Especial: Lulinha Guerra e Silêncio
Especial: Lulinha Guerra e Silêncio
Lula foi eleito, sem dúvidas, sob o signo de um personagem construído na campanha eleitoral e absorvido pela mídia, o "Lulinha Paz e Amor". O que se viu na seqüência foi uma interminável sucessão de queixas de dois lados: o governo reclamava da imprensa e os jornalistas, da política de comunicação do Palácio do Planalto. A antiga imagem que o ajudou a eleger foi substituída por outra, menos amistosa. E, para manter os índices de popularidade e intenção de voto, Lula muda o tratamento com a imprensa e adianta o clima de campanha. Dias de trégua estão por vir.
No da 1 º de janeiro de 2003, quando Luiz Inácio Lula da Silva tomava posse como presidente da República, as redações brasileiras acreditavam que teriam com o recém-empossado uma relação tão ou mais aberta com a que manteviveram com seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Esse otimismo tinha explicações óbvias: Lula havia nomeado como secretário de imprensa um jornalista veterano nas redações, que conhecia pelo nome editores e repórteres que cobriam o dia-a-dia do Planalto. Além disso, quando estava na condição de oposição, o PT era uma das principais fontes dos jornalistas quando o assunto era governo. E como se não bastasse, pela primeira vez, o presidente do Brasil era um homem proveniente de movimentos sociais, portanto, ele saberia se comunicar com a imprensa.
No entanto, passada a posse, o governo do presidente Lula passou a manter uma difícil relação com jornalistas, marcada por polêmicas, tentativas de censura, confusões e isolamento e até truculência, mostrando que a política de comunicação do Planalto estava longe de ser considerada um sucesso. Prova disso é que a primeira (e única) entrevista coletiva formal do presidente Lula com os jornalistas aconteceu após 850 dias da posse, em 29 de abril de 2005, na qual 14 jornalistas foram sorteados para fazer perguntas, sem direito à réplica e os veículos de Internet, proibidos de participar no sorteio.
Já nos primeiros meses de governo, mais precisamente em março de 2003, o Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal publicou o "Manifesto pela Liberdade de Informar", assinado por 71 jornalistas, que pedia melhores condições de trabalho aos profissionais que cobriam o Planalto. "O início do governo já foi lamentável. Criamos um grupo, junto com o Sindicato dos Jornalistas, para que conseguíssemos boas condições de trabalho. Na ocasião, eu representei as rádios", conta Fábio Marçal, repórter da Rádio Guaíba.
O próprio Ricardo Kotscho, que se manteve na secretaria de imprensa até novembro de 2004, mostrava não se sentir à vontade no cargo. Todos os dias enfrentava o mau humor do presidente ao ler as "cartas críticas" de Bernardo Kucinski - uma espécie de resenha sobre o que saiu nos jornais diários a respeito do governo. Kotscho também foi acusado de truculência. No Oriente Médio, chamou uma jornalista de "cafajeste". "Tive uma discussão com uma repórter do Estadão , porque ela foi inconveniente, mas não lembro o que ela me disse, nem o que eu disse a ela. Foi muito desagradável", conta
A falta de traquejo do governo Lula com os jornalistas não pode ser chamada de novidade para a mídia. No entanto, há um mês do início da corrida eleitoral, IMPRENSA mergulhou nestes três anos e meio de rusgas e mostra que mesmo os profissionais de imprensa mais próximos à esquerda condenam a política de comunicação do atual governo.
Jornalistofobia
"Lula é fóbico com relação à imprensa. Isso lhe faz mal". As palavras da jornalista Tereza Cruvinel, da sucursal o jornal O Globo , em Brasília - jornalista conhecida por sua tendência esquerdista - ilustram, de certa forma, a aversão do presidente Lula à mídia. Para ela, o que causa tamanha discordância no relacionamento entre o presidente Lula e os veículos de comunicação é uma política de imprensa equivocada. "O PT tem muitos problemas com a imprensa. Não compreende seu papel na democracia. Desde o começo do governo manteve uma política de comunicação com os jornalistas totalmente equivocada", disse.
A fobia a que se refere Tereza aparece no discurso de todos os escalões do Governo federal, que sempre acusam a imprensa de perseguição e direitismo. É o caso do ex-deputado federal e ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu. "Um dos grandes erros que nós cometemos foi subestimar o papel da mídia conservadora no governo Lula e no processo político brasileiro. A mídia sempre tomou partido", disse em entrevista à IMPRENSA.
O próprio presidente Lula não poupou a mídia brasileira. Além de ter tentado a expulsão do correspondente do The New York Times do Brasil (vide linha do tempo ), por vezes, em seus discursos, a imprensa foi duramente
criticada. "Jornalistas fomentam a discórdia", disse certa vez. E na época da tentativa de implantação do Conselho Federal de Jornalismo, o presidente criticou os jornalistas que eram contra o projeto. "Vocês são um bando de covardes", disse.
O atual secretário de Imprensa do governo Lula, André Singer, também alfineta a imprensa. Para ele, a mídia exagerou durante a cobertura da crise no ano passado. "A imprensa tem a missão de ser crítica e, em regimes democráticos, em que a imprensa é livre, não há como fugir desta equação. Mas eu diria que, no ano passado, durante a crise, houve momentos em que faltou equilíbrio a certos setores da imprensa na cobertura", afirmou.
Roberto Romano, doutor em Ética e Filosofia pela Unicamp acredita que este "ódio à imprensa" vindo do governo Lula é simplesmente uma tentativa de intimidação. "Os petistas cortejaram a imprensa durante 20 anos. A partir do momento em que assumiram o poder, mostraram o desejo de intimidá-la. Isso que eu chamo de ódio à imprensa é, na verdade, um desejo de redução do papel do jornalismo ao de propaganda", afirma.
Antes e depois
É impossível não comparar a política de comunicação do presidente Lula, com a do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Lula, em três anos e meio de mandato, concedeu apenas uma entrevista coletiva formal - considerada insatisfatória pela maior parte dos jornalistas - de forma conjunta a todas as mídias. Em seu primeiro mandato, FHC concedeu cinco entrevistas formais.
A atual secretaria de imprensa, no entanto, contabiliza todos os encontros (formais e informais) com jornalistas como cafés da manhã e visitas ao Comitê de Imprensa como entrevistas. Neste caso, o total de entrevistas concedidas pelo presidente Lula desde o início de seu mandato chega a 81. Fernando Henrique Cardoso, durante seu primeiro mandato, concedeu cerca de 200 entrevistas e mantinha o hábito de permitir conversas informais e falar em todas as suas viagens ao exterior. Lula passou a fazer isso apenas após a assinatura do Tratado de Chapultepec. "A gestão de FHC foi um case de comunicação. Ele convenceu toda a população do Real sozinho, falando. E tinha uma extraordinária assessora de imprensa que era a Ana Tavares, incapaz de deixar um jornalista sem retorno. Ela tinha noção exata dos prazos de cada um", diz Mônica Waldvogel, apresentadora do "Jornal das Dez", da GloboNews.
A ex-secretária de imprensa de Fernando Henrique também é lembrada pelo repórter da Rádio Guaíba. "Ana Tavares dava amplo acesso ao presidente FHC, inclusive para pequenos e médios veículos. Hoje, o Palácio é um mistério, as fontes dos grandes veículos ficam escondidas e as aspas são contestadas no dia seguinte", completa.
Pedro Bial, apresentador do "Fantástico", da TV Globo, engrossa esse coro. "O governo do PT tem mais desconfiança da imprensa do que o do PSDB. Eles ( PT ) têm medo de jornalista. FHC tinha mais jogo de cintura, era mais democrático", salienta.
A assessoria do governo Lula não conta, definitivamente, com a simpatia dos coleguinhas. "A assessoria de imprensa do governo Lula informa pouco, gera pouca notícia. Os olhos mortiços de André Singer são uma imagem que me poupam de escrever mil palavras para demonstrar isso", alfineta o repórter Gustavo Alves, do jornal O Globo .
Em tempo: no governo Lula, passaram pela secretaria de imprensa o jornalista Ricardo Kotscho - que deixou a função em novembro de 2004 - e André Singer, que assumiu a função em março de 2005, com a unificação das secretarias de Imprensa e Porta-voz. Nesta transição, o cargo ficou com o cientista político Fábio Kerche, adjunto de Kotscho.
Durante os dois mandatos do governo Fernando Henrique, a secretaria de imprensa ficou a cargo de Ana Tavares.
A Estrela e o Tucano
Leia matéria completa na edição 214 de IMPRENSA






