Estamos preparados para uma nova "Escola Base"?
Estamos preparados para uma nova "Escola Base"?
Eis que todos fomos surpreendidos com a notícia de que o padre Júlio Lancelotti teria sido extorquido durante meses, sob a acusação de que ele seria pedófilo. E eis que, não bastasse o absurdo da possibilidade de que um padre que trabalha com menores em situação de risco tenha esse comportamento, o jornalismo, novamente, faz uso de uma denúncia, agora anônima, para divulgar que talvez a notícia inicial não se tratasse apenas de extorsão diante de denúncia falsa, mas que ele de fato poderia ser culpado.
Ninguém sabe o que esconde nessa história. Ao menos nas redações, ninguém aparentemente sabe. Sempre festejado e presente no noticiário como um porta-voz dos que não a tem, representante dos menos favorecidos e guardião dos direitos humanos, agora o religioso se vê no mesmo território dos algozes contra os quais lutou. Lamentavelmente. Essa história é triste porque nenhuma das duas possibilidades pode acalentar o sofrimento: se, de fato, ele é culpado, perdemos uma espécie de herói, de modelo, de santo; se ele, por outro lado, é inocente, também o perderemos, já que sua reputação dificilmente será reconstruída e seu trabalho nunca mais poderá ser retomado com a mesma ênfase e vigor com que foi feito até esse momento.
O brilhante ensaísta Edgard Morin, célebre por ter aberto a porta da Academia para temas triviais, como o cinema, a imprensa, a comunicação de massas e a televisão, certa vez escreveu que, no jogo de transições entre o real e o imaginário, o jornalismo sente-se estimulado a fazer uso dos recursos de ficção e a ficção, da credibilidade do jornalismo. Passados mais de 40 anos, nunca o jornalismo precisou tanto de ingredientes que o façam parecer mais um folhetim que um relato da realidade. O dia-a-dia, o trivial, com suas banalidades, não interessam ao jornalismo. Interessam, como diria a lei do cachorro e do homem que se mordem, o excêntrico, o absurdo, o improvável.
Quanto mais se alimenta do imprevisto, mais o noticiário dele depende. Seria bom se o caso do padre Júlio Lancelotti ocupasse, no lugar do noticiário, destaque em alguma novela. Mas de tão surreal, a história de que um padre que cuida de crianças delas abuse é comida para jornalistas e leitores famintos do impossível, assim como fomos todos no caso Escola Base, do qual talvez tenhamos nos esquecido. Será que a lição precisa ser revista?






