Faculdades na contramão do mercado
Faculdades na contramão do mercado
A cadeira de assessoria de imprensa nas faculdades de jornalismo é fundamental para a conexão do profissional com a realidade de mercado. Mas grande parte das universidades deixa de lado a matéria.
Franklin Valverde Eduardo Pugnali
A partir da abertura econômica do Brasil no início dos anos 90, vieram as multinacionais. Com elas, a gestão empresarial do país passou por grandes mudanças e uma delas foi a contratação de equipes de assessoria de imprensa. Desde então, as assessorias vêm absorvendo grande parte dos jornalistas que entram no mercado.
Na contramão dessa realidade estão muitas faculdades de jornalismo que mantêm grade curricular composta de matérias relacionadas às Ciências Humanas e à prática das redações, com disciplinas como telejornalismo, imprensa escrita e radiojornalismo, ignorando o nicho de assessoria. É o que ocorre na USP (Universidade de São Paulo), na Casper Líbero (SP) e na UnB (Universidade de Brasília). Já a universidade São Marcos, de São Paulo, e as Faculdades Integradas da Grande Fortaleza (CE), vêm se adequando ao mercado. O coordenador do curso de Comunicação Social da São Marcos, Franklin Valverde, explica que a faculdade adotou a cadeira, lá chamada “Comunicação Empresarial”, há cerca de três anos. “É uma das áreas que mais absorve jornalistas e que mais oferece estágios”, diz.
Ao contrário da grande imprensa, que nos últimos anos tem enxugando cada vez mais as redações, a demanda por um assessor cresce junto da necessidade de pessoas públicas e empresas criarem uma identidade. Mesmo as pequenas – livrarias, editoras, lojas ou restaurantes – contam com um assessor. Artistas, políticos e até alguns jornalistas contratam o serviço para divulgação de seus trabalhos e intermediação de entrevistas.
Valverde, que também é membro da Comissão Especial de Qualidade no Ensino do Jornalismo (vinculada ao Sindicato dos Jornalistas de São Paulo), defende que toda faculdade ofereça a matéria. “Hoje, qualquer boteco da moda, qualquer jogador de futebol tem um assessor”, explica.
O jornalista Eduardo Pugnali, sócio-diretor da Holofote Comunicação, critica a parca atenção que as faculdades dão à cadeira de assessoria. “É uma grande distorção das universidades em relação ao mercado”, explica. Pugnali ainda aponta o preconceito de alguns professores que tratam em suas aulas o trabalho do assessor com demérito. “Existem muitos professores que propagam que assessoria de comunicação é o ‘patinho feio’ da área”, afirma. “Mas as assessorias são o grande celeiro de empregos para os recém-formados, que saem da faculdade sem noção nenhuma de como funciona esse ramo.”
Pugnali defende que a cadeira de assessoria de imprensa deveria ser obrigatória nos cursos por pelo menos três semestres. “Há muita coisa que pode ser ensinada em sala de aula como, por exemplo, entender o perfil de cada órgão de imprensa e como isso influencia na sugestão de pauta”, conclui.
O contato com os veículos e os clientes, o intermédio de entrevistas, a preparação de press-kits e o trabalho de follow-up são itens essenciais para o exercício da assessoria. Portanto, futuro jornalista, se sua faculdade deixa a desejar nessa matéria, procure a coordenação de seu curso e mostre a importância do aprendizado em assessoria. Afinal, as faculdades devem andar no sentido do mercado e não na sua contramão.






