Influência externa no comportamento brasileiro é tradição histórica / Por Heitor Augusto

Influência externa no comportamento brasileiro é tradição histórica / Por Heitor Augusto

Atualizado em 11/08/2005 às 12:08, por Heitor Augusto.

Por Com o status alcançado pelos EUA na geopolítica mundial, as ações do campo econômico e cultural dos países periféricos têm procurado se adequar cada vez mais às diretrizes determinadas pelos estadunidenses.

A história mostra que, para os países de terceiro mundo, isso sempre existiu, alterando apenas a referência. No plano econômico, tomando como base o Brasil, o pacto colonial era a forma encontrada pela metrópole, Portugal, para usurpar as riquezas naturais brasileiras e matéria-prima. Com a queda do poder de fogo lusitano, a Inglaterra assumiu o posto de "chefe do globo".

Paralelamente ao plano econômico encontra-se o aspecto cultural. A partir do século XVIII, foram bastante freqüentes as palavras de origem francesa, como resultado da influência que a França passou a exercer sobre os costumes brasileiros, particularmente na capital do país à época, o Rio de Janeiro. Na opinião da lingüista Flamínia Ludovich, "a absorção dos termos franceses e seu aportuguesamento revelam a tentativa da elite brasileira de procurar importar tais modelos para a formação do espírito de nacionalidade do Brasil".

O traço cultural mais marcante da influência francesa na nossa tradição é a linguagem. O universo familiar é o espaço no qual mais nos deparamos com palavras de origem francesa aportuguesada. Abat-jour se tornou abajur, atelier transformou-se em ateliê e buffet mudou para bufê. Além do ambiente familiar, existem outros vocábulos não tão usados atualmente, mas que estiveram presentes nas rodas de conversa de bate-papo da elite do século XIX e início do XX, como chaise longue, uma espécie de robe - oriunda do francês robe de chambre - de dormir.

Na transição entre esses séculos, durante o intervalo de 1895 a 1914, floresceu a art nouveau, um estilo decorativo que se contrapunha ao historicismo imitativo do século XIX, por se caracterizar, em princípio, pela assimetria das linhas sinuosas, formas orgânicas e originalidade da imaginação. No mesmo período, segundo o professor de História do Pensamento Econômico da PUC-SP, Gilval Froelich, as bases econômicas para o capitalismo monopolista exercido pelos EUA ao longo do século XX se formaram. "O imperialismo está diretamente conectado com o monopólio. Com as duas grandes guerras e a crise de 1929, a "livre concorrência" praticada pelas potências imperialistas em meados de 1850 passou a ser aplicada de maneira centralizadora, pois saíram fortalecidas daquele cenário bélico", afirma Froelich.

A influência estadunidense, particularmente na América Latina, não se limitou à economia. Após anos de discussão apesar da resistência do Exército em dialogar sobre o assunto - provou-se a participação determinante que os EUA tiveram no estabelecimento e manutenção de regimes autoritários por todo o continente sul-americano, incluindo Peru, Uruguai, Argentina e Brasil. Em 1968 - O ano que não terminou, publicado em 1984, Zuenir Ventura descreve como a CIA se infiltrava nos movimentos de esquerda. "Os homens do CENIMAR, por exemplo, se vangloriam de ter armazenando na época o mais completo arquivo de informações sobre o Partido Comunista, sua especialidade. "Havia um velhinho lá", conta um deles, "que conhecia o Partidão melhor do que o Prestes". Esse analista de informações era municiado pela CIA e alimentava os outros órgãos".

Com a queda da União Soviética, chegamos a um estágio em que o poder econômico norte-americano é capaz de desestruturar qualquer sistema político, impondo ao restante do globo suas fórmulas econômicas (o Chile, durante a ditadura militar, 1973-1990, foi um verdadeiro laboratório do receituário neoliberal) e culturais. A imprensa abrasileira se viu obrigada a acompanhar, em tempo real, a visita que a secretária de Estado dos EUA, Condolezza Rice, realizou no Brasil entre os dias 26 e 27 de abril. O festival de Cannes perdeu espaço para o Oscar, rádios que tocam MPB são consideradas alternativas enquanto as que investem no rock são "pop". Todas essas transformações decorrentes do poder econômico.