Exclusivo: Jornalista norte-americano impedido de entrar na Rússia fala à IMPRENSA
Expulsar cidadãos ocidentais era uma prática quase frequente durante a Guerra Fria (1945-1991). Porém, o último jornalista obrigado a deixara Rússia foi Andrei Nagorski, da revista Newsweek , em 1982.
Atualizado em 16/01/2014 às 12:01, por
Gabriela Ferigato.
Exatos 32 anos depois, a cena se repete. Impedido de entrar no país, o jornalista norte-americano David Satter, crítico de longa data do presidente Vladimir Putin, contou à IMPRENSA, com exclusividade, o ocorrido.
Crédito:Divulgação Satter estava na capital russa desde setembro de 2013 Entenda o caso
Na última terça-feira (14/1), David Satter foi impedido de entrar na Rússia. Ex-correspondente em Moscou do jornal britânico Financial Times , Satter trabalha para a Radio Free Europe/ Radio Liberty desde 2003 e estava na capital russa desde setembro de 2013. Em dezembro, viajou para Kiev, capital da Ucrânia, para uma exibição do seu filme “Age of Delirium” — documentário sobre o declínio da União Soviética—, quando foi abordado por um diplomata da embaixada russa que lhe leu o seguinte comunicado: "Os órgãos competentes decidiram que a sua presença no território da Federação Russa não é desejada. Está proibido de entrar na Rússia”. O governo alegou que a decisão foi baseada no fato do jornalista estar com o visto vencido, mas Satter afirmou que já havia pedido a renovação do documento e que o mesmo tinha sido aprovado. “Eles estão tentando distrair a atenção das pessoas para o real problema, que é a censura da mídia e a intimidação aos jornalistas”, afirmou o jornalista em entrevista à IMPRENSA. Em uma coluna para o The Wall Street Journal , onde também já atuou como correspondente, Satter frisa que a decisão de declará-lo como “ persona non grata ” é uma admissão de que o sistema de Putin não tolera liberdade de expressão. Além disso, a atitude surge na véspera dos Jogos Olímpicos de Sochi e segue os passos por parte do regime de melhorar a sua imagem, o que inclui a libertação de prisioneiros da Yukos Oil Company, os membros da banda de punk rock Pussy Riot e a tripulação do navio do Greenpeace, Arctic Sunrise. “O sistema de Putin repousa inquieto em perguntas não respondidas do passado (..) [a exemplo dos] destinos de seus adversários políticos assassinados, Alexander Litvinenko, Anna Politkovskaya e Natalya Estemirova. Porém o mais importante de tudo é a questão de quem foi o responsável pelos atentados, em 1999, a apartamentos na Rússia que serviram de pretexto para a segunda guerra de Moscou contra a ex-república soviética da Chechênia”, ressaltou na coluna. IMPRENSA: Quais foram as justificativas dadas pela imigração russa para seu impedimento de entrar no País? DAVID SATTER - Cada hora eles dão uma nova justificativa. O mais importante foi o que o diplomata me disse na embaixada russa, na Ucrânia. Ou seja: que os órgãos competentes decidiram que a minha presença no território russo não é desejada. Isso é o tipo de coisa que se faz em casos de espionagem e não com jornalistas. Isso significa que alguém realmente me quer fora de lá, então decidiram tomar esse passo. A partir disso, deram um monte de falsas razões/justificativas burocráticas para essa iniciativa. Eles estão tentando distrair a atenção das pessoas para o real problema, que é a censura da mídia e a intimidação aos jornalistas. Eles estão falando de burocracia sobre o meu visto, em vez de falar do que realmente importa. Você já havia sofrido outro tipo de repressão no país? Ao longo dos anos eu tive alguns problemas, mas não recentemente. Em 1979, quando fui para a Rússia – ainda União Soviética - pela primeira vez como correspondente, houve um esforço para me banir. Mas falhou, porque teve pressão dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha que ameaçaram expulsar os correspondentes russos. Quais foram as acusações/críticas recentes que você fez contra o governo russo? Por que acha que pode ter se tornado uma ameaça para eles? É algo muito difícil para eu dizer. Porque para responder essa pergunta eu teria que pensar como eles. Meu olhar é crítico, assim como o de todos os correspondentes. É difícil não ser crítico diante de todas as coisas que acontecem por lá. Você acredita que essa foi uma ação contra você ou contra a Radio Liberty/ Free Europe? Acho que os dois. E eles não gostam dessa combinação. Como você vê essa ação vindo de um “regime democrático”? O governo russo não é democrático. Um regime democrático não expulsa um correspondente e não faria o que eles acabaram de fazer. É um regime que apenas finge ser, mas até que respeite a essência da democracia - que é regida por lei - não pode ser considerado democrático. Qual sua opinião sobre a imprensa russa? Os veículos são controlados. Muitos deles são do próprio governo, controlados por tal. Primeiramente, se pensarmos na televisão, muitas redes são controladas, além de existir muita censura. Quais serão os próximos passos para reverter essa situação? Eu deixei todas as minhas pesquisas e coisas pessoais lá. Agora estamos esperando que eles permitam que eu retorne.
Crédito:Divulgação Satter estava na capital russa desde setembro de 2013 Entenda o caso
Na última terça-feira (14/1), David Satter foi impedido de entrar na Rússia. Ex-correspondente em Moscou do jornal britânico Financial Times , Satter trabalha para a Radio Free Europe/ Radio Liberty desde 2003 e estava na capital russa desde setembro de 2013. Em dezembro, viajou para Kiev, capital da Ucrânia, para uma exibição do seu filme “Age of Delirium” — documentário sobre o declínio da União Soviética—, quando foi abordado por um diplomata da embaixada russa que lhe leu o seguinte comunicado: "Os órgãos competentes decidiram que a sua presença no território da Federação Russa não é desejada. Está proibido de entrar na Rússia”. O governo alegou que a decisão foi baseada no fato do jornalista estar com o visto vencido, mas Satter afirmou que já havia pedido a renovação do documento e que o mesmo tinha sido aprovado. “Eles estão tentando distrair a atenção das pessoas para o real problema, que é a censura da mídia e a intimidação aos jornalistas”, afirmou o jornalista em entrevista à IMPRENSA. Em uma coluna para o The Wall Street Journal , onde também já atuou como correspondente, Satter frisa que a decisão de declará-lo como “ persona non grata ” é uma admissão de que o sistema de Putin não tolera liberdade de expressão. Além disso, a atitude surge na véspera dos Jogos Olímpicos de Sochi e segue os passos por parte do regime de melhorar a sua imagem, o que inclui a libertação de prisioneiros da Yukos Oil Company, os membros da banda de punk rock Pussy Riot e a tripulação do navio do Greenpeace, Arctic Sunrise. “O sistema de Putin repousa inquieto em perguntas não respondidas do passado (..) [a exemplo dos] destinos de seus adversários políticos assassinados, Alexander Litvinenko, Anna Politkovskaya e Natalya Estemirova. Porém o mais importante de tudo é a questão de quem foi o responsável pelos atentados, em 1999, a apartamentos na Rússia que serviram de pretexto para a segunda guerra de Moscou contra a ex-república soviética da Chechênia”, ressaltou na coluna. IMPRENSA: Quais foram as justificativas dadas pela imigração russa para seu impedimento de entrar no País? DAVID SATTER - Cada hora eles dão uma nova justificativa. O mais importante foi o que o diplomata me disse na embaixada russa, na Ucrânia. Ou seja: que os órgãos competentes decidiram que a minha presença no território russo não é desejada. Isso é o tipo de coisa que se faz em casos de espionagem e não com jornalistas. Isso significa que alguém realmente me quer fora de lá, então decidiram tomar esse passo. A partir disso, deram um monte de falsas razões/justificativas burocráticas para essa iniciativa. Eles estão tentando distrair a atenção das pessoas para o real problema, que é a censura da mídia e a intimidação aos jornalistas. Eles estão falando de burocracia sobre o meu visto, em vez de falar do que realmente importa. Você já havia sofrido outro tipo de repressão no país? Ao longo dos anos eu tive alguns problemas, mas não recentemente. Em 1979, quando fui para a Rússia – ainda União Soviética - pela primeira vez como correspondente, houve um esforço para me banir. Mas falhou, porque teve pressão dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha que ameaçaram expulsar os correspondentes russos. Quais foram as acusações/críticas recentes que você fez contra o governo russo? Por que acha que pode ter se tornado uma ameaça para eles? É algo muito difícil para eu dizer. Porque para responder essa pergunta eu teria que pensar como eles. Meu olhar é crítico, assim como o de todos os correspondentes. É difícil não ser crítico diante de todas as coisas que acontecem por lá. Você acredita que essa foi uma ação contra você ou contra a Radio Liberty/ Free Europe? Acho que os dois. E eles não gostam dessa combinação. Como você vê essa ação vindo de um “regime democrático”? O governo russo não é democrático. Um regime democrático não expulsa um correspondente e não faria o que eles acabaram de fazer. É um regime que apenas finge ser, mas até que respeite a essência da democracia - que é regida por lei - não pode ser considerado democrático. Qual sua opinião sobre a imprensa russa? Os veículos são controlados. Muitos deles são do próprio governo, controlados por tal. Primeiramente, se pensarmos na televisão, muitas redes são controladas, além de existir muita censura. Quais serão os próximos passos para reverter essa situação? Eu deixei todas as minhas pesquisas e coisas pessoais lá. Agora estamos esperando que eles permitam que eu retorne.





