Entrevista exclusiva com Nelson Tanure, o polêmico presidente do Jornal do Brasil: "Jamais tivemos o projeto de levar o JB para Brasília"

Entrevista exclusiva com Nelson Tanure, o polêmico presidente do Jornal do Brasil: "Jamais tivemos o projeto de levar o JB para Brasília"

Atualizado em 11/05/2005 às 13:05, por Pedro Venceslau e Renata Toledo Piza.

Entrevista exclusiva com Nelson Tanure, o polêmico presidente do Jornal do Brasil: "Jamais tivemos o projeto de levar o JB para Brasília"

Depois de muita insistência, IMPRENSA finalmente conseguiu uma entrevista com o polêmico presidente do Jornal do Brasil, Nelson Tanure. Empresário, Tanure comprou o JB em 2001 e, em 2003, a Gazeta Mercantil. A trajetória de Tanure como empresário de comunicação é marcada por polêmicas. Seu JB vive uma crise crônica e já foi dado como morto diversas vezes.

Na edição de junho de IMPRENSA, publicaremos uma longa reportagem sobre a crise daquele que já foi um dos maiores jornais do país. Com vocês, Nelson Tanure:

IMPRENSA - Qual o caminho o Jornal do Brasil deve seguir para recuperar o prestigio e o poder de seus anos dourados? Quais as dificuldades para reconquistar anunciantes e ampliar a tiragem?

Tanure: Passamos, nos últimos quatro anos, por intensos ajustes no JB. Fizemos nossa "lição de casa" na gestão da Companhia. Temos hoje uma empresa enxuta, pronta para crescer. Nossa grande aposta é no Conteúdo. Temos também uma atenção especial a projetos de grande importância para a vida do País. Exemplo disso é a série histórica "Olhares", em que já "revisitamos" o Movimento Militar de 64 e a morte de Getúlio. Este ano temos 60 anos do fim da II Guerra Mundial e os 20 anos da redemocratização do Brasil. Cumprimos, portanto, uma tarefa que vai além de meramente "informar". É nesse contexto que fizemos um grande investimento em Conteúdo no JB. Desde o último 1o de maio, criamos uma unidade "B" que produz Conteúdo não apenas para o "Caderno B", já reformulado, mas também para o suplemento "Idéias", a revista "Programa", etc. Ziraldo, Mauro Santayana, Antônio Torres, Fausto Wolff, Marina Colasanti e tantos outros. Queremos fazer o melhor Jornal do Brasil. Não necessariamente o maior, medido pelos critérios frios de circulação e tiragem. O JB tem de ser uma fonte de reflexão, influir. Fazer a diferença. É nesse sentido que estamos trabalhando e o resultado tem sido uma receita publicitária e de projetos em crescimento sustentado.

IMPRENSA - É mais dificil dirigir um jornal do que outros negócios, como Docas? Por que?

Tanure: No jornal, há a questão da periodicidade. É um produto que faz e se refaz a cada dia. Tem também o aspecto da sua grande penetrabilidade nos mais variados meios econômicos, políticos, sociais e culturais. É diferente do que, digamos, administrar uma empresa farmacêutica ou um banco de investimentos.

IMPRENSA - Qual seria o impacto de uma greve para o Jornal do Brasil? Sua relação com os funcionários é boa?

Tanure: O processo de reestruturação do JB representou um cotidiano de derrotas e vitórias. Superamos, em grande medida e com êxito, aquela fase. Como toda empresa, há interesses diversos, mas temos logrado rumar em direção a mais harmonia, mais comunhão de propósitos. Acho que hoje todos na empresa sabemos da importância da responsabilidade na gestão, de que as coisas têm custo, que devemos sonhar com o pé no chão.

IMPRENSA - O projeto de levar a sede do jornal para Brasília está enterrado?

Tanure: Jamais tivemos qualquer projeto de levar o JB para Brasília, Xangai, Londres ou Nova Delhi. O que queremos fazer sempre é reforçar nossa presença na capital de um centro político importante como Brasília. Creio que essa história de levar o jornal para Brasília foi algo que a concorrência -- e os inimigos do JB -- distorceram e disseminaram movidos por objetivos escusos. O JB é a cara do Rio de Janeiro. Temos um modo carioca de enxergar as coisas. O Rio é nossa raíz. Esse é um patrimônio intocável.

IMPRENSA - O sr sente que existe um sentimento afetivo da população carioca com o JB? Como isso pode ajudar o jornal?

Tanure: O Rio de Janeiro ama o JB. Este amor é correspondido. Dificilmente um veículo de comunicação no Brasil mantém a mesma relação espiritual com seus leitores. As pessoas se referem ao jornal utilizando o possessivo plural, o "nosso" JB. Crêem-se donas do jornal -- e são mesmo. O leitor é rei. Na festa de re-lançamento do "B", mais de mil pessoas estiveram presentes. O entusiasmo é geral. O JB é um pouco como sua escola de samba favorita, seu time de futebol preferido. O JB foi, é -- e será -- formador de gerações. Isto cria, além do hábito da leitura, elos intelectuais -- e emocionais.

IMPRENSA - O que levou o sr a entrar no mercado editorial, onde a concorrência é tão pesada e instabilidade tão grande?

Tanure: Na verdade, concorrência e instabilidade são características de praticamente todos os ramos da economia. Talvez, a diferença no meio editorial seja o fato de que os processos de reestruturação administrativa e estratégica ainda não responderam aos desafios apresentados pela chegada das novas tecnologias da informação. Este é um processo que se acelerou muito nos anos 90. Há vasta abundância de fontes de notícias. O fundamental é estabelecer o imperativo de uma administração que se oriente para resultados. A diferença, no meio editorial, é que o sentido "republicano", de coisa pública mesmo (res publica), é mais aguçado. Mais do que consumidor, o leitor é seu parceiro e sócio. A capacidade de influenciar de um jornal implica grandes responsabilidades. Administrativa e editorialmente, estamos à altura delas.

IMPRENSA - O sr gostaria de comprar um canal de TV?

Tanure: Somos um Grupo em expansão. Em nosso planejamento estratégico, incluimos a presença em outras mídias que não apenas a impressa. Ainda que com tratamento especial e adequado no Conteúdo, o futuro da comunicação reside na convergência de meios e tecnologias. Queremos, sim, estar na mídia eletrônica.