Esmir Filho esteia seu primeiro longa-metragem, por Rui Martins*
Esmir Filho esteia seu primeiro longa-metragem, por Rui Martins*
Numa estréia mundial, foi exibido no Festival Internacional de Locarno, o primeiro longa-metragem de Esmir Filho, "Os Famosos e os Duendes da Mort"e, baseado no livro de Ismael Canepelli, e centrado sobre o mundo da adolescência, como seus curtas Alguma Coisa Assim e Saliva.
Difícil dizer qual a recepão em Locarno, já que a crítica está divida entre os que gostaram e os que detestaram. Ao fim da exibição, no Pavilhão Fevi cheio, com cerca de três mil pessoas, o filme foi aplaudido e pouca gente saiu durante sua exibição. Portanto, seria temerária qualquer previsão quanto a um filme.
Esse é o terceiro filme da produtora brasileira Sara Silveira que chega à competição em Locarno, os outros foram Dois Corregos e O Bicho de Sete Cabeças.
Entrevistado em Locarno, Esmir Filho, fez um síntese do que considera mais um movimento que um filme.
"É mais que um filme, um movimento. Quando tive contato com o livro de Ismael Canepelli, a história me interessou muito, me mostrou um universo, um universo dos alemães que ainda moram lá e , ao mesmo tempo, o universo adolescente, a impressão de que o adolescente está num mundo ao qual ele não pertence. E hoje existe esse mundo online que abre as janelas para o mundo, tudo se pode acessar pela Internet, o que pode até ser perigoso, por mistificação num momento em que os jovens estão num momento de autoconhecimento.
O jovem acaba seno a projeção dele mesmo na Internet e nisso o mundo pouco mudou porque acabamos sendo sempre a projeção de nós mesmos. Hoje em dia os jovens podem escrever numa página da Internet todos seus sentimentos, mas sem dar seu nome, apenas um nickname, como o caso da menino do filme. Assim ela vira uma tela de projeção de si mesmo e de certa forma, como tudo ocorre num momento de busca de identidade, pode se tornar mesmo um tanto confuso, foi isso que eu quiz colocar no meu filme.
Depois de ter lido o livro de Canepelli fui até o lugar do Rio Grande do Sul, onde ele se passa, na região do Taquari, conheci as cidades, seus adolescentes, a ponte, que tem uma história misteriosa e achei todos meus atores adolescentes, que nunca tinham feito qualquer coisa para o cinema. A menina, por exemplo, eu achei pela Internet pelas fotos e vídeos que postava e fazia. Todas as fotos do filme eram dela.
Eu queria mostrar esse universo novo, desses jovens que habitam a Internet. Muita gente visita a Internet, mas para eles é onde vivem e o real e o cotidiano se transformou para eles em algo vazio. Por isso que chamo de movimento, porque é um dialago com o livro, com o filme e com o que está sendo postado na Internet e o youtube já tem muita coisa. Em se esquecer a música que é de jovem compositor de 24 anos, também dessa mesma região, e que compõe para o computador.
É todo um movimento que começou nessa região mas que também existe em todo o mundo, porque a Internet quebra as barreiras e fronteiras e o mundo de hoje é dos jovens, que a ele se entrega.
Algo revelador no filme de Esmir é descobrir que as festas juninas, geralmente consideradas como folclore típico brasileiro, podem ter vindo da Alemanha, pois a quadrinha dançada e mostrada no filme é cantada em alemão. Outra revelação, e essa feita por Esmir no encontro com a imprensa internacional, é a de que existem filhos de brasileiros, hoje idosos, nascidos na região, que não falam português mas um alemão caipira, uma alemão misturado com palavras brasileiras. E isso nos leva de volta à época da Segunda Guerra, quando um decreto proibiu que se falasse alemão inclusive nas escolas, para se impedir que se criasse na região um território de língua diferente, impedindo uma fragmentção futura.
Mas a novas geração sulina, segundo Esmir, não tem mais essa relação tradicional com o passado e nem com a terra, como mostra um cena com a menina que diz, "esta não é mainha terra, a minha terra são os pixels".
Sobre a cena homossexual no fim do filme, Esmir não a qualifica assim - "não vejo como homossexualismo mas como uma dúvida uma experimentação, como a curiosidade do menino em tocar outro homem e o que seria ser tocado por outro homem, coisa bastante reprimida na região que inclusive nega o suicídio da menina. Há uma identificação grande com a menina, com seu Bob Dylan e daí a necessidade de materiazilá-la n a sua frente poder tocar aquela que simbilizava seu Bob Dylan. Talvez eu deva tocá-lo, para poder sentí-la, mas é uma situação bastante dúbia, mesmo porque gosto de um mundo com muito mais possibilidade e que o público saia com perguntas e não com respostas, maneira de se aprender mais coisas sobre si mesmo".
Esmir tem outro projeto de filme em gestação com Canepelli, mas por enquanto prefere não contar do que se trata.
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