"Fui testemunha ocular da história", diz Zileide Silva, ganhadora do Grande Prêmio de “Contribuição ao Jornalismo”

Atualizado em 16/09/2022 às 07:09, por Redação Portal IMPRENSA.

Com uma carreira iniciada há mais de 40 anos e marcada por pioneirismos, a jornalista paulistana Zileide Silva está na TV Globo há 25 anos. À frente do Bom Dia Brasil, foi a primeira profissional de imprensa negra a apresentar na emissora, como titular, um telejornal diário nacional. Também foi correspondente internacional da Globo em Nova York de 2000 a 2003 e, em 2006, a primeira repórter negra a integrar uma comitiva presidencial.
Com o tema “Pertencimento e Inovação”, a edição deste ano do Troféu Mulher IMPRENSA, cuja cerimônia de premiação ocorre nesta sexta-feira (16), em São Paulo, vai entregar o Grande Prêmio de “Contribuição ao Jornalismo” a Zileide. A categoria é um reconhecimento à importância da participação da homenageada no desenvolvimento da comunicação no país.
Para saber mais sobre a trajetória dessa pioneira jornalista, o Portal IMPRENSA publica a seguir uma entrevista em que ela revela detalhes pouco conhecidos de sua carreira. Crédito:Reprodução Globo Portal IMPRENSA - Você já trabalhou como locutora de rádio. Qual a importância da mídia rádio em sua formação jornalística?
Zileide Silva - Sou jornalista de TV graças ao rádio. Foi meu primeiro emprego como estagiária, ainda estudante de jornalismo. Lá aprendi a trabalhar um texto, a contar uma história sem ter imagens. E aprendi a respeitar o tempo dado para uma reportagem. Sem estourar, sem enrolar. Fui redatora, apresentadora e repórter. Devo muito a esse veículo.
Portal IMPRENSA - Outro destaque de seu início de carreira foi a passagem pelo programa Matéria Prima, apresentado pelo Serginho Groisman na TV Cultura. Como foi essa experiência?
Zileide Silva - Opa. Aqui preciso explicar. O Matéria Prima começou na rádio Cultura e fui repórter lá. O programa, o próprio Serginho já disse, foi o embrião do Altas Horas. Muitas vezes eu ia para as escolas e de lá participava de debates com estudantes.
Portal IMPRENSA - Como foi cobrir o Plano Collor? Na época você estava no SBT?
Zileide Silva - Eu já cobria economia na TV Cultura e fui convidada para cobrir o plano Collor no TJ Brasil, do jornalista Boris Casoy. Claro que eu fiz parte de uma equipe. TV é equipe. Jornalismo é equipe. E comecei a cobrir economia por causa do jornalista Joelmir Betting. Eu o ouvia na rádio, o via na tv. E adorava o jeito didático, simples, que ele tinha para cobrir economia. E essa sempre foi minha preocupação, traduzir a economia, mostrar o reflexo dela no dia a dia da população. Pegar uma informação do Ministério da Fazenda, da Economia, do Palácio do Planalto e mostrar o reflexo dessa decisão na rotina do brasileiro. Foi assim com o plano Collor, que, entre outras coisas, confiscou o dinheiro da população.
Portal IMPRENSA - Quando você chegou na Globo, já era para cobrir política e economia?
Zileide Silva - Sim, e eu lembro que conversando com o Marcelo Netto, então diretor da Globo em Brasília, ele pediu para que eu continuasse mostrando o impacto das decisões dos ministérios, do Planalto, no dia a dia da população. Levando a decisão dos prédios para as ruas. Portal IMPRENSA - Como foi a fase de correspondente em Nova York? Qual a importância desse período na construção de suas percepções acerca do trabalho da imprensa?
Zileide Silva - Sabe a expressão estar no lugar certo na hora certa? Foi assim na minha passagem por Nova York. Assim que cheguei houve a eleição de George Bush, uma eleição que foi decidida na Suprema Corte. Lá acompanhei todo um processo de eleição que é muito diferente do nosso. Lembro que comentava com amigos que eu já podia voltar para o Brasil depois de uma cobertura como aquela. Mas aí teve o 11 de setembro, um acontecimento que mudou o mundo. Novamente cabe uma expressão: ser testemunha ocular da história. Eu fui! O mundo mudou, acompanhamos o início da guerra ao terror, a xenofobia. Foi uma cobertura difícil. Mas em equipe. Essencial, necessária, para o nosso objetivo central, levar informação correta para o telespectador brasileiro.
Portal IMPRENSA - Seu pai ajudou a construir Brasília. Poderia contar mais sobre essa história? Considerando essa relação pessoal, como é para você trabalhar e morar na cidade?
Zileide Silva - Meu pai trabalhava numa empresa de construção civil, era mestre de obras. Ajudou, sim, a construir Brasília. E hoje eu estou aqui. Eu sou de São Paulo, nasci na Zona Leste, mas depois de 20 anos por aqui já me sinto um pouco brasiliense. E, poxa, se meu pai ajudou a construir essa capital, posso me sentir brasiliense (risos).
Portal IMPRENSA - Assim como outros veículos, a Globo tem feito um esforço enorme para minimizar os efeitos das fake news. Na sua visão, quais os méritos e deméritos do jornalismo no processo de combate à desinformação no Brasil?
Zileide Silva - O Grupo Globo tem um serviço de checagem de fatos: o fato ou fake. É um serviço de monitoramento e checagem de conteúdos duvidosos, que esclarece o que é falso ou verdadeiro. Sempre foi necessário e, agora, durante a campanha eleitoral, é ainda mais. Para evitar, por exemplo, que o eleitor caia numa fake news sobre a urna eletrônica, sobre o voto em branco, o nulo. E foi muito importante também no auge da pandemia para desmentir informações mentirosas que questionavam a existência da pandemia, a eficiência do uso das máscaras, das vacinas e dos remédios.
Portal IMPRENSA - Você acredita que a imprensa tem conseguido contribuir para o combate às fake news nas eleições deste ano?
Zileide Silva - Sim, mas é um trabalho diário e sem fim. Todos os dias acompanhamos o Tribunal Superior Eleitoral derrubando fake news, retirando publicações mentirosas do ar.
Portal IMPRENSA - Considerando a presença dos negros nas redações brasileiras, como você avalia as diferenças entre o cenário atual e aquele visto quando você começou no jornalismo? Acredita que hoje os negros têm mais representatividade?
Zileide Silva - É, sem dúvida, um outro momento. Quando comecei no jornalismo o número de jornalistas negros era muito menor. Na TV, então, não há comparação. Éramos, me incluo, exceções. Hoje, temos, sem dúvida, uma representatividade maior, mas quando olhamos a população negra no Brasil, é claro que a presença negra precisa, deve aumentar. A maioria dos jornalistas ainda é branca.