Foca em Apuros: Aprendendo a Blefar

E não é que não demorou pro foca voltar? Depois do "Foca em Apuros" especial no estágio de assuntos militares, dessa fez fui envia

Atualizado em 16/12/2015 às 13:12, por Matheus Narcizo*.

E não é que não demorou para o foca voltar à ação? Depois do "Foca em Apuros" especial em assuntos , desta fez fui enviado diretamente ao World Trade Center brasileiro, em São Paulo, para cobrir um evento internacional de pôquer. O mais legal: eu nunca havia jogado na vida.

Aliás, eu também nunca havia comido ração na vida. Nunca havia pensado em como fugir do meu próprio sequestro. Nunca havia achado que o jogo Batalha Naval seria tão complexo. Mas, foca que é foca nasceu pra isso. Então, vamos lá.

Primeiro, contextualizando:

A 10ª temporada do Brazilian Series Of Poker (Bsop)Milions, maior evento de pôquer do Brasil que começou no último dia 25 de novembro e terminou no último dia 3 de dezembro, reuniu os grandes nomes da modalidade do mundo. A competição ainda contou com a presença de astros como o ex-jogador Ronaldo, o vlogueiro Cauê Moura e o ator Bruno Gagliasso.

E os prêmios? Pela TV e, principalmente, pelos filmes de Hollywood, temos uma imagem do pôquer como um "esporte de rico". De milionário. E, depois do evento, como experiência própria, acho que não estamos tão enganados.

O prêmio ao vencedor, o catarinense André "Coronel" Andreis, foi de R$ 1 milhão – isso mesmo, minha gente, UM MILHÃO. Imagina só? E eu fico pensando: será que isso é de lambuja? Quanto será que o cara precisou apostar pra ganhar um milhão? Não dá pra entrar nessa sendo um durão, um foca. Dá, não.

Aliás, ainda vou citar a premiação dos dez primeiros colocados do Bsop (os nove ranqueados após Andreis). Confesso: não faria a menor questão de ser o vencedor. Pelo valor, me põe na décima posição que eu estou tranquilo! Já dá pra pagar o curso de dublê do Rambo lá em Bollywood, se nada der certo dentro do jornalismo. Sonha, foca!

Bom, e o que eu fui fazer naquele evento? O que eu, um pobre – literalmente – foca, faria no meio de um evento tão diferente da realidade? Ah, é nessas que o jornalismo dá as caras!

Além da competição para os profissionais – o principal do evento, é claro – a Pokerstars, organizadora do Bsop, realizou uma competição de pôquer para a imprensa. Notem que eu não disse "para focas".

A cena seria a seguinte: um bando de repórteres iniciantes no esporte – alguns já tinham experiência, e deixo aqui meu completo repúdio aos traíras – iriam receber uma aula inicial sobre a modalidade Texas Hold’em (que eu vou explicar daqui a pouco) para, em seguida, "guerrearem como leões", entre si, por uma vaga no torneio de profissionais. Desta vez, deixei o Rambo de lado e me vesti de James Bond. Talvez desse mais certo, já que o cara conhece o “jogo da conquista” e sabe blefar como poucos. O que vale é tentar.

A aula inicial foi ministrada pelo jornalista Sergio Prado, que foi um dos primeiros a começar a falar de pôquer na ESPN, quando nem se cogitava transformar o jogo em esporte. Ele também é responsável pelo "Pokestars Blog", no qual se encontra tudo sobre o cenário nacional e internacional do esporte. Outro mundo! E o cara manja muito!

Como um bom professor, Prado começou dando um exemplo prático sobre o que é o pôquer: "Eu posso dizer que a minha casa é muito melhor do que a sua e você pode 'apostar' que isso não é verdade. O pôquer resolve 'quem é o melhor' através das cartas. Nós podemos jogar dez vezes e você ganhar sete. Mas, se a gente jogar dez mil, eu com certeza ganho muito mais", disse.

Será? Eu não tenho dúvidas, principalmente depois que comecei a jogar.

Depois do exemplo inicial, vieram às explicações sobre o jogo em si: como funciona, como se joga, quais as jogadas, entre outras coisas. Pois bem.

Primeiro, abro um espaço para explicar o que é o Pôquer Texas Hold’em.

O Texas Hold’em é a modalidade mais famosa e tradicional do mundo. É também a mais jogada. E é bem básica: cada jogador recebe duas cartas viradas para baixo (tecnicamente chamadas de "hole cards", ou "cartas fechadas") e cinco são viradas, aos poucos, na mesa.
Ao final, vence quem tiver o melhor jogo. Ou o jogador pode fazer os adversários desistirem antes. É um esporte interessante porque pode acabar de formas diferentes. É muito interessante, mesmo.

E aí entra o fato sobre "eu não ter dúvida de que o jogador experiente me venceria mais vezes em dez mil disputadas". Aí entra a sabedoria e experiência do cara rodado. Ele sabe blefar. Sabe usar a aposta como forma de amedrontar. Entende, com o perdão da expressão, do "paranauê" do jogo. Eu, foca, com essa cara de tonto, não tenho a menor chance.

E, DENUNCIO! ALÉM DE ÓTIMOS JOGADORES, OS PROFISSIONAIS JOGAM DE ÓCULOS. PÔ, COMO REPARAR NA TUA EXPRESSÃO? TU ME COMPLICA! O CARA NÃO DÁ UMA DICA, UMA ENTORTADA DE ROSTO, UMA MEXIDA DE OMBRO.

CADÊ OS SINAIS DO TRUCO? PARECE QUE NUNCA JOGOU EM MESA DE BOTECO.

Certo, compreendido o Texas Hold’em, agora vamos para os tipos de jogadas do pôquer. São nove, no total. E, primeiro, antes de tudo, é preciso saber que a carta mais alta do baralho é o As . É a partir dele que, em casa de empate, faz-se a diferenciação entre o "jogo mais forte":

Um par: é a jogada mais básica e bastante dedutível; são duas cartas iguais. Por exemplo: dois reis (K), duas cartas quatro ou dois valetes (J); simples.

Dois pares: o mesmo que o de cima, só que dobrado; duas duplas de cartas iguais; exemplo: tenho na mão uma carta 9 e outra 7 e as hole cards, após abertas, também contam um 9 e um 7; estão feitos os dois pares.

Trinca: assim como no par, é dedutível; três cartas iguais. Tenho, por exemplo, duas cartas K e a mesa abre mais uma.

Sequência (Straight): cinco cartas em sequência, de naipes diferentes; por exemplo, a sequência 6, 7, 8, 9 e 10.

Flush: quaisquer cinco cartas do mesmo naipe; não importa qual carta seja, desde que todas tenham o mesmo naipe (copas, paus, ouros e espadas).

Full House: uma trinca e um par.

Quadra: quatro cartas iguais.

Straight Flush: qualquer sequência de cartas iguais e do mesmo naipe; pode ser uma sequência 2, 3, 4, 5 e 6 com todas as cartas do naipe de copas.

Royal Straight Flush: aqui, a nata do pôquer; é o mesmo que o anterior, com a diferença de que as cartas formam a maior sequencia do jogo, encerrando a jogada na carta A (a maior do jogo).

Após essa mini-aula, Prado ainda nos deu alguns toques sobre a malícia do jogo. O ato de tentar sempre levar o adversário "no papo" através da aposta foi uma das técnicas mais apontadas. A observação também foi bastante ressaltada.

Pois bem, agora era chegada a hora de jogar. A hora do vamos ver. A hora de separar as crianças dos adultos. A hora de jogar o juvenil para o quintal. E tantas outras denominações parecidas.

EU TENTEI RESISTIR. TENTEI.

Fiquei sentado à mesa de jogo por pouco mais de uma hora. Não fui o primeiro a ser eliminado, mas não fui o vencedor. A propósito, isso me fez lembrar a falta de sorte que tenho com jogos de cartas, seja truco, vinte e um, UNO (este eu sempre fui razoável) ou PORCO (conhecido por BURRO, também).

É evidente minha falta de jeito para as cartas. Mas, como sempre joguei na brincadeira, não tive problema. Se fosse valendo, o dinheiro já teria ido... Bom, mas voltando para o torneio.

Como disse, fiquei pouco mais de uma hora à mesa. Foi até que bastante, cheguei a receber R$ 3 mil e uma rodada [fictícios, é claro. INFELIZMENTE]. Me senti como num duelo. Apostava e a pessoa cobria. Minha mão (cartas) era boa – tinha um par de 10. Eu, então, segui o conselho do "pofexô" e decidi apostar alto para ver se o adversário cobriria. Se cobrisse, ficaria óbvia sua boa mão. Se não, era minha. Não cobriu. COMO EU QUERIA QUE FOSSE GRANA DE VERDADE! Senta lá, foca.

Foi o ponto alto da minha breve estadia no torneio e o início da derrocada, até o momento em que decidi dar all-in (quando se aposta tudo) com uma mão que eu também acreditava ser boa – um rei e um dez.

O problema é que o meu amigo foca – adversário de mesa – deu uma sorte tremenda com as cartas viradas na mesa. Também no all-in , era ele ou eu. Fui eu. Mas, deixa eu narrar a sorte do cara:

Era eu e ele aguardando as cartas viradas. A primeira foi uma dama, a segunda, um nove; "bacana", pensei, já que eu conseguira, até então, uma boa sequência – nove, dez, dama e rei. Faltara o valete. Ben [mal] dito valete.

A terceira carta virada foi um sete. Não ajudava. Depois, um quatro [quê?]. Vira, valete, vira. E nada, a última foi um seis.

E, agora, explico o motivo da sorte do adversário: o cara venceu com um par de quatro e outro de seis. As duas últimas cartas da mesa. "Está de brincadeira, juiz? Sai com essa zica daqui, meu!", e esmurrei a mesa.

NÃO FIZ NADA DISSO, MAS DEVIA TER FEITO. ERA NECESSÁRIOTER MOSTRADO PULSO FIRME. FICA PRA PRÓXIMA.

E ainda precisei aguentar a zoeira do cara. Ele pegou o celular e começou a me filmar, dizendo: "tchau, colega". Respirei fundo e decidi não usar as práticas aprendidas no "Dia de Cão". Ao contrário, ri e reconheci o bom jogo – mesmo que com sorte. Ainda acabamos elogiados pela "coragem" em ir até o fim. Pensei: "só apostei porque não é dinheiro, amigo". Aliás, se fosse dinheiro...

DEPOIS DO JOGO

Já derrotado, decidi dar uma volta pelo evento, que ainda esperava por Ronaldo e outras celebridades. Acabei parando no setor Azul da competição, onde os caras mais experientes e economicamente sustentáveis jogavam. Só para curiosidade, a aposta mínima – para entrar no jogo – era no valor de R$ 10 mil. Dez mil!

E aí eu me questiono: será que o pôquer é viável para o cara pobre? De início, acho que não. Mas, existem situações e a carreira pode desenrolar. Um bom patrocinador, de repente, pode alavancar a vida de uma "pessoa comum". Mas, no geral, acho que o esporte ainda é um tanto restrito a quem dispõe de uma grana considerável.

Sobre a grana, comprovo através dos prêmios oferecidos aos vencedores. Como citado no começo, o grande vencedor, André "Coronel", de Chapecó (SC), ganhou mais de R$ 1 milhão pela vitória.

Mais uma reflexão: imaginem quanto o cara não deve ter investido para garantir esse milhão? Ele não entrou “do nada”. Não assumiu qualquer mesa de graça. Ele precisou investir – uma boa grana, acredito – para poder faturar a dinheirama. Mais do que ser bom, "acreditar no taco" é algo essencial pra quem joga pôquer.

E A LISTA COM OS OITO VENCEDORES:

1. André "Coronel" Andreis (Chapecó / SC) - R$ 1.033.000,00* 2. Daniel Nagao Nagayama (São Paulo / SP) - R$ R$ 789.500,00* 3. Cassiano Lima (Porto Alegre / RS) - R$ 620.000,00* 4. Thiago Grigoletti (Pelotas / RS) - R$ 500.000,00* 5. Ciro Gomez (São José dos Campos / SP) - R$ 592.000,00* 6. Luiz "Tofu" Higashi (São Paulo / SP) - R$ 240.000,00 7. Hugo Ewerton (Brasília / DF) - R$ 170.000,00 8. Ricardo Santana (Viçosa / MG) - R$ 120.000,00

E DAÍ PARTIU O MEU COMENTÁRIO INICIAL: PARA QUÊ SER O PRIMEIRO? EU ACEITARIA SER O OITAVO NUMA BOA. SEM PROBLEMA ALGUM. R$ 120 MIL? ORA!

CONCLUSÃO

Depois do jogo, minha conclusão é prosseguir com o jornalismo. Talvez – e espero – eu seja muito melhor retratando algo do que fazendo. Acho que o próprio Sérgio Prado deve se sentir assim. Talvez isso não seja tão bom pra ele – por conta da paixão pelo pôquer –, mas ter a oportunidade de viver intensamente o esporte, como ele vive, deve ser indescritível.

Falamos muito sobre o futebol, mas acho que há uma paixão muito interessante por quem se interessa por esportes "do segundo escalão". A convivência com o atleta, a oportunidade de se especializar, se tornar pioneiro. É um mundo do esporte diferente do que estamos acostumados. Parabéns ao Sérgio e aos tantos outros jornalistas que conseguem ter outras opções.

Sobre o pôquer: é fascinante. Confesso que tenho lido sobre o tema, jogado, pesquisado. Meu único medo fica por conta de acabar me viciando e pagar R$ 10 mil para entrar em uma mesa. Mas, aí eu me lembro que não tenho R$ 10 mil e não conseguiria entrar. E não teria R$ 5 mil, mil, quinhentos, cem, dez. CHORA, FOCA!

DEIXA EU PROSSEGUIR “DANDO BAILE” NO UNO, ENTÃO!
Sobre a realização: me faz bem poder escrever sobre as coisas. Me faz feliz ser o Foca oficial, escalado pra todos os tipos de presepadas possíveis. Afinal, é isso o que eu gosto de fazer. Estou aí para o que vier, não importa o que seja. (Vamos com calma).

MAS, SE FOR PRA FUGIR DO PRÓPRIO SEQUESTRO, VAMOS LÁ.

Brincadeira.

Até a próxima!