Em meio ao controle da imprensa, títulos digitais independentes crescem na Venezuela

Última vítima da falta de papel foi o jornal opositor Tal Cual

Atualizado em 04/03/2015 às 13:03, por Redação Portal IMPRENSA.

O controle cada vez maior dos órgãos tradicionais de comunicação na Venezuela acabou dando espaço para iniciativas independentes de jornalistas. Nos últimos meses, com a queda da publicidade e as pressões do poder político e econômico, novos títulos digitais se sobressaíram no país.

Crédito:Reprodução Iniciativas digitais ajudam a informa venezuelanos sobre crise no país
A jornalista investigativa Laura Weffer deixou o jornal Últimas Notícias após uma reportagem sobre os guarimbas (protestos de rua) ser censurada. Um ano e meio depois, ela foi a Madri apresentar seu novo projeto e lançar uma campanha de crowfunding (arrecadação coletiva de fundos) para financiar o diário digital .

“Descobrimos que antigamente os indígenas agarravam um punhado de cocuyos (espécie de vagalumes) e andavam com eles para iluminar o caminho. Por isso pensamos que muitos cocuyos reunidos criam o efeito cocuyo, a possibilidade de trazer luz em meio à obscuridade”, explicou ela ao El País . Dois dias após o lançamento no Twitter, o projeto já contava com 12 mil seguidores e, um mês depois, mais de 30 mil.

Outro exemplo é o , portal de notícias gerais lançado em junho do ano passado. Segundo o diretor, Felipe Campos, a ideia era criar um espaço para falar a todos os setores da sociedade. Nove meses depois, o site passou a registrar 600 mil visitas por mês e contratou 50 funcionários. O projeto é financiado tanto pelo público como pelo capital privado.

“Qualquer mídia vive do investimento público e privado. E bem-vindo seja, porque, do mesmo modo que eu não tenho por que aceitar pressões da Coca-Cola, tampouco tenho de aceitar da PDVSA [a companhia petrolífera estatal]”, defende o diretor.

“A situação da mídia tradicional fez com que muitos jornalistas abandonassem as redações, seja por terem sido demitidos ao não acatar ordens de censura, seja por decisão voluntária, e eles estão migrando para mídias que começam a desenvolver-se nas plataformas digitais”, pondera Marianela Balbi, diretora-executiva do Instituto Imprensa e Sociedade Venezuela (Ipys-Venezuela), filial venezuelana do homônimo observatório da mídia do Peru.

Para ela, os novos títulos digitais têm dois desafios: fazer a mensagem chegar alcançar à ampla população das classes menos favorecidas e conseguir superar a briga das cifras de acesso à internet. Segundo a jornalista, as redes sociais são uma boa aposta, já que "se transformaram no primeiro canal para se estar informado".

Um estudo realizado pelo Ipys-Venezuela, publicado em outubro, aponta que 34% dos jornalistas consultados reconhecem que sofreram algum tipo de censura por poderes estatais, principalmente, pelo Executivo.