Hoje não tem jornal
Hoje não tem jornal
Imagine que, pela manhã, você abra a porta do seu apartamento ou da sua casa e sobre o capacho não haja nada. Isso mesmo. Nada, nem o jornal que acompanha seu café amargo, remédio para avisar à preguiça matinal que é hora de abandonar seu corpo. E que, insatisfeito, você liga o televisor à procura da bonita moça que apresenta o primeiro telejornal do dia e, no lugar dela, encontra apenas um lettering a avisar que, infelizmente, a partir daquele dia o telejornal seria substituído por um concurso das sopranos que melhor interpretarem a ária "O Zittre Nicht, mein lieber Sohn", da Flauta Mágica, de Mozart. E, como penúltima alternativa, liga o rádio à procura do combativo âncora do jornal e, no lugar de sua voz, encontra uma série interminável de canções românticas, de Maysa à Calypso, do Rei ao vencedor do programa de calouros do Raul Gil. Você nem pensa em abrir a internet. Desiste e se conforma, falando para si mesmo: " ". Nem hoje, nem nunca mais.
Pois bem, agora responda: o quanto os jornais farão falta a você? O quanto eles correspondem àquilo que você precisa no seu cotidiano, ou àquilo que sacia sua fome e sua sede de informação? Se, a partir de amanhã, um decreto fosse baixado por uma entidade superiormente poderosa e nele estivesse determinado que todo e qualquer ser humano precisa se informar longe dos jornais, revistas, televisão, rádio e internet, sua vida ficaria melhor ou pior?
Essas perguntas, desculpem-me os leitores, parecem estúpidas. Até o são, confesso. Mas nunca é demais perguntarmo-nos o quanto nós, jornalistas, continuamos essenciais na vida da população. Em geral, não é uma pergunta confortável. Esse tipo de questionamento pertence à categoria daqueles que só deveriam ser feitos entre quatro paredes, de preferência naquelas salas meio claras, meio escuras, onde divã repousa sob o ambiente e você, sobre o divã. Em geral, jornalistas apenas fazem. Um dia após o outro, reproduzem os modelos de pauta, de apuração, as fórmulas das matérias, as mesmas denúncias, a mesma manchete. Aliás, no que se diferem o jornal A do jornal B? E o telejornal da emissora líder da vice-líder? Pouco, muito pouco. Um jornal de duas semanas atrás pode ser, fatalmente, vendido como o jornal de hoje. E a manchete pouco se difere da de ontem, e da de anteontem.
Isso vem acontecendo não somente porque nós, jornalistas, não nos perguntamos se somos necessários, como porque o Jornalismo, como instituição, ouve todos, menos os consumidores de informação. E se os ouve, mascara a opinião deles embaixo dos números apinhados nas planilhas, acumulados nas mesas dos diretores, dos departamentos de marketing e publicidade.
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O mote dessa coluna é tema do debate que a Revista IMPRENSA realizará, em São Paulo, na próxima terça-feira (dia 19), para festejar o lançamento do livro "Vintenário: duas décadas de IMPRENSA em revista" e comemorar seus 20 anos de atuação. Para o bate-papo, foram convidados Caco Barcellos, Soninha, Tom Zé e Paulo Markun e eles terão o desafio de pensar sobre o tema "Um mundo sem jornalismo".






