até mesmo sectária. Para reforçar suas observações, elas citam uma frase de Jean-François Fountaine, vice de Ségoléne no Conselho Regional de Poitou Charrantes (centro-oeste da França): "Para amá-la, não se pode trabalhar com ela, contradizê-la ou mesmo conhecê-la demais".
No trato com a imprensa, Ségoléne não se mostra uma figurinha de contato fácil. Ela não é adepta da informação em off, não trata os jornalistas de você e aparentemente segue uma corrente filosófica que prega que « não há jornalista amigo ». Mas, ao que tudo indica, Ségolène não se sente constrangida ao ligar para o diretor de redação do jornal Le Parisien para pedir a transferência da jornalista que acompanhava sua campanha à presidência. O erro da jornalista? Escrever, em um artigo, que madame Royal teria ameaçado Hollande de não ver mais « as crianças » caso ele apoiasse o ex-premier francês, Lionel Jospin, quando das eleições primárias no PS. E, desta vez, a candidata socialista não queria o simples direito de resposta. Ela exigiu um pedido de desculpas, além de um artigo (redigido por um amigo advogado) com direito à foto. Le Parisien optou por uma saída " à la francesa". O jornal publicou um texto de direito de resposta e manteve a repórter como setorista da campanha socialista.
Os jornalistas descobriram, assim, que não é de bom tom revelar certas intimidade da família Royal. O curioso é que foi justamente Ségoléne que colocou sua família na linha de frente da mídia, quando era ministra do meio ambiente. Nesta época, segundo antigos assessores, ela abria as reuniões diárias de sua equipe com o seguinte mote: o que interessa à mídia hoje? As jornalistas du « Monde » avaliam que a ex-candidata socialista (que pretende tomar as rédeas do PS na convenção de 2008) tem uma visão utilitarista da imprensa. Nos anos 90, madame Royal esteve à frente de ministérios secundários - como meio ambiente, ensino escolar, Família - mas conseguiu reverter o jogo e virou figurinha fácil dos programas de TV.
Ségolène, ao que tudo indica, prefere a "base do jornalismo" às grandes estrelas e, principalmente, as mulheres. Ao longo da sua campanha, ela optou por um ataque sistemático à imprensa de elite e a elite da imprensa. E, à cada critica, sua cota no ibope aumentava. A candidata derrotada à presidência francesa já tinha feito escolhido seus preferidos: a nova mídia, ou seja, internet com seus sites e blogs - uma verdadeira febre entre os franceses.






