Fonte: Lousa, giz e Política

Fonte: Lousa, giz e Política

Atualizado em 11/01/2006 às 19:01, por Thais naldoni.

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Quando foi reitor da Universidade de Brasília (entre 1985 e 1989), Cristovam Buarque surpreendeu-se com o fato de existirem ainda funcionários analfabetos em uma das mais importantes universidades do país. Tomou uma decisão: erradicar o analfabetismo no campus. Lembra com orgulho ter conseguido. Quase 20 anos depois, queria repetir a missão e ampliar o território: esperava acabar com o analfabetismo no Brasil. Não conseguiu. Foi demitido por telefone, decepcionouse com o PT - do qual era um dos mais conhecidos políticos, após ter sido governador do Distrito Federal - e filiou-se ao PDT de Brizola, de quem guarda boa memória.

Nesta entrevista à revista IMPRENSA, Buarque fala, entre outras coisas, sobre sua saída do PT, a crise política, a educação no Brasil, o silêncio dos intelectuais e afirma: "Deixei a casa, para não deixar a causa".

IMPRENSA - Quais são seus planos políticos para 2006? Pretende disputar algum cargo executivo?
CRISTOVAM BUARQUE - Não vou pleitear ser candidato do PDT à presidência. Mas se for indicado, aceitarei.

IMPRENSA - Por que o senhor deixou o PT?
BUARQUE - Eu saí da casa para não sair da causa. Eu sempre tive conflitos criativos dentro do PT. Sempre fiz parte do grupo anticorporativista, que queria uma proposta nacional. Além disso, acho que a grande proposta transformadora é a educação, não a economia. Na economia, pouco se pode mudar. Depois desses escândalos, percebi que o PT não vai mais formular sua proposta de Brasil nos próximos cinco ou dez anos. Ele vai ficar voltado para a luta interna e essa luta interna eu sei que não gosto de fazer. O Brasil não tem porque ficar esperando que o PT se encontre para liderar o país. Então decidi sair.

IMPRENSA - O senhor foi desligado do governo Lula por telefone. Como se sentiu?
BUARQUE - Quando recebi o telefonema do Lula, eu estava em Lisboa. Logo depois, os jornalistas me procuraram e perguntaram: "o que o senhor está sentindo?". Respondi que estava sentindo um "frustralívio". Era uma mistura de frustração e alívio. Frustração porque eu estava certo de que iria ficar na história do Brasil como o ministro que erradicou o analfabetismo. Já pensou? Nunca iriam me esquecer! Senti frustração por causa disso, mas senti alívio porque estava claro que o presidente Lula não iria colocar a educação como uma prioridade. Eu pensava que ia ser demitido em fevereiro de 2003, quando disse na televisão que não precisava de Fome Zero, bastava aumentar o valor da Bolsa Escola. Depois, em abril, quando disse que precisava de 20 bilhões para dar um salto na educação, o Lula ficou furioso. A Folha deu uma grande manchete. Depois quando eu disse aos jovens que se mobilizassem e cercassem o Congresso para pedir mais dinheiro e disseram que ministro não era para insuflar.

IMPRENSA - Sua situação no governo melhorou depois do prêmio da Unesco pelo programa de alfabetização?
BUARQUE - Melhorou... Pararam as notinhas que o Zé Dirceu plantava contra mim, dezenas. Eu juntei todas, um dia levei para ele e disse: "olha, isso tudo saiu daqui". Ele disse que não, mas a partir daí elas pararam de sair.

IMPRENSA - A Marilena Chauí declara aos quatro ventos que a crise não existe, que é produto da mídia. O senhor acredita nisso?
BUARQUE - Discordo totalmente. Primeiro que ela só está vendo a crise do mensalão, que eu acho que é a menor das crises. A verdadeira crise é que o presidente não cumpriu os compromissos de campanha. Daqui 20 anos não vai se falar no mensalão, mas vai se falar que Lula foi um presidente que não cumpriu com seus compromissos. Ele foi mais um presidente do velho ciclo da República aristocrática do Brasil. Uma República que tem um topo da pirâmide que desconhece e despreza as massas. É como se fosse uma aristocracia consumista, com uma plebe excluída. O Lula não deu o salto para mudar isso. Uma pessoa como a Marilena Chauí, ao invés de estar escondendo a crise, devia estar formulando alternativas para o PT.

IMPRENSA - As universidades federais e estaduais continuam ainda sofrendo em função das greves. O que o governo Lula poderia ter feito para melhorar isso e não fez?
BUARQUE - Por que a Universidade pode ficar 800 dias em greve? Porque não está tendo indústria procurando engenheiro, porque não tem jornal procurando jornalista. A universidade está produzindo um produto onde não há demanda. Por isso que as greves permanecem. Por que esses jovens adiam a formatura? Porque eles sabem que não terão emprego fácil. Você sabe como é greve no Japão e na Coréia? Eles assistem aula direitinho. Quando termina a aula, eles pegam pau e vão queimar os carros na rua, vão quebrar vitrine, mas não param de ter aula.

IMPRENSA - Falta apoio popular para que a universidade pública receba mais verbas?
BUARQUE - Se o governo fizer um plebiscito, como o das armas, e perguntar: "vamos aumentar o dinheiro para as universidades? Sim ou não?". Pode ter certeza que ganha o não. A universidade está caminhando para uma morte anunciada...

IMPRENSA - No caso da cassação de José Dirceu... O senhor acredita que ele é vítima de um "fuzilamento da opinião pública", como ele mesmo diz?
BUARQUE - Eu fui o primeiro a bater no Zé Dirceu... Briguei com ele. Disse diversas vezes que era o maior erro do Lula. Um bom chefe da Casa Civil tem que ser sem nome. Mudo, de preferência. Não pode ser alguém que saia na imprensa o tempo todo, dando opinião sobre tudo. Eu estava muito satisfeito com a Dilma, mas já não estou mais. Não porque ela está contra o Palocci, é porque ela está dando muito pitaco. Quem dá pitaco é presidente, não é chefe da Casa Civil. Ele só deve falar quando for em nome do presidente. Quando não for assim, ele é ninguém, é um técnico. É nisso que está a competência dele, como foi o caso do Pedro Parente. O José Dirceu era carente demais para o cargo. Depois que eu reclamei, mandei diversos projetos de lei e ele engavetou. Não tinha interesse porque ia incomodar o prefeito, porque talvez atrapalhasse a reeleição do Lula. Depois que ele caiu em desgraça, eu parei de comentar... Não vou dizer que ele merece, mas também não vou dizer que ele não merece. Não vou assinar nenhum documento em defesa dele.

IMPRENSA - O senhor acredita que a oposição ao governo Lula esteja sendo cautelosa, responsável ou covarde por não ter pedido o "Fora Lula", como o PT pediu tantas vezes o "Fora FHC"?
BUARQUE - O PT era irresponsável quando pedia "Fora FHC". E eu acho que nunca foi uma decisão do PT, mas de grupos. Seria um absurdo pedir o "Fora Lula". Impeachment você só pede quando o povo estiver gritando na rua. Aí você sussurra no microfone da tribuna. É o povo que tem que pedir e o povo não está pedindo a saída do Lula. Digo mais: se a eleição fosse hoje, ele se reelegeria. Então não há porque a oposição falar em impeachment. Acho que ela está sendo responsável.

Perfil

 Cristovam Buarque é doutor em Economia pela Universidade de Paris e professor titular da Universidade de Brasília desde 1979, da qual foi reitor entre 1985 e 1989.
 Buarque foi eleito senador da República em 2002, com a maior votação dada a um político do Distrito Federal.
 Cristovam Buarque criou a ONG Missão Criança, para promover a idéia do Bolsa Escola no Brasil e no exterior. Este programa é recomendado pela ONU.
 Cristovam trabalhou por seis anos para o Inter-American Development Bank (IADB), em Washington, DC.
 Cristovam Buarque é membro do Instituto de Educação da Unesco.
 Foi presidente do Conselho da Universidade para a Paz das Nações Unidas, membro do Conselho Presidencial que elaborou a proposta de Constituição (Constituinte, 1987) e integrante da Comissão Presidencial para a Alimentação, dirigida por Betinho.
 O senador filiou-se ao PDT em 2005, após 15 anos de filiação ao PT.
 Desde maio de 2004, Cristovam Buarque mantém um blog, dentro de seu site, criado para uma interação maior com a população. São cerca de 2 mil visitas diárias. O próprio senador posta as mensagens (www.cristovambuarque.com.br/blog).