Entrevista: Paulo Markun - Lembranças de Outubro
Entrevista: Paulo Markun - Lembranças de Outubro
Fotos: Denise Moraes/ Marcos Aurélio
Domingo, 19 de outubro de 1975 . Um carcereiro entra na cela do DOI-Codi, órgão de repressão do regime militar, em São Paulo, e se dirige, aos berros, ao jovem detento Paulo Sergio Markun. Garoto prodígio do jornalismo - com apenas 23 anos de idade e recém-formado, já é chefe de reportagem da TV Cultura -, Markun está preso por atividades "subversivas" ligadas ao Partido Comunista. "Que dia é hoje?", pergunta o soldado. "Acho que é domingo", responde Markun. "O que tem na sua casa hoje?" "Não me lembro". O militar insiste. "Hoje não tem a festa na sua casa?" De fato, tinha. Quando marcaram o batizado da filha Ana, de 6 meses, para aquele dia, Markun e sua esposa, Diléa Frates, não imaginavam que estariam presos e sob tortura. Inexplicavelmente, o casal foi liberado da cadeia por algumas horas para realizar a festa de batizado, devidamente vigiada por um grupo de policiais à paisana. Na volta para cadeia, Markun consegue trocar algumas palavras com o pai, Bernardo: "Pai, avisa o Vlado, o Marco Antonio Rocha e o Rodolfo Konder que o nome deles está citado como membros do Partido Comunista e que eles vão ser presos. Lá, a barra é pesada". Quando Vladimir Herzog recebe o recado do pai de seu amigo, chefe e colega, trata de acalmá-lo: "Seu filho deve estar transtornado. Não tenho nada a ver com o Partido Comunista".
Trinta anos depois desse episódio, no mesmo prédio da TV Cultura onde Vladimir Herzog comandava o departamento de jornalismo da emissora, Paulo Markun recebeu IMPRENSA para contar detalhes de seu livro, Meu querido Vlado, em que conta a história do assassinato de seu colega a partir de um ponto de vista pessoal. O último mês de outubro, aliás, foi mais corrido que os últimos 29. Afi nal, desta vez, a efeméride do dia 25, data em que Herzog foi assassinado no DOI-Codi, completou três décadas. Passaram-se 30 outubros e os arquivos da ditadura, mesmo sob o comando de um governo de esquerda, seguem fechados.
Nos 30 anos que separam a morte de Vlado desta entrevista, Markun passou pelas redações da Folha de S.Paulo, Estadão, O Globo, TV Globo, Band e Record. Fundou a Revista IMPRENSA, ganhou prêmios, assessorou políticos tucanos e petistas, escreveu livros, concorreu ao título de Intelectual do Ano pela União Brasileira dos Escritores, montou uma produtora de vídeo, virou sindicalista e se mudou para Florianópolis. Hoje, aos 53 anos de idade, o jornalista está de volta ao mesmo lugar em que trabalhou com Vlado. Só que agora seu cargo é outro: diretor do "Roda Viva", o mais antigo e respeitado programa de entrevistas da TV brasileira. Já que estamos falando de efemérides e datas redondas, em novembro, a arena do "Roda Viva" chega à marca de 1.000 programas gravados, em 19 anos de vida. Nesta entrevista, Markun revela detalhes dos bastidores do programa, relembra os tempos de marketeiro político, faz um balanço da crise brasileira, conta como nasceu a idéia de criar a revista IMPRENSA e fala sobre Vlado, o homem, o amigo, e seu significado na história brasileira.
Leia entrevista completa na edição 207 de IMPRENSA (novembro de 2005)
IMPRENSA - Qual foi seu maior desafio ao escrever um livro sobre o assassinato de Vladimir Herzog, que aconteceu há tanto tempo? Você tentou buscar fatos inéditos sobre o caso?
PAULO MARKUN - Eu poderia contar coisas novas se o assassino do Vlado aparecesse e dissesse como o matou. Essa é uma história conhecida, mas não pode cair no esquecimento. De qualquer forma, meu grande desafi o ao escrever o livro foi fazer um relato pessoal e, ao mesmo tempo, circunstancial. A primeira versão que fi z tinha o formato de cartas para o Vlado. Cheguei a umas 80 páginas, até que me dei conta de que seria impossível daquela maneira. Se essas cartas fossem lidas por alguém jovem, que não é daquela geração, seriam necessárias inúmeras notas de rodapé para explicar quem são os personagens. No meio do caminho mudei isso e mantive a narrativa na primeira pessoa.
IMPRENSA - Que lição ficou daquele episódio das supostas fotos de Vlado preso nu, que apareceram na imprensa e que depois o Exército revelou não serem dele, mas de um padre?
MARKUN - A grande lição é: os arquivos da ditadura não podem ficar fechados. Haviam 30 fotos do padre, mas apenas as três que permitiam algum tipo de confusão com o Vlado foram parar misteriosamente nas mãos da imprensa. Os repórteres que encontraram as fotos dizem que isso foi pura coincidência. Mas é difícil acreditar...
IMPRENSA - Estes documentos são acessíveis?
MARKUN - Eu não consegui ter acesso aos documentos
relativos ao Vlado que estão nas fi chas do SNI. Cheguei
a conversar com Nilmário Miranda (ex-ministro
dos Direitos Humanos) - que prometeu levantar essas
informações, mas acabou não fazendo isso. Eles continuam
trancados. Dizem que os documentos produzidos
nos DOI-Codi, portanto embaixo de tortura - foram
destruídos. Mesmo assim, examinando apenas os arquivos
do DOPS, conseguimos localizar uma ata da reunião
do SNI em que o delegado Romeu Tuma apresenta a
TV Cultura como um antro de subversão, e o Vladimir
Herzog como responsável por uma campanha para derrubar
o regime. Essa reunião aconteceu um mês e meio
antes da morte do Vlado. Imagino o que ainda é possível
encontrar nesses arquivos.
IMPRENSA - Havia um alinhamento ideológico da Folha da Tarde com o regime? E do Grupo Folha?
MARKUN - A direção da Folha da Tarde era alinhada ideologicamente com o que havia de mais sanguinário na polícia brasileira. Agora, como os donos do Grupo Folha viam isso, eles é que têm que explicar. Vai ser difícil para eles convencerem que havia uma estratégia maquiavélica para facilitar a abertura, já que se proclamam, até hoje, defensores da abertura política.
IMPRENSA - Vamos mudar de assunto. O "Roda Viva" chega ao milésimo programa, com 19 anos de vida, no próximo dia 7 de novembro. Até que ponto vocês aceitam negociar com o entrevistado condições para participar do programa?
MARKUN - O que você chama de "negociar"?
IMPRENSA - Vou dar um exemplo: em 2000 Lula topou ser entrevistado, mas fez uma exigência. Ou melhor, um veto. O jornalista Luiz Macklouf, do Estadão, que havia feito reportagens denunciando casos de corrupção em prefeituras petistas, nas quais Lula estaria envolvido diretamente, não poderia estar na bancada. A produção acabou cedendo...
MARKUN - É verdade. Ele foi o primeiro e único caso deste tipo. A partir daí, estabeleceuse uma norma. O convidado para o "Roda Viva" pode nominar os jornalistas que não aceita como entrevistador. Mas não pode impor os que quer. Naquela ocasião, o Lula alegou que havia uma "pinimba" dele com Macklouf. A coincidência é que não fui mediador daquele programa. Aí surgiu uma onda de que o problema era comigo. Essa regra faz sentido. Se você tem um desafeto histórico e estabelece como premissa que "para esse cara eu não falo", tudo bem. Mas não pode querer montar a bancada, nem exigir que sejam feitas essas ou aquelas perguntas
IMPRENSA - Para finalizar, conte um pouco do processo de criação da revista IMPRENSA, da qual você foi um dos fundadores?
MARKUN - Para registro histórico: o grande responsável pela criação da revista IMPRENSA se chama Manuel Canabarro, que é meu cunhado e hoje trabalha na área de marketing político. Ele era editor chefe do Pasquim São Paulo, que era uma franquia do Pasquim. Quando o jornal fechou, Canabarro decidiu criar outra coisa, outro jornal. Nós, então, concluímos que as capas mais vendidas eram as que tinham jornalista: Joyce Pascowitch, Joelmir Betting, Carlos Nascimento, entre outras. Daí, surgiu a idéia: "Vamos criar uma publicação sobre jornalistas". A primeira idéia é que o nome fosse O Passaralho, que seria um jornal meio galhofeiro. No meio desse processo, decidimos transformar em revista. O que impulsionou a IMPRENSA foi uma fórmula simples: tratar os temas da tribo como as semanais tratariam. E fazer muita reportagem. Passaram os anos e a revista está aí. Muita gente dizia, na época, que não havia a menor possibilidade de uma revista sobre jornalistas dar certo.






