Histórias de uma edição histórica, por Renato Delmanto
Histórias de uma edição histórica, por Renato Delmanto
Atualizado em 01/02/2005 às 12:02, por
Renato Delmanto.
Como foi conseguida a íntegra de uma histórica entrevista do Dr. Ruy Mesquita com Lula, feita em 1978, para ser publicada fora do Estadão
O encontro havia sido agendado alguns dias antes, depois de uma negociação telefônica com a secretária da diretoria do Grupo Estado, Dona Lúcia. Expliquei quem eu era e, cuidadosamente, qual era o meu intuito: recuperar a íntegra de uma longa entrevista feita pelo Dr. Ruy Mesquita, o patriarca da família, com o então líder sindical Lula, publicada pela revista Senhor Vogue em julho de 1978. Os argumentos foram vários, mas o principal era o resgate de uma entrevista histórica. Eu argumentava de forma absolutamente polida, para não ferir os brios da empresa. Afinal, buscava um material que poderia, muito bem, ser publicado no próprio Estadão – e eu o queria para publicar na AOL. Dona Lúcia lembrava-se desse material, principalmente do trabalho que foi transcrever as fitas gravadas.
Apesar de ter trabalhado anos no JT, esse fato não ajudou o meu intuito. Durante meu tempo de casa, meu contato com o Dr. Ruy limitou-se a alguns "bom dia" no elevador e eu nunca havia entrado na sala dele. Marcado o encontro para uma numa tarde quente do fim do inverno, finalmente conheci sua ampla sala no sexto andar do prédio-sede do grupo, no Bairro do Limão. A vista é para a Marginal do Tietê, e o Dr. Ruy me recebe cordialmente.
Ele começa me perguntando, meio cético, se é de fato aquele material que eu procuro. Respondo que sim, argumentando que se trata da primeira grande entrevista do então líder sindical (tudo o que já havia falado à secretária). Era uma entrevista que explorava a então "castidade" ideológica do futuro presidente da República, que dizia não ter ambições políticas. O próprio Dr. Ruy havia relembrado desse episódio semanas antes, quando participou do programa Roda Viva. Mas parece que poucos coleguinhas deram a importância ao fato.
Ele torna a explicar o que dissera no Roda Viva: que fez a entrevista a pedido de seu amigo Luís Carta, dono da editora Carta (que publicava a Senhor). Tudo porque comentara com o amigo a boa impressão que tivera ao ver Lula no programa Vox Populi, em maio de 1978. Achava que alguma coisa realmente nova estava acontecendo no sindicalismo brasileiro, um movimento "em estado de pureza", em nascera do seio do proletariado paulista.
Dr. Ruy abre uma gaveta ao lado de sua mesa e tira um velho envelope, com as bordas já rasgadas, que guarda um bolo de amareladas laudas de imprensa. Dá uma rápida folheada, enquanto diz que aquele material é a degravação de quatro horas de conversa em sua casa ("que durou a noite inteira"). Olha mais atentamente a última página e volta a perguntar se é mesmo aquilo que procuro. "Mas são 139 laudas", diz, tentando me dissuadir. "Vai te dar um enorme trabalho...".
O patriarca do Estadão fala com certo desapontamento, mas sempre com polidez, sobre a mudança das idéias do atual presidente em relação ao sindicalista de 1978. Àquela época, Lula lutava apenas pela melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores. Não tinha ambições políticas – aliás, criticava sem rodeios os políticos. Falando mais do que ouve, divaga sobre a mudança pela qual passou o PT desde sua fundação até chegar ao poder.
Mesmo assim, em nenhum momento Dr. Ruy deixa de elogia Lula. "É uma pessoa inteligentíssima, que tem a qualidade de ouvir as pessoas com atenção". Diz ainda que, "mal comparando", neste ponto Lula se assemelha a FHC, "que também tem a característica de ouvir as pessoas com atenção, mesmo que elas estejam expondo idéias contrárias às dele".
Os elogios ao presidente estendem-se também à imagem internacional que Lula conseguiu construir. Enaltece a atuação dos colaboradores do Planalto mais moderados (entenda-se a equipe econômica, o ministro Furlan, etc.). Já a postura da ala radical e os riscos que podem significar à governabilidade são um tema recorrente nos editoriais do Estadão. Dr. Ruy preocupa-se com o que chama de "cacoete atávico" dos petistas.
Num editorial de julho de 2003, Dr. Ruy comparava esta postura petista (particularmente a do ministro José Dirceu) ao personagem interpretado por Peter Sellers no filme ‘Dr. Fantástico’ (Dr. Strangelove), de Stanley Kubrick. Ex-nazista, agora trabalhando para o governo americano e supostamente convertido à democracia, não conseguia controlar seu braço direito, que mantinha o cacoete de fazer a saudação nazista.
Ao lembrar da entrevista com Lula de 1978, Dr. Ruy diz que tinha a curiosidade, antes do encontro, de saber se o dirigente sindical era um comunista. Conseguiu arrancar dele que, para o trabalhador, era melhor ter um patrão da iniciativa privada do que o governo. "O sindicalismo só é forte nos países onde existe a ganância de poder, a ganância de ganhar bem, a ganância de participação. Só é forte nos países capitalistas", respondeu Lula. Conclusão do patriarca do Estadão: "A resposta confirma a castidade ideológica do Lula. Pela primeira vez na história do sindicalismo brasileiro surge um líder sindical – ou um dirigente sindical como ele deseja ser chamado – em estado de pureza."
Na matéria da revista Senhor, Dr. Ruy lançava a dúvida: "Se ele vai continuar assim depois que passou a ser vedete de televisão, depois, afinal, que a liberdade de imprensa permitiu que ele, quer queira quer não, passasse a exercer uma liderança política, só o futuro dirá."
Dois anos depois da entrevista, líderes da esquerda e da Igreja progressista vislumbraram em Lula e no movimento dos metalúrgicos do ABC a novidade que faltava para a criação de um novo partido de esquerda – e o PT foi fundado. O resto é história: como político de esquerda, Lula foi candidato a governador de São Paulo (1982), eleito deputado Constituinte em 1986 e perdeu três eleições para a Presidência. Apenas 22 anos após a fundação do partido, bem menos "de esquerda" e sem aquela "castidade ideológica", tornou-se presidente da República.
Apesar da cordialidade com que me recebeu, Dr. Ruy manteve-se o tempo todo cético em relação à minha empreitada, apesar de reconhecer o valor histórico do material. De fato, o trabalho foi grande. Primeiro ler a íntegra da entrevista, depois separar os trechos por temas abordados (política, economia, sindicalismo, militares, estudantes, mídia...) e enfim reordená-los e editá-los.
O resultado desse encontro com o Dr. Ruy foi uma edição especial da Revista AOL, publicada em setembro de 2004, na qual devo ter recuperado quase metade da conversa com Lula, dividida em seis retrancas. A cópia das 139 laudas com a íntegra permanece guardada em minha gaveta – assim como o original amarelado repousa da gaveta do Dr. Ruy Mesquita.
A diferença é que as principais idéias do Lula de 1978 agora estão disponíveis na Web. A Revista AOL pode ser lida no endereço http://www.aol.com.br/revista/2004/0045.adp.

O encontro havia sido agendado alguns dias antes, depois de uma negociação telefônica com a secretária da diretoria do Grupo Estado, Dona Lúcia. Expliquei quem eu era e, cuidadosamente, qual era o meu intuito: recuperar a íntegra de uma longa entrevista feita pelo Dr. Ruy Mesquita, o patriarca da família, com o então líder sindical Lula, publicada pela revista Senhor Vogue em julho de 1978. Os argumentos foram vários, mas o principal era o resgate de uma entrevista histórica. Eu argumentava de forma absolutamente polida, para não ferir os brios da empresa. Afinal, buscava um material que poderia, muito bem, ser publicado no próprio Estadão – e eu o queria para publicar na AOL. Dona Lúcia lembrava-se desse material, principalmente do trabalho que foi transcrever as fitas gravadas.
Apesar de ter trabalhado anos no JT, esse fato não ajudou o meu intuito. Durante meu tempo de casa, meu contato com o Dr. Ruy limitou-se a alguns "bom dia" no elevador e eu nunca havia entrado na sala dele. Marcado o encontro para uma numa tarde quente do fim do inverno, finalmente conheci sua ampla sala no sexto andar do prédio-sede do grupo, no Bairro do Limão. A vista é para a Marginal do Tietê, e o Dr. Ruy me recebe cordialmente.
Ele começa me perguntando, meio cético, se é de fato aquele material que eu procuro. Respondo que sim, argumentando que se trata da primeira grande entrevista do então líder sindical (tudo o que já havia falado à secretária). Era uma entrevista que explorava a então "castidade" ideológica do futuro presidente da República, que dizia não ter ambições políticas. O próprio Dr. Ruy havia relembrado desse episódio semanas antes, quando participou do programa Roda Viva. Mas parece que poucos coleguinhas deram a importância ao fato.
Ele torna a explicar o que dissera no Roda Viva: que fez a entrevista a pedido de seu amigo Luís Carta, dono da editora Carta (que publicava a Senhor). Tudo porque comentara com o amigo a boa impressão que tivera ao ver Lula no programa Vox Populi, em maio de 1978. Achava que alguma coisa realmente nova estava acontecendo no sindicalismo brasileiro, um movimento "em estado de pureza", em nascera do seio do proletariado paulista.
Dr. Ruy abre uma gaveta ao lado de sua mesa e tira um velho envelope, com as bordas já rasgadas, que guarda um bolo de amareladas laudas de imprensa. Dá uma rápida folheada, enquanto diz que aquele material é a degravação de quatro horas de conversa em sua casa ("que durou a noite inteira"). Olha mais atentamente a última página e volta a perguntar se é mesmo aquilo que procuro. "Mas são 139 laudas", diz, tentando me dissuadir. "Vai te dar um enorme trabalho...".
O patriarca do Estadão fala com certo desapontamento, mas sempre com polidez, sobre a mudança das idéias do atual presidente em relação ao sindicalista de 1978. Àquela época, Lula lutava apenas pela melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores. Não tinha ambições políticas – aliás, criticava sem rodeios os políticos. Falando mais do que ouve, divaga sobre a mudança pela qual passou o PT desde sua fundação até chegar ao poder.
Mesmo assim, em nenhum momento Dr. Ruy deixa de elogia Lula. "É uma pessoa inteligentíssima, que tem a qualidade de ouvir as pessoas com atenção". Diz ainda que, "mal comparando", neste ponto Lula se assemelha a FHC, "que também tem a característica de ouvir as pessoas com atenção, mesmo que elas estejam expondo idéias contrárias às dele".
Os elogios ao presidente estendem-se também à imagem internacional que Lula conseguiu construir. Enaltece a atuação dos colaboradores do Planalto mais moderados (entenda-se a equipe econômica, o ministro Furlan, etc.). Já a postura da ala radical e os riscos que podem significar à governabilidade são um tema recorrente nos editoriais do Estadão. Dr. Ruy preocupa-se com o que chama de "cacoete atávico" dos petistas.
Num editorial de julho de 2003, Dr. Ruy comparava esta postura petista (particularmente a do ministro José Dirceu) ao personagem interpretado por Peter Sellers no filme ‘Dr. Fantástico’ (Dr. Strangelove), de Stanley Kubrick. Ex-nazista, agora trabalhando para o governo americano e supostamente convertido à democracia, não conseguia controlar seu braço direito, que mantinha o cacoete de fazer a saudação nazista.
Ao lembrar da entrevista com Lula de 1978, Dr. Ruy diz que tinha a curiosidade, antes do encontro, de saber se o dirigente sindical era um comunista. Conseguiu arrancar dele que, para o trabalhador, era melhor ter um patrão da iniciativa privada do que o governo. "O sindicalismo só é forte nos países onde existe a ganância de poder, a ganância de ganhar bem, a ganância de participação. Só é forte nos países capitalistas", respondeu Lula. Conclusão do patriarca do Estadão: "A resposta confirma a castidade ideológica do Lula. Pela primeira vez na história do sindicalismo brasileiro surge um líder sindical – ou um dirigente sindical como ele deseja ser chamado – em estado de pureza."
Na matéria da revista Senhor, Dr. Ruy lançava a dúvida: "Se ele vai continuar assim depois que passou a ser vedete de televisão, depois, afinal, que a liberdade de imprensa permitiu que ele, quer queira quer não, passasse a exercer uma liderança política, só o futuro dirá."
Dois anos depois da entrevista, líderes da esquerda e da Igreja progressista vislumbraram em Lula e no movimento dos metalúrgicos do ABC a novidade que faltava para a criação de um novo partido de esquerda – e o PT foi fundado. O resto é história: como político de esquerda, Lula foi candidato a governador de São Paulo (1982), eleito deputado Constituinte em 1986 e perdeu três eleições para a Presidência. Apenas 22 anos após a fundação do partido, bem menos "de esquerda" e sem aquela "castidade ideológica", tornou-se presidente da República.
Apesar da cordialidade com que me recebeu, Dr. Ruy manteve-se o tempo todo cético em relação à minha empreitada, apesar de reconhecer o valor histórico do material. De fato, o trabalho foi grande. Primeiro ler a íntegra da entrevista, depois separar os trechos por temas abordados (política, economia, sindicalismo, militares, estudantes, mídia...) e enfim reordená-los e editá-los.
O resultado desse encontro com o Dr. Ruy foi uma edição especial da Revista AOL, publicada em setembro de 2004, na qual devo ter recuperado quase metade da conversa com Lula, dividida em seis retrancas. A cópia das 139 laudas com a íntegra permanece guardada em minha gaveta – assim como o original amarelado repousa da gaveta do Dr. Ruy Mesquita.
A diferença é que as principais idéias do Lula de 1978 agora estão disponíveis na Web. A Revista AOL pode ser lida no endereço http://www.aol.com.br/revista/2004/0045.adp.






