Entrevista com Michelle Sampaio, a estrela do telejornal da Vanguarda, a TV do Boni no Vale do Paraíba.

Entrevista com Michelle Sampaio, a estrela do telejornal da Vanguarda, a TV do Boni no Vale do Paraíba.

Atualizado em 19/04/2005 às 18:04, por Por: Alan Brito e Paulo de Tarso Venceslau e  de Taubaté.

Depois de muitas peripécias, IMPRENSA, em parceria com o jornal CONTATO, de Taubaté, conseguiu entrevistar a garota que simboliza o sonho de muitos jovens. A dificuldade maior foi conseguir aprovação da poderosa Terezinha de Almeida, editora regional da Vanguarda de São José dos Campos e Taubaté. Ela exigiu que a pauta fosse enviada com antecedência e afirmou que não seria permitido tratar da vida pessoal de Michelle. Estranhamos porque já entrevistamos Ana Paula Padrão, musa da própria Michelle, Miriam Leitão e outros jornalistas - homens e mulheres - dos maiis variados veículos, e nunca foi feito tão inusitado pedido. Talvez seja o conservadorismo que ainda domina o Vale do Paraíba que esteja influenciando o time de Boni. A seguir, os melhores momentos de uma entrevista alegre, descontraída, que só o profissionalismo, a graça e o bom humor de Michelle são capazes de propiciar

IMPRENSA: Quem é Michelle Sampaio?
Michelle: Tenho 25 anos de idade e nasci em Guaratinguetá. Já morei em Cruzeiro, Sorocaba e Curitiba. Em 1997, voltei a morar no Vale do Paraíba. Em 1998, fiz um ano de Educação Física, na Unitau. Faz 2 anos que estou morando em Taubaté, mas já tem uns 8 anos que eu freqüento a cidade. Adoro Taubaté.

IMPRENSA: Na época da Unitau (Universidade de Taubaté), você morava em Taubaté?
Michelle: Não. No final do curso, eu comecei a viajar muito. Trabalhava em Pinda e vinha a Taubaté para estudar, algumas vezes dormia na casa de uma amiga que mora aqui. Depois de terminar a faculdade, passei um tempo fora do país. Fui para a Nova Zelândia. Logo que eu voltei dessa viagem fui chamada para fazer o teste na Vanguarda. Então, em 2003, quando fui contratada pela Vanguarda, passei a morar em Taubaté, apesar de ter trabalhado durante seis meses na emissora de São José.

IMPRENSA: Você sempre teve essa vocação para jornalista?
Michelle: A vocação eu sempre tive, porém, por mais explícita que ela estivesse eu não sabia. Tanto é que eu comecei a fazer Direito na Unisal (Universidade Salesiana) de Lorena, mas em fevereiro abandonei o curso. Na verdade, fiz Direito por causa o meu pai, mas não gostei. Logo depois, em março, me matriculei em Educação Física, na Unitau. Após três meses eu queria parar. Mas minha mãe disse que apesar de eu estar perdida que deveria continuar e terminar o ano para ver o que eu realmente queria. E foi isso que eu realmente acabei fazendo. Na época da Educação Física, eu fazia bastante desfile de moda para algumas confecções de Lorena e São José dos Campos.

IMPRENSA: E por que esconde esse seu lado de modelo?
Michelle: Escondo um pouco sim. Acho que pelo fato de não ter tido muito sucesso, caso contrário teria continuado. Mas foi um desfile em São José, na época em que ainda era Globo Vale do Paraíba, que me abriu as portas. A apresentadora era Valéria Borges. Depois do desfile, minha mãe e eu fomos conversar com a Valéria. Minha mãe lhe contou que eu tinha interesse em ir para a área de comunicação.

IMPRENSA: Então sua mãe já sabia da sua vocação para jornalista?
Michelle: Eu acredito que sim. Quando era pequena eu imitava a Xuxa e tinha várias gravações em casa. Em aniversários ou quando a família estava reunida, eu pegava o microfone e saía entrevistando todo mundo. Na minha opinião, o que faltou foi uma auto-análise. Mas, tive a sorte de conversar com Valéria Borges e da minha mãe ter sacado tudo sobre minha vocação. Conclusão, entrei no jornalismo e amei. Não faltava nem um dia na aula, minha mãe até estranhava porque na Educação Física eu só faltava, tinha preguiça. As aulas praticas do jornalismo me deixavam fascinada. Na minha primeira matéria para a faculdade, eu fui entrevistar um padre e não parava de tremer.

IMPRENSA: Teve algum fato que foi decisivo para sua decisão?
Michelle: Não. Não houve nenhum fato jornalístico. Nessa época eu estava totalmente perdida, em termos vocacionais. O jornalismo era minha terceira tentativa e eu ainda tinha muitas dúvidas. Mas, depois que eu entrei na faculdade, essa incerteza foi deixada de lado e passei a me dedicar cada vez mais ao curso. Brincava, dava risada. Nunca fui a aluna que só tirava dez, mas consegui conciliar a prática com a teoria e acho que foi isso que eu me dei bem. Tive, entre aspas, "sucessos" já na faculdade. Tirei 10 no trabalho de conclusão. No antigo Provão do MEC (Ministério da Educação e Cultura), tirei a maior nota da universidade do meu ano, se não me engano 7,4. Fiquei entre os 25% melhores alunos do Brasil e a maior nota da Universidade de Taubaté. Então, na hora de apresentar meu currículo para a Vanguarda foi ótimo. Na época, eu estava apresentando o jornal da TV Setorial e acho que tudo isso contribuiu para que eu recebesse o certificado de aluna destaque do curso de jornalismo. Quando anunciaram meu nome como destaque, só dava minha mãe pulando na arquibancada. Ela acompanhou minha luta, minhas dificuldades para chegar ao jornalismo. Eu fui descobrindo as coisas ao longo curso.

IMPRENSA: Hoje, há várias mídias: falada, impressa e televisiva. Você teve algum conflito entre ser apresentadora e ficar na área da redação?
Michelle: Para ser sincera, até hoje eu vivo nesse conflito. Sou apaixonada pela parte de edição. Tem muita gente que prefere só editar e não aparecer na frente da câmera. O que me levou para o vídeo foi o fato de eu ter uma boa dicção e presença de vídeo. Eu também fui um pouco empurrada para a TV, mas sempre gostei. Minha vontade sempre foi ter um programa mesclando jornalismo com entretenimento. Por mais que eu tivesse essa vontade, sempre fui mais para o lado do vídeo. O professor Cidoval Morais foi meu mestre na Setorial. Posso dizer que ele foi grande responsável pela minha carreira acadêmica e profissional. Ele é muito bravo, brigava comigo, mas sempre foi muito justo. Na minha opinião, foi o Cidoval quem profissionalizou o jornal na Setorial.

IMPRENSA: O que a levou a escolher a Nova Zelândia para estudar inglês?
Michelle: Eu tinha terminado a faculdade, estava na Setorial há três anos, já tinha colado grau e não tinha nenhuma proposta em vista. Então, eu decidi que aquele era o momento de fazer um curso fora do país e aperfeiçoar meu inglês. Se eu começasse a trabalhar em outro lugar ou desse início ao curso de mestrado não teria mais como ir. Também não imaginava como seria minha reação porque eu sou muito ligada com minha família. Fiquei em Okland, a maior cidade da Nova Zelândia, que tem cerca de um milhão de habitantes, um terço do número de pessoas que o país possui. Tive a sorte de ficar na casa de um senhora cujo o filho trabalhava em uma televisão. E tive a oportunidade de aprender muita coisa na minha área. Fui com o intuito de voltar falando melhor o inglês e acabei trazendo na bagagem coisa maravilhosa, inclusive a amizade de uma família espetacular. A dona da casa, Sandra Gardner, veio me visitar, depois de dois anos, em outubro do ano passado. Eu falo que ela é a minha mãezinha da Nova Zelândia. Foi uma experiência fantástica.

IMPRENSA: Antes de viajar já havia se decidido pela televisão?
Michelle: Sim. Já tinha mais de três anos de Setorial. Mas, acho essencial o estudante de jornalismo começar em um jornal da cidade, do bairro. Eu trabalhei em dois jornais pequenos e na revista Via Vale, de São José dos Campos. Eu cobria as cidades do fundo do Vale. Em TV e impresso passei por tudo. Até hoje só não trabalhei em rádio. Quando o Cidoval chegou [na Setorial], ele quis me manter na reportagem. Depois de um tempo, passei a apresentar o jornal e ainda fazia reportagens. Era uma loucura, muita correria mas, o aprendizado que eu tive na Setorial, principalmente com o Cidoval, foi essencial.

IMPRENSA: A Vanguarda a contratou para ser apresentadora?
Michelle: Eu não vim como apresentadora, vim para cobrir uma vaga de Taubaté. A Stela Sachs, que hoje está na Embraer, estava de saída na época. Eu estava concorrendo a uma vaga com mais quatro pessoas. Eu sabia que teria que trabalhar como repórter e apresentadora. Mas já sabia que se a TV de Taubaté inaugurasse em 2 dias eu teria que apresentar em 2 dias. Para me adaptar melhor com a linguagem da TV, com a linha editorial da Vanguarda, eu comecei na reportagem. Durante seis meses, fiquei nessa área, só apresentava quando alguém estava de folga.

IMPRENSA: A experiência em outras mídias ajudou-a como apresentadora?
Michelle: Apesar de escrever ser diferente, tudo ajuda. A mesma matéria, por exemplo, em um jornal eu faria com 30 linhas, em uma revista utilizaria 2 páginas e na televisão transformaria tudo em 1 minuto, com conteúdo. É aquilo que se aprende na faculdade. E, independente do veículo que se trabalha, a apuração deve ser feita da melhor forma possível e ouvir todos os lados da notícia. A experiência que eu tive na Setorial me ajudou demais. Foi a minha faculdade prática.

IMPRENSA: Como classificaria o USA Today que é quase só manchete?
Michelle: Esse tipo de informação instantânea é essencial. Mas é mais importante ainda que você consiga complementá-la. Eu posso dar uma nota sobre a saúde do Papa em 1 minuto, mas com certeza irei ler 2 páginas de jornal sobre o assunto. Quando chegou a Internet ficou aquele questionamento com relação ao fim da mídia impressa, mas isso não vai acontecer. Se há interesse pelo assunto, você vai se aprofundar por meio de jornais, revistas e livros.

IMPRENSA: O que pensa sobre a liberdade de imprensa?
Michelle: É fundamental. A gente demorou para conquistar a nossa liberdade de imprensa. Eu nasci em 79, não peguei muito a época da ditadura. Nós temos que preservar a nossa liberdade de imprensa. O que não pode acontecer é o abuso dessa liberdade, o que muita gente faz. A censura na imprensa é mais explícita em cidades e veículos menores.

IMPRENSA: O que seria um abuso?
Michelle: Programas que se aproveitam de pessoas pobres, sem nenhum conhecimento, para ganhar audiência e utilizam muito o sensacionalismo. Esse é o abuso forçado. De madrugada, a gente vê muita armação e apelo sexual. Se realmente existisse o Conselho Nacional de Jornalismo, não seria o caso de tirar do ar, de forma autoritária, mas sim conversar sobre o enfoque do programa e discutir os assuntos que serão abordados.

IMPRENSA: Esses limites deveriam ser colocados pelo Estado ou pelos próprios jornalistas?
Michelle: Pelos jornalistas. O Estado é complicado (risos). Se for contra, ele manda cortar a verba e acabou. Assim não. É preciso ter grandes nomes do jornalismo junto de pessoas do Estado não para censurar, mas para melhorar a qualidade daquilo que é veiculado.

IMPRENSA: Taubaté é suficiente para desenvolver seu trabalho ou você tem outros planos?
Michelle: Meus pais moram aqui, estou feliz em Taubaté. Não almejo voltar para São Paulo e fazer o mesmo que eu faço aqui e ganhar a mesma grana. Para ocorrer uma mudança desse tipo seria necessário um cargo melhor, um salário mais alto e, possivelmente, um programa meu. Tenho muitos projetos, principalmente com crianças carentes. Do jornalismo eu não me desvinculo mais e nem quero. Se eu conseguisse vincular esse projeto com crianças carentes aqui na Vanguarda, ganhar bem e ser reconhecida com isso, eu jamais pensaria em sair daqui. Hoje, só sairia daqui por uma proposta muito boa, algo que iria revolucionar minha carreira. Quando não se é da cidade, qualquer 10% a mais fazem com que muitos colegas vão embora. Isso acontece quando os pais e namorados moram fora. A minha vida é aqui, não tem porque eu buscar São Paulo ou Rio de Janeiro neste momento. Adoro Taubaté, gosto muito do Vale e do Litoral.

IMPRENSA: Qual seu modelo de jornalista mulher?
Michelle: Ana Paula Padrão. Sem dúvidas. Eu li a pesquisa que o CONTATO publicou onde ela é apontada como mulher de destaque no país, na frente até mesmo da modelo Gisele Bündchen. O que ela fala, pensa, escreve, a coragem dela é impressionante. Ela é um exemplo de profissional

IMPRENSA: Qual seu recado aos estudantes ou aqueles que estão começando a carreira de jornalista?
Michelle: O principal é batalhar. Muita gente pensa que eu me formei e, simplesmente, vim parar aqui. Eu trabalhei em jornal de bairro, de cidade, revista regional e TV até chegar na Vanguarda. A dica é não desistir nunca e não passar por cima de ninguém, porque [é um caminho que] não chega a lugar nenhum. É preciso ter ética, pois tem muita gente te olhando.

IMPRENSA: Uma carreira como a sua, exige muito sacrifício?
Michelle: Exige sim. É preciso ter cuidado com a vida social, com a postura no dia a dia, porque você acaba servindo de exemplo. Tanto é que se você for perguntar para aquelas pessoas que me conhecem elas vão falar que eu não era assim tão séria, vivia dando risada. O que eu mais escuto na rua é que pessoalmente eu sou diferente do vídeo. Todos falam que eu sou mais bonita, magra e risonha. Na verdade, nem sou tão magra, sou normal. (risos)

Cidoval Moraes, professor da Unitau, fala de sua ex-aluna

" Michelle tem garra, é esforçada, não espera as oportunidades cairem do céu:
corre atrás. A tarefa do professor/formador é provocar, estimular, motivar, dar
pistas. A mensagem não toca a todos da mesma maneira. Como aluna, Michelle
descobriu cedo que o mercado não quer qualquer um: quer aquele que estiver
disposto a investir na própria carreira, correr riscos, não ter medo de errar,
encarar as adversidades como oportunidades de crescimento. Foi assim na TV
Setorial e tem sido assim na TV Vanguarda. Sinto-me feliz, não pela aluna,
orientanda, funcionária; mas pela colega de profissão.
"