Fotógrafo de poder há 50 anos, Orlando Brito critica blindagem à Presidência

Orlando Brito, um dos mais experientes repórteres fotográficos do país, ostenta no currículo quase cinco décadas de cobertura do poder, alémdo privilégio de ter clicado todos os presidentes da República, desde 1964.

Atualizado em 08/08/2012 às 16:08, por Guilherme Sardas.

Com a curiosidade de que o primeiro nome da extensa lista de 13 estadistas – o marechal Humberto Castelo Branco – foi também o protagonista de sua primeira foto profissional, produzida aos 15 anos de idade.

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“Eu era contínuo do Última Hora , em Brasília, servia cafezinho e depois acabei trabalhando no laboratório do jornal, revelando os filmes. Um dia, o Castelo Branco foi visitar o arcebispado de Brasília, que era vizinho do jornal, e não tinha fotógrafo. O Alberico Souza Cruz me deu a grande chance. ‘Ah, manda esse menino lá’, disse. O menino foi e ficou até hoje na profissão”, conta.


Crédito: Orlando Brito
FHC


Filho de um político mineiro apoiador de Juscelino Kubitschek, Brito chegou a Brasília no final de 1956, aos sete anos. Testemunhou, assim, o nascimento e o povoamento político da futura capital federal. “Às vezes, dizem: ‘Ah, você adora o poder.’ Mas é claro, em 1964, você tinha a revolução recente, Brasília era uma cidade em construção, havia muito movimento. Sem dúvida, houve um fascínio por viver no cenário de poder”.


Apesar de rejeitar a ideia de que a fotografia política exija uma especialização rígida – “O fotógrafo brasileiro tem a vantagem de saber tanto subir a favela, quanto acompanhar um balé no municipal” – considera fundamental o domínio da matéria e atualização permanente sobre os fatos do meio político. “Você não pode cobrir um evento político sem saber o peso de cada personagem, a importância de cada fato, a relevância de cada gesto.”


Crédito: Orlando Brito Fernando Collor


Assim como um repórter de texto, para Brito, o fotógrafo de poder deve zelar pelas boas fontes como nenhum outro fotógrafo. “No esporte, você colhe muita fotografia fortuita, ganha de presente imagens que o próprio desenrolar do lance presenteiam. Na política, não. O fortuito praticamente não existe, existe o intencional, a compreensão do que está acontecendo.”


Após a promissora estreia no Última Hora , o fotógrafo teve passagens por O Globo (1968-1982), revista Veja (por 16 anos), onde foi editor de fotografia, função que também exerceu no Jornal do Brasil no fim dos anos 80. Com três livros publicados, possui onze Prêmios Abril de Fotografia e o World Press Photo do Museu Van Gogh, de Amsterdã, Holanda (1979). Hoje, dirige sua própria agência de notícias.


Crédito: Orlando Brito Lula


Atuante durante os 21 anos da ditadura militar brasileira (1964-1985), Orlando Brito vê, atualmente, uma contradição na fotografia de poder. “Na ditadura, você podia fotografar tudo e publicar nada. Hoje, você pode publicar tudo, mas não pode fotografar quase nada. Vá a uma cerimônia palaciana para você ver o rigor que a imprensa tem para trabalhar. Nem no Vietnã foi assim, nem na Coreia do Norte é assim”, argumenta.


Crédito: Orlando Brito Detalhe da mão de ministro da ditadura militar.

Sobre os governos de acesso mais difícil aos fotógrafos, destaca os mais recentes. “Nos últimos dois governos, há uma má-compreensão do papel das pessoas que cuidam de imprensa na Presidência. Os governos Lula e Dilma são terríveis, é dificílimo você fazer algo que não seja aquilo que eles montam para ser feito. Você entra, é aquela cena imóvel, impressionante. Você não consegue mudar aquilo: é uma geladeira cheia de gelo”, finaliza.


Crédito: Orlando Brito Diretas Já
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