Ereção X Anúncio: o dilema das revistas gays
Ereção X Anúncio: o dilema das revistas gays
Quem passa pela casa de muros amarelos na Praça Américo Jacomino, em frente ao metrô Vila Madalena, em São Paulo, não faz idéia de que ali dentro funciona um pequeno império. Os muros não são altos e não existem seguranças na porta. Não há sequer uma placa no quartel general do maior e mais antigo conglomerado de comunicação da comunidade gay brasileira. Vinte funcionários com carteira assinada, entre eles nove jornalistas, todos gays, trabalham alucinadamente para manter "bombando" todos os segmentos do MixBrasil: Associação Cultural Mix Brasil, Rádio MixBrasil,, Festival MixBrasil, os sites , , e, mais recentemente, a revista Junior .
Em uma sala instalada provisoriamente no segundo andar do sobrado, em uma espécie de corredor que dá acesso ao departamento comercial do grupo, o comandante de todas as operações, o economista e jornalista André Fisher, recebeu IMPRENSA para falar sobre sua nova empreitada. Junior chegou às bancas em outubro apostando no vigor de um segmento que, durante dez anos, contou com apenas uma publicação, a G Magazine . Mais de quinze anunciantes, entre eles Diesel, Calvin Klein, Alexandre Herchovitch e Fnac, pagaram R$ 15 mil por página (preço de tabela) para participar da edição ano 1, nº 1.
Como explicar tamanho sucesso? Começo pelos números pesquisados no Google. Dizem no mercado publicitário que o segmento gay movimenta no Brasil cerca de R$ 150 milhões por ano. Dizem, ainda, que os gays são ricos (classe A e B), que gastam muito, que são solteiros e baladeiros. Um certo Censo GLS, do Instituto de Pesquisas e Cultura GLS, estima que 18 milhões de pessoas façam parte da comunidade GLBT, que este público gasta 30% a mais que os heterossexuais e que 57% dos gays tem curso superior. Esses dados servem, sem dúvida, como excelentes argumentos para os vendedores de anúncio. Mas, segundo Fisher, são pouco confiáveis. "São todos números furados. Não existem pesquisas gays no Brasil. É tudo chute".
Chute ou não, o fato é que a G Magazine não está mais sozinha. Além da Junior , em novembro chega às bancas a revista DOM , da editora Peixes. Junior e DOM fazem questão de deixar claro que não correm na mesma raia que a G Magazine . A diferença está na opção editorial. Para atrair anunciantes, DOM e Junior abriram mão do nu masculino, especialmente da ereção, e investiram em uma linha mais sofisticada. André Fisher acredita que sua revista tem um perfil próximo da TPM , só que voltado para o público gay. G Magazine , por sua vez, conta com raros anunciantes grandes. Ganha dinheiro mesmo com a venda em banca, assinaturas, Internet e outros produtos, como a agência de turismo "G Travel" e um cardápio de serviço via telefone, como direito a contos eróticos e bate papo.
"Adoro a G Magazine . Trabalhei cinco anos com eles. Sou amigo de todo mundo. Mas só conseguimos 15 páginas de anúncio porque a gente é diferente. Em lugar nenhum do mundo existem grandes anunciantes em revistas com fotos de homens com ereção. O pau duro vende revista, mas afasta anunciante", diz Fisher. Ou seja; pau duro, caixa idem.
"Nosso grande problema é não ter a publicidade. A G Magazine é uma revista com nudez e isso afasta o anunciante. O André (Fisher) está lançando a Junior sem o homem nu. Com isso, talvez ele tenha mais facilidade com o mercado publicitário", concorda Ana Fadigas, diretora e fundadora da G Magazine .
Questionada sobre a nova concorrência, Ana abre um sorriso sincero e responde: "Já estava na hora de termos concorrentes. Isso baliza muito o trabalho da gente".






