“Faltou diálogo”, afirma jornalista Fábio Alves em livro sobre a economia no governo Dilma

O jornalista da Agência Estado acompanhou as reações do mercado a cada medida do governo Dilma na economia e retrata essa relação em livro.

Atualizado em 06/11/2014 às 13:11, por Christh Lopes*.

No discurso de reeleição, a presidente Dilma Rousseff disse que seu primeiro compromisso com a população brasileira no novo mandato teria uma palavra-chave: diálogo. Ao fundo, aparecia estampado na coletiva de imprensa o slogan: “novo governo e novas mudanças”. Tal postura apresenta uma novidade aos agentes econômicos. Afinal, "os ruídos" de comunicação afastaram o mercado do governo.


Crédito:Divulgação Fábio Alves mostra mudanças da economia no governo Dilma Rousseff

A relação de amor de ódio entre os principais integrantes da macroeconomia brasileira são retratadas pelo jornalista Fábio Alves, da Agência Estado. Em “Inflação, Juros e Crescimento no Governo Dilma”, ele reúne textos e colunas que escreveu ao longo do período em que a petista ficou no poder.


A obra conta parte desta história, destacando os atritos e dos conflitos do setor público com o privado, que podem ser vistos como afluente da dita divisão de classes presente no país, mostrando a visão dos investidores, empresários e analistas durante cada medida anunciada pelos órgãos governamentais que regulam a economia. “Eu percebi que tinha uma história, que necessariamente não é uma narrativa linear”, afirma Alves.
A escolha, portanto, foi agrupar os capítulos por cenas e não publicar as colunas e textos de forma cronológica. A ideia é contar os bastidores dos vácuos vistos pelo mercado, por exemplo, entre a considerada falta de coordenação da política fiscal comandada pelo Ministério da Fazenda com a política monetária liderada pelo Banco Central. “Questões como essa são debatidas no mercado desde o final do segundo semestre de 2011”, diz.
Segundo o jornalista, a percepção dos agentes econômicos é a de que o governo da presidente Dilma Rousseff não foi enérgico em controlar as taxas de inflação e as expectativas em torno do número. Se analisado mais profundamente, ela fez uma escolha no primeiro ano de seu mandato. Quis apostar em mais inflação para obter mais crescimento. Só que, para o mercado, o que veio a se confirmar, o país tem uma estrutura que não permite essa troca no rumo da diretriz econômica.
A Selic, que chegou a 7,5% ao ano nos primeiros anos do governo, está no final da primeira gestão da presidente em 11%. Por outro lado, o Ministério da Fazenda defende que a crise internacional contribuiu para a desaceleração do crescimento do Brasil. No entanto, sempre que questionado traz à luz números como a taxa de desemprego, que atinge níveis positivos históricos, e também resultados positivos, como ser um dos destinos preferidos do investimento direto de capital externo.
Por outro lado, apresenta efeitos negativos de suas políticas, como o déficit nas contas públicas, o desequilíbrio na balança comercial, além do curto superávit fiscal. “Há também outras críticas, como a que demonstra que o mercado vê um intervencionismo em vários setores da economia, como no setor elétrico e bancário, e isso reflete muito no preço das ações brasileiras no mercado”. Após a eleição de Dilma, a Bolsa de Valores de São Paulo caiu 2,72%.

A “mão pesada”, conforme conta o jornalista Fábio Alves, afasta, atrapalha, e prejudica o desempenho das empresas estatais e das demais na economia e que, muitas vezes, depende de políticas governamentais. Porém, o gesto da presidente deve corrigir o erro constante durante o seu primeiro governo. Pode-se considerar, ainda, como uma autocrítica de sua gestão.
Falta de diálogo emperra soluções na economia
Com uma nova matriz econômica, na visão do mercado, a presidente Dilma deixou de lado o chamado tripé, composto por uma meta de inflação, de superávit primário – fiscal, e câmbio flutuante. A transição para um novo modelo, adotado para atender a necessidade de se proteger diante da crise econômica mundial foi presenciada pelo jornalista Fábio Alves desde 2011. Nos textos e colunas ao longo desse período, ele descreve em narrativa linear as medidas deste governo.
Uma delas, que pode ter sido o entrave para uma conciliação nas ideias de ambas de partes, avalia que há uma falta de diálogo do Ministério da Fazenda. Algo que também foi abandonado já que durante a gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi a troca de experiências entre os setores. “É uma critica não só do mercado, dos investidores em geral. O ponto de crítica é a qualidade de comunicação do governo, do ministério, com os agentes econômicos”, declara Alves.
Exemplo claro da escassez no debate econômico está presente na medida provisória 579, que renovava as concessões do setor elétrico. Segundo o autor, os agentes econômicos consideraram a política até que bem intencionada e viam seus méritos. Porém, ela foi imposta, na visão dos empresários, analistas e investidores, sem uma negociação prévia com o mercado e, também, sem destinar e proporcionar um tempo suficiente para que ele se ajustasse às novas condições.
Crédito:Divulgação Obra mostra desafios enfrentados pela presidente
“Algumas políticas econômicas do governo são vistas positivamente, mas a forma como foram implementadas não foi a melhor, nem a mais apropriada. Um ponto fraco do governo é a comunicação. A percepção que havia é a de que as medidas eram adotadas de cima para baixo”.
Crise internacional afetou o crescimento do país
O argumento usado durante a campanha presidencial de Dilma Rousseff e pelo atual ministro da Fazenda Guido Mantega se baseia na crise financeira internacional para justificar a paralisia, se assim podemos dizer, da economia brasileira. Após a confirmação da reeleição, Mantega afirmou que os números das urnas confirmam a aprovação do povo da política econômica adotada durante os primeiros anos do governo de Dilma.
O discurso está correto, em partes. Na realidade, há um ambiente econômico internacional desafiador. O jornalista compara o cenário atual com o do primeiro mandato de Lula. “Ela [Dilma] pegou uma economia indo de uma crise profunda, provocada pela crise de 2008 e em uma transição com sinais de recuperação. Então, de fato, a economia foi afetada por um fator externo complicado”.
No entanto, Alves explica que a economia internacional não é a única para o baixo crescimento da economia brasileiro, mas também "as medidas consideradas equivocadas pelo mercado financeiro de políticas econômicas domésticas do Brasil”, acrescenta.Esse conjunto de fatores negativos foram decisivos para a queda da confiança de empresários, empreendedores e consumidores quanto à eficiência do país nas questões econômicas, pondera o autor.

A credibilidade econômica deve ser recuperada
A “construção de pontes” de diálogo, conforme afirma Dilma nas suas primeiras aparições pós eleições, indica que ela faz uma autocrítica do que falhou em seu mandato. Contudo, o grande desafio para os próximos anos será reconquistar a confiança dos agentes econômicos, isto é, empresários, investidores, economistas. “Ela adotou uma visão de estímulo ao consumo, de medidas para tentar manter os gastos públicos e fomentar a atividade econômica e o emprego”, explica Alves.

Para conseguir recuperar a credibilidade, no entanto, o jornalista acredita que a presidente terá de agir e fazer concessões ou ao menos conversar com estes setores famintos por serem ouvidos. “Sem tomar um partido, eu diria que as agências de classificação de risco consideram que o país precisa fazer um ajuste para novamente elevar o crescimento da economia, retomar os gastos públicos, reduzir a trajetória da dívida pública e controlar a inflação”.

De acordo com o colunista, que faz atualizações diárias no serviço de informações em tempo real da Agência Estado, é necessário que o país caminhe para uma política econômica que dê maior visibilidade para o empresariado e consumidores. “Acho que pode tirar da gaveta os investimentos, contratar mais mão de obra e os investidores precisam ser estimulados a comprar bens e serviços. Um ajuste macroeconômico é fundamental para voltar a crescer em 2015”, afirma.
O próximo ano, em sua visão, será decisivo. “Dilma terá que fazer uma escolha importante, que é dobrar a aposta dela, e, se feita, será interessante ver o que irá acontecer. Ou, também pode promover um plano importante na economia. Em qualquer caso, isso vai virar assunto, vai mexer com o mercado financeiro, e aí, de novo, as pessoas não teriam aonde buscar a informação”.

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves