"Espero chegar bem à África do Sul, pois ainda tenho uns países complicados pela frente", diz Rodrigo Cavalheiro

"Espero chegar bem à África do Sul, pois ainda tenho uns países complicados pela frente", diz Rodrigo Cavalheiro

Atualizado em 06/07/2009 às 13:07, por Luiz Gustavo Pacete/Redação Revista IMPRENSA.

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O mercado está repleto de profissionais que buscam estabilidade. As propostas de um bom emprego em uma boa redação sempre soam como irrecusáveis aos olhos de qualquer jornalista em início de carreira. O repórter Rodrigo Cavalheiro desfrutava desta "realização", mas surpreendeu muitas pessoas ao deixar a vida estável de lado e buscar novos desafios profissionais.

Após ter atuado na seção online de um dos maiores periódicos do mundo, o espanhol El Pais , e ter faturado o prêmio Rey de España 2008 - premiado com cerca de nove mil reais - ele largou o emprego no sábado, deixou a namorada na segunda, comprou botas no domingo, um laptop e uma mochila na terça, e na quarta embarcou em direção à África.

Enfrentando dificuldades como uma malária contraída no caminho, e tendo de administrar com o maior rigor possível os recursos financeiros, Cavalheiro não se intimidou e continua sua aventura pelo continente africano. O objetivo de Rodrigo é percorrer as cidades da África registrando suas impressões e contando seus relatos, tendo como destino final a África do Sul. Ele já passou pelo Marrocos, Mauritânia, Senegal, Mali, Burkina, Camarões e Nigéria.

O resultado final de toda essa aventura será uma grande reportagem. No dia-a-dia muitas vezes precário Rodrigo já registra no criado pelo Zero Hora suas andanças e conta a história de muitos personagens. Acompanhe abaixo a entrevista que o jornalista - que colaborou com uma crônica inédita para a edição 247 da Revista IMPRENSA - concedeu por e-mail ao Portal IMPRENSA desde a cidade de Doualá, no Camarões.

IMPRENSA - O que faz um jornalista ter uma atitude contrária ao que todos imaginavam? Idealismo? Oportunidade?
Cavalheiro-
Eu estava trabalhando no El País , mas estava de saco cheio de não sair da redação. Tinha ganhado este prêmio no ano anterior e ainda que conseguisse fazer algumas matérias por telefone estava me sentindo mal aproveitado. Nem acho que seja idealismo, a verdade é que não estava feliz. Pensei em voltar ao Brasil, mas o mercado encolheu e as sondagens que eu tinha não fecharam. Estava angustiado com a situação, pensando em milhões de alternativas malucas. Acordei uma madrugada com a ideia de atravessar a África, anotei no celular e voltei a dormir. Nos dias seguintes fiquei martelando, mandei alguns e-mails pedindo patrocínio a empresas de telefonia, mas nada. Uma amiga que conhecia um argentino que ia até Gana na semana seguinte e poderia me dar uma carona. Pedi demissão, comprei umas botas, me despedi da namorada, comprei um laptop e uma mochila e na quarta botei o pé na estrada.

IMPRENSA - O que você tinha em mãos? Porque não investir esse dinheiro em outra coisa, um curso talvez?
Cavalheiro -
Peguei os 4,5 mil euros do premio Rey de Espanha, dois mil que eu tinha economizado, fiz umas contas e resolvi apostar. Achei que seria mais fácil conseguir patrocínio já com o projeto em andamento, com algum trabalho para mostrar. Falei então com o Zero Hora , onde tinha trabalhado, e eles toparam publicar o material na web.

IMPRENSA - Quais as dificuldades que você tem encontrado até agora?
Cavalheiro -
Primeiro, o transporte. Viajo com uma mochila, um computador e uma câmara em transporte público. E o transporte público aqui em geral não funciona. A possibilidade de alguém roubar a mochila é o que menos me preocupa. O complicado é se algum guarda quiser ficar com o equipamento na fronteira. Segundo, o orçamento. Os vistos são muito mais caros do que imaginava. O de Camarões custou R$ 200. E aqui não tem muita opção para o turista pé-rapado. Eles pensam que se o cara está viajando é porque tem dinheiro. Para ter uma ideia, viajando dois meses de trem na Europa consegui gastar R$ 45 por dia, pois dormia e comia em qualquer lugar. Aqui qualquer hotelzinho cobra o mesmo que um albergue na Europa, uns R$ 50.

IMPRENSA - Como tem sido cruzar as fronteiras? Muitos impedimentos?
Cavalheiro -
É a parte mais tensa. Tem guardas para todos os gostos. Tem o que mente que nesta fronteira não se concede o visto e te manda voltar 300 quilômetros (Benin). Tem o que pede propina porque você não fez o visto no teu país natal (Nigéria). Tem o que te deixa passar e combina com o do outro país para que este te barre. E você fica ali, em lugar nenhum, sem poder ir nem voltar. E tem o que informa outras pessoas da presença de estrangeiros na área. O negócio é chegar sorridente, dizer que é do Brasil, que é pobre, colocar o equipamento no meio das roupas e torcer para que não abram.

IMPRENSA - No que seu faro jornalístico tem te ajudado até este momento?
Cavalheiro -
A saber em quem confiar. Conheci várias pessoas que me ajudaram sem segundos interesses. A uma delas entreguei meu computador e minha câmera para que ela os transportasse de Cotonou a Lagos (Nigéria), o trecho mais perigoso, mais vulnerável a ataques. Conheci outras que me deram uma mão com segundas intenções. São as que te ajudam para ganhar a confiança, oferecem proteção e tal. E nisso o jornalismo, o fato de já ter falado com muita gente de todo o tipo, te ajuda a cair fora sem se despedir na hora certa. E não conheci ainda nenhuma que tenha me enganado. Algumas tentaram, mas aqui os picaretas são péssimos atores. Olham para a tua roupa enquanto falam contigo, está na cara que estão te estudando. Então tem sido fácil identificar. Outra coisa em que o jornalismo me ajuda é perguntar sobre algo a para várias pessoas, pois cada uma te dá um detalhe novo. Até entrar na Nigéria peguei dicas com mais de 20 pessoas. Uma te diz que existe um ônibus, outra te diz que não pegue táxi de noite, outra te diz que dá para dormir em uma sala na rodoviária de Lagos, outra te ajuda a escolher o taxi no dia seguinte e por aí vai.

IMPRENSA - O fato de ser brasileiro muda sua experiência?
Cavalheiro -
Ser brasileiro ajuda a entrar nos grupos e nas casas, falando de futebol ou da relação com a África. A maioria não sabe onde fica o Brasil (a imigração em Benin quase perde meu passaporte ao colocá-lo entre os europeus), mas tem uma imagem favorável do país. Uma coisa que me atrapalha é que, ainda que seja moreno, chamo muita atenção por não ser negro. Em países com poucos turistas, como a Nigéria, chega a ser cômico. Alguns gritam "homem branco", as crianças repetem, toda a rua repete. O negócio é dar risada, mas para quem gosta de ficar quietinho observando é frustrante mudar o ambiente. É também difícil porque sempre querem cobrar mais do estrangeiro, e está na cara que sou estrangeiro, andando de bermuda e havaianas. Então sempre pergunto o preço de tudo a um morador do lugar. Táxi, roupa, comida etc. Para a segurança, o know-how do brasileiro ajuda muito. Muitos europeus têm que aprender e se programar para coisas que fazemos instintivamente, como andar rápido, longe das paredes, com pouco dinheiro no bolso e repartido em vários locais. E também ajuda um pouco de criatividade. O celular com que faço os vídeos está dentro de um pote adaptado de xampu e os meus euros dentro de um potinho de repelente, também adaptado (espero que ninguém aqui leia isso). Tudo inspirado no que fazem os presidiários no Brasil. Aqui eles desprezam quem usa repelente. Então sempre dá para pedir me deixa pelo menos o repelente e o xampu.

IMPRENSA - Em relação ao idioma?
Cavalheiro -
Falo inglês, espanhol e entendo meia dúzia de palavras em francês. Mas mesmo nos países francófonos consegui me virar, com a ajuda de algum intérprete de rua, de mímica ou de desenhos no chão. Tenho um post em que um marroquino conta com um desenho como foi abandonado pela namorada usando três bonequinhos e uma data, o dia 1º de março. É um drama, pois o cara trabalha 16 horas por dia e não tem como arranjar outra. Tá la no blog.

IMPRENSA - Qual o tempo estimado para sua grande reportagem?
Cavalheiro -
Pensei em dois meses, mas já dou como certo que serão três pelo menos. A espera pelo visto de um país para outro leva às vezes dois ou três dias. Além disso, nem sempre há ônibus e leio um tempo pesquisando a melhor forma de entrar num país. Estou em Camarões e faltam os dois Congos, Angola, Namíbia e África do Sul, segundo o plano original. Agora, por exemplo, estou tentando descobrir se é possível cortar o Congo até Brazzaville pela selva, ou o melhor é chegar lá pelo Gabão (outro visto!). Minha única regra é não voar.

IMPRENSA - Tem conseguido patrocínio?
Cavalheiro -
Não. E isso que tenho até leitores que gostam das matérias procurando. Faço regularmente matérias dominicais para a Zero Hora e o pessoal do Estadão eventualmente me dá uma força, mas espero que alguém se anime a colocar um anúncio bem grande lá no blog. O material vai ficar um ano no ar, não perde a atualidade, tem leitores em todo o país. É um excelente negócio.

IMPRENSA - O que você espera como resultado final?
Cavalheiro -
Espero chegar bem à África do Sul, pois ainda tenho uns países complicados, depois de ter passado bem pela Nigéria. Já estou contente com o retorno pessoal e o reconhecimento de pessoas que nem conhecia algo surpreendente mesmo. Estou feliz e isso me faz escrever melhor, ter melhores ideias, e ficar mais feliz. Isso ninguém me tira e, se voltar zerado e inteiro ao Brasil. Financeiramente, se conseguir recuperar o que investi estarei satisfeito. Se eu ainda conseguir juntar algo, uma hipótese até agora bem absurda, pretendo investir em outro projeto assim. Voltando a tua pergunta primeira pergunta, não quero por agora investir em uma casa e um carro. Quem compra uma casa e um carro tende a ficar onde eles estão.