Gripe suína, agrotóxicos e imprensa investigativa

Gripe suína, agrotóxicos e imprensa investigativa

Atualizado em 30/07/2009 às 16:07, por Wilson da Costa Bueno.

Momentos especiais como os da emergência de pandemias e o questionamento dos alimentos orgânicos contribuem, admiravelmente, para a análise da atuação dos lobbies e da própria imprensa.

Há, certamente, vários exemplos para ilustrar essas nossas considerações mas preferimos concentrar-nos em apenas dois fatos: as pressões para a indicação dos antivirais (em especial Tamiflu para o combate à gripe suína) e a divulgação equivocada da não vantagem dos alimentos orgânicos em relação aos convencionais.

O primeiro caso diz respeito ao lobby da indústria da saúde, em particular os laboratórios farmacêuticos, louca para que cidadãos e governos utilizem intensamente os seus produtos, muitos deles de eficácia não comprovada ou, o que é pior, com efeitos colaterais importantes. Este lobby invariavelmente se faz acompanhar de uma propaganda nem sempre ética ou responsável que induz à automedicação.

O monitoramento da propaganda de medicamentos realizado pela ANVISA tem sistematicamente comprovado que um número significativo de peças publicitárias afronta a legislação, com a indicação de remédios para fins não autorizados, omissão de efeitos colaterais ou má informação. Na prática, há um desrespeito absoluto ao cidadão que, inclusive em situações como a que vivemos, é bombardeado por propaganda sobre remédios contra a gripe, dor de cabeça, num oportunismo irresponsável que é comum à chamada Big Pharma. O mesmo aconteceu em anos anteriores quando do aumento avassalador de casos de dengue, em especial no Rio de Janeiro. Ou seja, é preciso maior atenção para a postura de determinadas empresas que, como abutres, ficam à espreita da vulnerabilidade dos consumidores para avançar sobre os seus bolsos e a sua saúde.

Reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo no dia 29 de julho último (p.A24) trazia depoimentos de especialistas recomendando cautela na prescrição de antivirais, com a alegação correta de que não funcionam em boa parte dos casos e de que não podem ser vistos como a panacéia para uma situação dramática como a da gripe suína. Há inclusive situações em que eles não são recomendados, mas, como se pode perceber, falta de esclarecimento (onde a imprensa poderia contribuir de forma positiva), desespero das autoridades (que não sabem como controlar a explosão de novos casos e cientes da precariedade dos serviços de atendimento) e despreparo de parte da classe médica (seduzidas pela fala melosa de divulgadores de remédios) acabam estimulando a prescrição dos medicamentos.

Reportagem do dia 30 de julho de 2009 (p. A19) do mesmo Estadão informa que o Ministério da Saúde vai facilitar acesso ao remédio contra gripe suína e que, na prática, o critério para indicação estará nas mãos dos médicos. Não precisa ser muito esperto para se concluir de que, se houver remédio suficiente, ele vai ser distribuído amplamente para a população, com controle pouco satisfatório (há algum controle nas farmácias?).

A mesma paranóia ocorreu no caso da gripe das aves (que infelizmente não chegou por aqui) em que países adquiriram milhões de doses como prevenção, induzidos por notícias sensacionalistas e por suspeitos lobbies de laboratórios com a omissão/cumplicidade de autoridades da área da saúde em todo o mundo.

Ninguém nega a importância dos medicamentos para situações bem definidas, mas é preciso calma, como explica Arthur Timmerman, infectologista dos Hospitais Edmundo Vasconcelos e Alberto Einstein, na reportagem do Estadão (29/07): " ainda é cedo para qualquer comprovação da eficácia do oseltamivir (Tamiflu) no tratamento da gripe suína. Ele é usado para a gripe sazonal, nunca foi avaliado para o H1N1 e já existem relatos de resistência ao medicamento em alguns países". E acrescenta que, "o contrário dos casos fatais de gripe sazonal, as mortes causadas pela gripe suína ocorrem, em muitos casos, por uma espécie de "hiper-reação" do organismo ao vírus. "Os pacientes morrem mesmo pela resposta imunológica ao vírus".

Ir com muita sede ao pote pode não agregar qualquer medida correta para o combate à gripe mas certamente contribui para o aumento dos lucros dos fabricantes de medicamentos.

A Big Pharma, designação utilizada para identificar as principais farmacêuticas multinacionais, tem um passado pouco recomendável, como pudemos assistir no caso do Vioxx, da própria Merck, que matou milhares de pessoas em todo o mundo, antes de ser recolhido pelo próprio laboratório, numa hipócrita alegação de que o retirava do mercado em respeito ao consumidor (sempre soube que ele tinha efeitos importantes, como ficou evidenciado durante os inúmeros processos a que foi submetido). O livro Crimes corporativos, publicado há algum tempo por aqui e de autoria de Russel Mokiber (já está esgotado), trazia relatos terríveis de crimes cometidos por organizações, onde se destacavam sobretudo a indústria farmacêutica e as montadoras.

Uma leitura mesmo rápida do livro A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos, de Marcia Angell, publicado pela Editora Record no Brasil, com o subtítulo esclarecedor "Como somos enganados e o que podemos fazer a respeito", revela como funcionam os bastidores desta indústria poderosa. Antes de citar alguns exemplos, é preciso identificar a autora: ex-editora-chefe do New England Journal of Medicine, uma das publicações de maior prestígio na área médica em todo o mundo, e professora da Harvard Medical School. Ela foi considerada pela revista Time uma das 25 pessoas mais influentes nos Estados Unidos.

Está lá no capítulo 7 (Venda agressiva...Chamarizes, subornos e propinas): "em 2001, os laboratórios deram aos médicos o equivalente a 11 bilhões de dólares em amostras grátis, distribuídas por cerca de 88 mil representantes comerciais." Na verdade, está demonstrado que eles gastam muito mais em marketing do que em pesquisas (estima-se em 35% do total de suas receitas). Como estratégia cada vez mais usual, buscam em campanhas milionárias estimular o consumo com apelos como os que nos acostumamos a ver na televisão, tipo "coma o que quiser, basta tomar um comprimidinho antes e outro depois" ou sugestões irresponsáveis para combater a obesidade, eliminar o estresse etc. O brasileiro é um dos grandes consumidores mundiais de medicamentos, inclusive aqueles que provocam dependência e têm efeitos colaterais mais severos.

Pesquisa recente realizada pelo IDEC mostra que 70% dos cerca de 50 remédios de uso comum entre as crianças utilizam corantes em sua fórmula, o que pode contribuir para causar reações indesejadas na pele, acarretar problemas para os sistemas respiratório e gastrointestinal e provocar choque anafilático nas mais sensíveis.

Reportagem da Folha de S. Paulo (28/07/2009, p.C11) traz relato de pesquisa realizada por investigadores de Harvard sobre risco de hipertensão em mulheres que tomam analgésico uma vez por semana. Mas não é isso que sugerem algumas campanhas publicitárias ou mesmo profissionais de saúde estimulados por laboratórios? Os mesmos pesquisadores de Harvard divulgaram há dois anos estudo realizado com homens em que se comprovava que aqueles que usavam aspirina, paracetamol ou ibuprofeno todos os dias apresentavam até 38% mais riscos de ter pressão alta do que os que não tinham esse hábito. Ou seja, nem sempre tomar medicamento é a melhor alternativa, embora essa seja uma constante na divulgação de saúde pela imprensa brasileira e a recomendação explícita, quase obrigatória, em muitos consultórios espalhados pelo País.

Um outro exemplo de má divulgação pode ser comprovado pelas manchetes de 30/07/2009 em dois jornais de grande circulação: Folha de S. Paulo e O Globo que, reproduzindo pesquisa veiculada em uma publicação norte-americana, proclamava aos quatro ventos a não vantagem nutricional dos alimentos orgânicos em relação aos convencionais, dedicando atenção menor (está em segundo plano nas reportagens) a um problema fundamental: o fato de não utilizarem agrotóxicos em seu processo de produção.

Esta divulgação coincide com a não circulação de uma cartilha sobre orgânicos patrocinada pelo Ministério da Agricultura, ilustrada pelo Ziraldo, e que, segundo informações que circulam pela web, se deveu a uma ação interposta pela Monsanto, a gigante dos transgênicos. Se for verdade (quem quiser pode acessar o arquivo da cartilha, presente na Internet), trata-se de mais um caso envolvendo a empresa dentre os muitos já incorporados no belíssimo trabalho da jornalista investigativa francesa Maria Monique Robin - O mundo segundo a Monsanto.

O crescimento importante do consumo de orgânicos efetivamente incomoda as empresas de agrotóxicos (veneno e não remedinho para planta) e de transgênicos (farinhas do mesmo saco) porque não apenas pode mexer com o seu bolso, mas fortalece o conceito de sustentabilidade a que elas, apesar do discurso hipócrita, não podem respeitar.

De novo, a ANVISA (que sofre - será coincidência? - pressão violenta das agroquímicas e dos laboratórios) traz dados sobre o número alarmante de casos de contaminação por agrotóxicos em nosso País, respaldada também por pesquisas sérias da competentíssima Fiocruz.

Um planeta saudável exige, em particular no caso brasileiro - somos um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo - atenção para este problema porque os produtos químicos (pesticidas, herbicidas, fungicidas e todos os demais malditos "cidas" por aí) andam contaminando brutalmente nosso solo, nossa água e nosso ar, além dos alimentos (há produtos como o pimentão que chegam a estar brutalmente infestados por agrotóxicos, alguns proibidos no País, em mais de 50% dos casos!).

O jornalismo em saúde precisa ser mais investigativo, mais crítico e não pode continuar refém de fontes comprometidas com grandes interesses, confundindo executivos de empresas agroquímicas, de biotecnologia, da indústria da saúde com pesquisadores. Precisa estar ciente de que o diretor de pesquisa & desenvolvimento de uma corporação multinacional que atua nessas áreas é , como se diz no mercado, "boca alugada" e que não tem independência alguma para avaliar situações que envolvem os seus produtos. Precisa perceber (ainda não se deu conta?) de que pesquisas favoráveis aos transgênicos são sempre realizadas e divulgadas no Brasil por uma mesma empresa que tem em seu portfólio trabalhos realizados para empresas de biotecnologia. É fonte independente, confiável?

O jornalismo em saúde precisa estar atento a agências de comunicação, RP, assessorias de imprensa a serviço da insustentabilidade de determinados setores que insistem em se proclamar socialmente responsáveis, como a indústria do tabaco (mata milhões de pessoas por ano), e que, ao mesmo tempo, patrocinam cursos de formações para jornalistas em veículos de prestígio, como a Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo (para atrair novos consumidores, formar porta-vozes ou respaldar no futuro o processo sujo de limpeza de imagem?).

O jornalismo em saúde não pode acriticamente reproduzir releases da indústria da saúde porque eles estão comprometidos com a venda de produtos e serviços e não com a promoção da saúde ou da qualidade de vida.

Certamente, há empresas sérias, éticas (que a carapuça caiba nas que se sentirem atingidas por estas considerações), mas o terreno aqui é pantanoso e vale a pena ter como pressupostos básicos no jornalismo em saúde 3 ditados: "não existe almoço grátis", "cautela e caldo de galinha não fazem mal pra ninguém" e "é indispensável enxergar além da notícia" ou, como dizem os norte-americanos (eles entendem disso!): "follow the Money" (siga o dinheiro).

Se o jornalista em saúde, antes de divulgar medicamentos, serviços, novas pesquisas etc tiver a paciência e o cuidado de se perguntar antes: quem lucra com esta divulgação?, poderá evitar equívocos em seu trabalho. Pensando bem: ser mula ou laranja de grandes corporações que atuam na área da saúde e afrontam o interesse público não deveria ser tarefa a ser desempenhada por profissionais de imprensa.

Vamos com calma com o Tamiflu, com os agrotóxicos (veneno mesmo), com os transgênicos (o problema não se resume à tecnologia mas inclui espírito predador dos monopólios das sementes), com as empresas de medicina de grupo, os planos de saúde. Se o almoço não é grátis, verifique se não somos nós que estamos pagando esta conta.

Não deixe de prestar atenção quando for a uma farmácia (há mais farmácias do que padarias no Brasil!): os balconistas estão usando jalecos de laboratórios? Se sim, fuja de lá: não compactue com a estratégia odiosa da empurroterapia porque provavelmente alguns destes profissionais, voluntária ou subliminarmente, estão ali promovendo medicamentos e não cuidando da sua saúde (outro dia um balconista numa farmácia andava atrás de clientes distribuindo folhetos de um laboratório, pode?).

Falta ética para o negócio e falta vigilância para o jornalismo em saúde. Ambos merecem um belo pontapé nos fundilhos.

Resposta

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