Fabiane Leite, direto do inferno: entrevista exclusiva com a repórter brasileira que ajudou a armazenar os corpos do Tsunami

Fabiane Leite, direto do inferno: entrevista exclusiva com a repórter brasileira que ajudou a armazenar os corpos do Tsunami

Atualizado em 12/01/2005 às 17:01, por Pedro Venceslau - pedrovenceslau@portalimprensa.com.br.

A repórter Fabiane Leite, 27, da Folha de S.Paulo, foi a primeira jornalista brasileira a chegar a Tailândia depois da tragédia do dia 26 de dezembro. Na região de Pucket, se inscreveu em uma equipe de voluntários responsável pelo armazenamento e reconhecimento dos corpos na praia de Khao Lak, a região mais atingida pelas ondas na Tailândia. Sua experiência foi publicada na primeira página da Folha de S.Paulo, em um texto emocionante e bem escrito, que traduziu o momento melhor do que qualquer agência internacional poderia fazer.
Em entrevista exclusiva para Portal Imprensa, Fabiane, escolhida por acaso para "missão", conta detalhes do grande furo de sua vida:


Portal IMPRENSA - Como você foi escolhida, na redação da Folha, para ir até a Tailândia fazer a cobertura da tragédia?

Fabiane - No meio da tarde, eu estava na redação, fazendo um perfil do José Serra para o dia da posse, quando o Vinicius Torres Freire (secretário de redação) apareceu perguntando quem poderia embarcar para Bangcoc ás 23:00.
Como não tinha nenhum compromisso inadiável, me candidatei para a viagem. Acabei escolhida porque era uma das únicas que tinham vacina para febre amarela, unica exigência para entrar no país. Tive tempo apenas de passar em casa, arrumar a mala correndo e ir para o aeroporto. Foi minha primeira matéria fora do país

Portal IMPRENSA - Seu relato na Folha, em primeira pessoa, contando sobre o armazenamento dos corpos, foi emocionante. Como você foi parar em uma equipe de voluntários?

Fabiane - Eu estava em Pucket, no litoral, quando fui até o Centro de Atendimento as Vítimas. Lá, fui informada que dali a pouco sairia uma van de voluntários para Khao Lak, a praia mais atingida pelo Tsunami. Esses voluntários teriam que armazenar e ajudar a reconhecer os corpos. Eu me apresentei como jornalista e disse que queria ir. Então um holandês, que coordenava o grupo, me disse: "você vai ocupar um lugar no carro. Portanto, se quiser ir, vai ter que ajudar". Eu topei na hora.

Portal IMPRENSA - Qual era sua função na equipe?

Fabiane - Primeiro eu coloquei um luva e fui ajudar a armazenar os corpos. Eu, assim como todas as pessoas ali, fiz questão de não olhar os corpos. Até então eu só tinha visto um cadáver em uma aula de anatomia, no segundo colegial...Aguentei durante 30 minutos, mas começei a passar mal. O cheiro era terrível, o calor insuportável e eu fiquei com medo de desmaiar ali. Então mudei de função. Fui ajudar a descarregar o gelo seco. Cheguei a me queimar porque não estava com as luvas adequadas. Passei o dia com essa equipe.