Especial Cine Rex: O Ocaso de Uma Estrela, por Luciano Maia e Marta Saraiva / UESPI

Especial Cine Rex: O Ocaso de Uma Estrela, por Luciano Maia e Marta Saraiva / UESPI

Atualizado em 22/03/2005 às 12:03, por Luciano Maia e Marta Saraiva e  estudantes de jornalismo da Universidade Estadual do Piauí.

Por Apenas seis anos após os irmãos Lumiere terem apresentado o cinema ao mundo, Teresina, em 1901, já era contemplada com a primeira exibição de um cinematógrafo, trazido por um senhor chamado Frederico Nauman. Sabe-se dessa primeira sessão: que foi realizada em 29 de maio daquele ano, no Theatro 4 de Setembro, que o filme era mudo e que o aparelho causara tanta impressão que sua mecânica e iluminação relegaram o conteúdo da fita a segundo plano. Depois disso, e durante as primeiras décadas do século XX, a arte, sétima na contagem dos intelectuais, passou a ser uma das duas principais formas de divertimento da capital piauiense, concorrendo somente com as tertúlias do Clube dos Diários.

Logo na década de 20 a cidade já tinha três cinemas em funcionamento e nos anos seguintes outros foram surgindo. Nessa época o Cine Olímpia e o 4 de Setembro, então chamado de cine-teatro, eram os mais badalados, mas com platéias bem distintas; o primeiro freqüentado por um público mais jovem e o outro pela elite local. Mesmo assim, apesar de ter-se tornado tão popular, os empresários de então ainda não tinham atinado para a necessidade de um edifício construído especificamente para ocupar um cinema e as exibições eram realizadas em locais adaptados.

Somente em 26 de novembro de 1939, quase quarenta anos depois do debute cinematográfico da cidade, por iniciativa dos empresários Bartolomeu Vasconcelos e Deoclécio Brito, é que se realizava em Teresina a primeira exibição de cinema em prédio construído com essa finalidade. A fita chamava-se A Grande Valsa "de valor excelsa e iluminada pela beleza envolvente e a voz divina de Miliza Korjus (Carla Donner) e a concepção artística de Fernand Gravet (Johann Strauss), arrebatou a platéia...", como mereceu destaque no Diário Oficial - e o cinema era o nosso bom e velho Cine Rex.

A inauguração teve como convidados especiais o interventor e sua equipe de governo e representantes da Igreja Católica - como não podia deixar de ser - e os empresários foram muito elogiados pelos articulistas do Diário Oficial por terem trazido mais esse grande melhoramento à cidade, com ressalvas somente relacionadas ao calor que fazia na ocasião, pois ocorrera sem que os aparelhos de renovação de ar tivessem chegado a tempo.

Estrategicamente localizada na praça Pedro II, um dos principais pontos de encontro e palco de grande manifestação cultural da época, a casa surgiu com 819,84 m² de área construída e espaço para 500 pessoas, além de trazer a única cabine com duas máquinas de projeção, fato que se manteve como seu grande diferencial durante décadas. Os filmes estreavam aos domingos e as três sessões aconteciam às 3h30, 6h30 e 8h30 todos os dias, e cada uma delas era freqüentada por uma classe diferente de expectadores - estudantes e desocupados à tarde, enquanto a última projeção era prestigiada pelo requinte da alta sociedade teresinense. Era o que se tinha de mais bonito e moderno, o melhor cinema da cidade.

"Na época - relembra Edison Gayoso, pesquisador e ex-diretor de patrimônio do Estado - o principal divertimento dos jovens era ir ao cinema e se reunir na praça [Pedro II], nós ficávamos dando voltas na praça, os rapazes em uma direção e as garotas na outra, era assim a paquera. Muitas moças tiveram o seu primeiro beijo na penumbra do Cine Rex."
Mais cinemas apareceram, como é o caso do Cine São Luís em 1941 e o Cine Royal em 1966, que com suas modernas instalações e espaço para 850 espectadores chegou a tomar do Rex o título de mais luxuoso cinema de Teresina, mas apesar disso tiveram vidas curtas vindo a fechar suas portas nas décadas de 70 e 80, respectivamente.
Nenhum outro cinema do Brasil, aliás, conseguiu se manter tanto tempo em funcionamento contínuo quanto o Cine Rex, que em quase 65 anos de atividade passou por uma única reforma, em 1973. Com projeto de responsabilidade do arquiteto Antônio Luiz Dutra, a reforma ocasionou mudanças na platéia, hall de entrada e fachada, acréscimo no fundo do prédio para instalação de novos sanitários e ganhou o novo teto de gesso com sancas e jogo de luzes coloridas, além da substituição do sistema de renovação de ar.

Durante sua trajetória no tempo, o cinema mudou algumas vezes de dono. Em 1968 foi vendido ao sr. Otacílio Soares, que o tinha arrendado desde 1953. Ainda em 1968 torna-se Cine Rex Ltda., ao ser adquirido pela empresa JODISA - José Omatti Diversões S/A, cujos sócios eram David Cortellazzi, Jorge Chaib, Elicio Terto, Gervásio Costa, Maria Luísa Tajra Melo e José Omatti. Com a divisão dos bens, quando da dissolução da sociedade, a propriedade do Rex coube ficar com Elicio Terto e o médico David Cortellazzi, o qual, juntamente com sua esposa Theresa Tajra Cortellazzi, são desde 1984, seus únicos proprietários.

Enquanto ia mudando de mãos, ia também experimentando períodos de ascensão e queda. A concorrência com o Royal, também da empresa JODISA, e a crise financeira do Plano Cruzeiro, na década de 80, são os principais exemplos de fases de declínio. Nos tempos áureos, quando multidões esperavam na praça Pedro II para assistir aos bons filmes exibidos na casa, estar ali era sinônimo de status social. Hoje, entretanto, chega a ser um tanto vexaminoso ser visto diante de sua bilheteria, que há tempos não acumula numero expressivo de pessoas, sequer que sejam suficientes para fazerem fila.
Apesar de uma história tão rica e interessante, o cinema atravessa a sua pior crise, pois já não atende às exigências do público da "geração shopping center". Parado no tempo desde 1973, a platéia é desconfortável com poltronas de madeira sem acolchoamento, não existe refrigeração de ar mas somente o velho sistema de renovação, além dos sinais óbvios de desgaste e defasagem, tanto do prédio quanto do equipamento, cuja fidelidade já não mais permitiria a exibição de outro musical como aquele do dia de sua inauguração.

O "seu" Aquino, gerente do cinema há cerca de 20 anos, admite os problemas de estrutura do prédio e equipamento, mas nega que esse seja o principal problema. "A política atual de cinema é que é o problema, não a estrutura. Nenhuma distribuidora vai deixar de estrear seus filmes em um cinema que tem a evidência e o apelo de um shopping, para passá-los em um cinema no Centro. Depois que um filme passa oito semanas no shopping é que vem pra cá, e aí ninguém mais tem interesse." E completa dizendo que o Rex se destina à classe menos favorecida e uma reforma, com implantação de sistema de refrigeração, geraria custos que teriam de ser revertidos nos preços dos ingressos, o que desfavoreceria o público alvo do cinema.

Mesmo se desconsiderarmos o fator segurança, a estrutura defasada, o atraso com relação ao circuito comercial de cinema e o fato de geralmente exibir fitas pornográficas, deixa-o sem qualquer chance de concorrer com o luxo e tecnologia das pequenas salas dos shoppings, com isso, tem uma arrecadação mensal inferior aos gastos com energia elétrica, impostos e salários dos setes funcionários, o que vem garantido o acúmulo de prejuízos mensais que culminou nas atuais negociações de compra e venda entre o sr. Cortellazzi e a Fundac - Fundação Cultural do Piauí.

A Fundação está tentando conseguir o valor de 1,3 milhão de reais junto ao Banco do Nordeste, Fundação Banco do Brasil e Ministério da Cultura, entre outras empresas públicas e privadas, mas não está sendo fácil, e o principal obstáculo enfrentado pela Fundac é o preço cobrado por Cortellazzi, muito acima da avaliação feita pelas instituições financeiras por ela procuradas. Caso não cheguem a um consenso que viabilize a aquisição do Rex pelo Governo do Estado, Teresina pode assistir ao fechamento definitivo de suas portas ou ver o prédio ser ocupado por alguma empresa de ramo incerto e possivelmente diverso da área de entretenimento.

O próprio Rex defende a si mesmo em prol de sua manutenção. Não bastasse ser o mais antigo cinema do País em atividade ininterrupta, depõem em seu favor, como bem menciona o capítulo de exposições de motivos para compra do parecer técnico elaborado pela Fundac: a sua presença marcante na paisagem de Teresina, seu significado na memória e na vida dos piauienses, sua localização privilegiada, além de seu valor histórico-arquitetônico. Este último reafirmado pelo IPHAN - Instituto de Patrimônio Histórico e Arquitetônico Nacional, que em 1992 tombou a sua parte externa, cuja fachada é construída em art déco - movimento também conhecido como "futurista", muito popular na década de 30 e caracterizado por linhas simples e sóbrias, proporções pesadas e fachadas pouco decoradas.

Segundo Jairo Araújo, da Fundac, o propósito de anexá-lo definitivamente ao complexo cultural em que está inserido apenas por proximidade já é antigo e visa expandir as possibilidades artísticas do local, contemplando e disponibilizando à população, além do teatro, artesanato, música e artes plásticas, também o cinema de arte e, a exemplo das outras áreas, promover oficinas de audiovisual, como também, instalar ali o Museu da Imagem e do Som do Piauí.

Foi buscando chamar a atenção das autoridades e do público para todas essas possibilidades, que em dezembro de 2003, paralelas ao XI Festival de Vídeo de Teresina, foram realizadas no Cine Rex a I Mostra Nordestina de Curtas Metragens e I Mostra de Cinema em Super 8 do Piauí. No encerramento das mostras a atriz Marcélia Cartaxo, leu em público e assinou um documento, encaminhado ao presidente Lula, governador Wellington Dias, ministro da cultura Gilberto Gil e outras autoridades, o qual, entre outras reivindicações para desenvolvimento da arte audiovisual, pedia a imediata desapropriação, aquisição e revitalização do cinema.

Desprovida de litoral e restrita quanto às opções de divertimento, aquele sítio cultural formado pela Central de Artesanato Mestre Dezinho, Complexo Cultural Clube dos Diários/Theatro 4 de Setembro e pela própria praça Pedro II torna-se de crucial importância para uma capital como Teresina, e o Rex acaba fazendo parte deste sítio, se não de direito, ao menos de fato, uma vez que na memória e no inconsciente coletivo dos teresinenses existe uma ligação emocional entre ele e as casas de cultura a sua volta.