Em entrevista, professor da UnB fala sobre as principais tranformações da era digital
Em entrevista, professor da UnB fala sobre as principais tranformações da era digital
Para debater as mudanças na nova era digital e discutir os principais temas ligados à tecnologia das comunicações, a UnB Agência conversou com o professor Armando Bulcão, diretor da UnB TV, canal universitário de televisão que completou seu primeiro ano em novembro de 2007. Bulcão também é professor da Faculdade de Comunicação (FAC) da UnB, pela qual é mestre, e doutor em Comunicação pela Universidad Autónoma de Barcelona.
UnB AGÊNCIA - O senhor acredita que a chegada da tevê digital ao Brasil vai melhorar a qualidade dos conteúdos transmitidos pelas redes nacionais?
ARMANDO BULCÃO - Não. Com o advento da tevê digital, uma mesma rede vai poder operar, pelo menos, quatro canais simultaneamente. Com isso, surgiria a possibilidade de transmitir outras programações. Mas as grandes tevês preferem transmitir em alta definição e, para isso, vão ter que usar os quatro canais disponíveis em apenas um sinal, cuja programação continuará a mesma. Por outro lado, a utilização dos outros canais vai ser a opção natural de algumas tevês públicas, como a TV Justiça. A princípio, elas não têm grande interesse em alcançar alta definição.
UnB AGÊNCIA - Além da melhoria da imagem, o que se pode esperar da tevê digital?
BULCÃO - As redes vão apostar mesmo na interatividade. O que vai ser a tevê digital no Brasil já é esboçado pelas plataformas de tevê a cabo e por satélite, como a Sky e a Net. Record e Globo já têm equipes, neste momento, desenvolvendo esse tipo de tecnologia. A rede de tevê NHK, do Japão, possui um setor apenas para mexer com interatividade. Eles trabalham na criação de serviços de compra e venda, de homebanking e em pesquisas de opinião. O problema é que essa interatividade proposta pela televisão é reflexa. O modelo continua o mesmo. A mesma mensagem é transmitida para várias pessoas e sempre parte de uma demanda do emissor. O modo muda, mas as coisas permanecem as mesmas.
UnB AGÊNCIA - A escolha pelo modelo japonês de transmissão foi correta?
BULCÃO - Acompanhei a discussão de longe, mas os especialistas em engenharia elétrica dizem que a decisão foi acertada. Contudo, o sistema é japonês, mas tem modificações nacionais, e isso pode se tornar um problema. Será que o mercado brasileiro tem força suficiente para sustentar um modelo? Anteriormente, houve uma tentativa de desenvolver um sistema próprio, mas isso esbarrou nos altos custos. De qualquer forma, a decisão está tomada e o jogo vai ser jogado com o Ginga (programa que vai gerenciar as funções de interatividade da televisão digital no Brasil). Agora, é esperar que a tecnologia fique pronta para podermos começar a trabalhar.
UnB AGÊNCIA - Apesar de a internet estar disponível em praticamente todo lugar, ainda existem pessoas que não se acostumaram com a rede mundial de computadores. A assimilação da tevê digital vai ser tão difícil quanto foi a da internet?
BULCÃO - Para a minha geração, vai ser mais difícil. Se a tevê fizer mais de três perguntas, como o computador costuma fazer, eu desligo. Isso é uma barreira muito grande para os mais velhos, mas não para quem já nasce com o SMS. Os mais novos saberiam digitar rapidamente um e-mail no controle remoto. Há até um anseio pela interatividade para quem já nasceu em meio a essas tecnologias. Mas este momento de implantação é muito inicial e as mudanças vão chegar aos poucos. Os conversores que estão sendo lançados no Brasil ainda não apresentam a possibilidade da interatividade. O SDK, kit de desenvolvimento do Ginga, não está disponível e, sem isso, não é possível construir páginas de interatividade.
UnB AGÊNCIA - A segurança nessas relações de interatividade vai causar tanta preocupação quanto causa nas operações realizadas pela internet?
BULCÃO - A segurança é uma das questões que mais vão despertar interesse em relação à tevê digital. O estágio atual da internet torna o homebanking bastante confiável. Mas a chegada da televisão a esse estágio depende de investimentos e desenvolvimento de software. É um universo de grandes possibilidades para os produtores de conteúdo. Existirão setores específicos para desenvolver interatividade nas emissoras. E não adianta desenvolver interatividade simplesmente pedindo para o repórter fazer uma matéria mais extensa para a web. Será necessário um setor específico para isso. As tevês vão ter que investir em pessoal, e, as universidades, em pesquisa.
UnB AGÊNCIA - O senhor disse que as redes de televisão já estão se preparando para aproveitar as possibilidades de interatividade. Que possibilidades são essas?
BULCÃO - A interatividade que está por vir ainda vai ser descoberta e pode causar problemas para as redes. Imagine que o telespectador poderá clicar na bolsa que a atriz de uma novela carrega caso se interesse por comprá-la. Enquanto o consumidor avalia aquela bolsa e, a partir dela, vai atrás de outros modelos, a novela continua rolando. Como a rede vai dividir a atenção desse espectador? É parecido com o que acontece com a internet. Claro que será possível gravar o programa, mas você poderá programar o aparelho para não gravar os comerciais. Nesse caso, como é que fica o anunciante? O próprio modelo de negócio ainda vai ser desenvolvido. E o desenvolvimento disso vamos assistir durante este ano.
UnB AGÊNCIA - Uma pesquisa encomendada pela rede britânica BBC mostrou que o mundo está preocupado com a propriedade das companhias de mídia. Entre os 11 mil entrevistados em quatro continentes, os brasileiros se destacaram ao fazer a pior avaliação sobre o desempenho dos meios de comunicação financiados pelo governo: 43% deles acreditam que a cobertura do noticiário pelos órgãos públicos brasileiros é "pobre". Essa desconfiança se justifica?
BULCÃO - Não. Há exemplos de programações muito boas em televisões públicas com a TVE, do Rio de Janeiro, e na TV Cultura, de São Paulo. O problema é que, aqui, as tevês públicas surgiram depois das televisões privadas. As tevês públicas européias são referência por terem surgido antes das privadas. Nesses países, as redes públicas se consolidaram antes. No Brasil, o modelo privado é mais forte, o que pode explicar alguma desconfiança em relação às televisões financiadas pelo governo.
UnB AGÊNCIA - A pesquisa da BBC também põe os brasileiros entre aqueles que mais demonstram interesse em participar da decisão sobre o que é transmitido pela televisão. Isso não é uma prova de que a programação das tevês nacionais está abaixo do esperado?
BULCÃO - Sim. Há uma oferta muito grande de canais, mas falta conteúdo. Se listar os conteúdos fixos e os filmes que passam numa grade de programação de uma televisão a cabo, você não vai chegar a um número muito grande de produtos, porque eles se repetem. Há uma crise de criatividade, principalmente, numa máquina que consome muito conteúdo. Ao mesmo tempo, existe um anseio da audiência por coisas mais inteligentes. O programa do Serginho Groismann é uma prova disso. Mas como construir essa oferta? O grande problema é que, quando as pessoas pensam em fazer televisão, elas acham que é preciso imitar a TV Globo ou a Rede Record, que já tenta imitar a Globo.
UnB AGÊNCIA - A rede nacional de TV pública, anunciada com grande expectativa pelo governo, já está no ar, e, em março, começa a funcionar nacionalmente. Sua expectativa em relação a ela é boa?
BULCÃO - Sim. Para as tevês universitárias, por exemplo, ela é uma boa possibilidade de aliança. Mas é preciso prestar atenção ao modo como as questões regionais vão reagir a essa idéia de rede nacional. No sul, é muito evidente como os conteúdos regionais são capazes de desbancar os nacionais. A Bandeirantes e o SBT costumam ser fortes em algumas regiões por causa de suas vinculações regionais. Eles dão abertura para a programação local. Resta saber como uma rede nacional dessas vai conviver com a necessidade de produção regional.
UnB AGÊNCIA - O senhor considera a Rede Record uma ameaça à hegemonia da Rede Globo?
BULCÃO - A Record está fazendo um investimento enorme, mas a ameaça à hegemonia da Rede Globo vem do próprio sistema de comunicação. Sua hegemonia foi construída numa época de poucos canais, quando a recepção UHF praticamente não existia. Hoje, há uma grande variedade de sistemas de rede de comunicação. A televisão disputa espaço com o videogame e o computador, e a IPTV (método de transmissão de sinal televisivo pela internet) já é uma realidade e nasce interativa. Já é possível, por meio dele, fazer download de programações de todo o mundo. Com essa tecnologia, vamos poder assistir à programação de uma emissora holandesa sem que ela precise de concessão para exibir seu conteúdo no Brasil.
UnB AGÊNCIA - Anunciado no final do ano passado, o Regulamento de proteção e defesa dos direitos dos assinantes dos serviços de televisão por assinatura estabelece que, a partir de junho de 2008, o assinante de tevê a cabo poderá contratar serviços terceirizados para fazer a manutenção em seus aparelhos. Sabendo disso, o presidente da Associação Brasileira de TV por Assinatura (ABTA) apressou-se em afirmar que as novas regras podem causar sérios problemas na rede de transmissão. Quem tem razão?
BULCÃO - O presidente da ABTA tem razão. Toda vez que vai um funcionário da NET no meu bloco, morro de medo, porque ele conserta um e prejudica os outros. E esse é o serviço que a empresa já presta, imagine o de terceiros.
UnB AGÊNCIA - A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), que criou o regulamento, tem força para impor suas decisões?
BULCÃO - A Anatel perdeu muitos quadros recentemente. Com a UnB TV, a agência tem sido ótima, mas qualquer órgão fiscalizador que dependa de fiscais está fadado a ter problemas, porque não há fiscais suficientes para cobrir o país. O mesmo pode ser dito do Ibama, por exemplo.
UnB AGÊNCIA - A criação de uma classificação indicativa governamental para os programas exibidos pela televisão brasileira não pareceu agradar muita gente. Ela lhe incomoda?
BULCÃO - Essa classificação serve mais como um aviso. Como a recepção de tevê se dá em um ambiente familiar, a maneira como ela acontece depende da estrutura de cada família. Talvez as pessoas se esqueçam, mas toda tevê tem um botão para ligar e desligar.
UnB AGÊNCIA - A UnB TV completou seu primeiro ano em novembro de 2007. Que avaliação o senhor faz dos primeiros 12 meses?
BULCÃO - O primeiro ano representou uma fase de implantação. A avaliação que fazemos é muito positiva. Encaro o canal com boas perspectivas e vejo que a UnB TV vem se qualificando. Estamos tentando descobrir um novo padrão de tevê, algo que saiba aproveitar o melhor possível dos recursos disponíveis. Por exemplo: hoje, o protagonista da matéria em um telejornal é o repórter. Ele é o narrador onisciente e onipresente. E a fonte que permite ao narrador articular tem direito a uma fala e olhe lá. O nosso enfoque é voltado para a fonte, sem intermediários. Aí entra uma estratégia de empoderamento que temos para manter um ambiente de criatividade e de liberdade, onde se pode realizar coisas novas, mas de forma prática. Aqui, não se pode pensar durante uma semana para produzir 15 minutos. Nosso ideal é sair, produzir, editar e botar no ar.
UnB AGÊNCIA - Quais são as metas para o segundo ano da tevê universitária?
BULCÃO - Em 2008, pretendemos consolidar a emissora, consolidar mecanismos de financiamento e partir para uma tevê aberta, já que hoje o canal só é visto por quem é assinante da Net - recentemente, também disponibilizamos o sinal pela internet. Outra meta é estabelecer uma grade horária. Hoje, apostamos num mosaico, com alternâncias radicais de programação. Antes que os telespectadores mudem de canal, nós mudamos. Falamos de arte, depois de cachorro e, em seguida, de tecnologia. Isso é mais difícil, porque não há muita referência por perto. Agora, o objetivo máximo deste ano é conseguir um canal digital. Já temos uma solicitação em consignação encaminhada através da antiga Radiobras. Esse canal culminaria em outras iniciativas que já estamos desenvolvendo para não apenas estudar esse novo universo da interatividade, mas utilizar essa interatividade e exercitá-la principalmente em projetos de ensino a distância. Essa é a grande vocação de uma tevê como a nossa.
UnB AGÊNCIA - Como a UnB TV se localiza em relação às outras televisões universitárias no Brasil?
BULCÃO - Em São Paulo, várias universidades dividem a grade de programação. Isso nem sempre é satisfatório. Prova disso é que a tevê do Rio de Janeiro reviu esse modelo. Um dos diferencias da UnB TV é que estamos sozinhos. Isso permite uma unidade maior da programação, mas também representa menos investimentos. Não é que estejamos fechados a parcerias com outras universidades. Já batemos à porta de outras instituições, mas a resposta não foi muito positiva. Por isso, tivemos de nos voltar pros nossos próprios esforços.
UnB AGÊNCIA - Em meio a uma competição entre peixes grandes, como uma tevê universitária pode se destacar?
BULCÃO - Nunca foi tão fácil produzir mensagens, mas nunca foi tão difícil fazer o público recebê-las. A questão é como fazer uma televisão competitiva, não para lutar pela audiência, mas pela atenção. Se você pudesse fazer um programa de tevê pertinente à platéia e capaz de disputar a atenção das pessoas, que programa você faria? De que serve fazer um reality show dentro de uma quitinete ou um programa de pegadinhas universitárias? Isso não interessa. A questão é como fazer programas de interesse que disputem a atenção nas condições que a gente tem. O importante é saber que não temos condições de competir por audiência. O que podemos fazer é roubar cinco minutos da atenção dos espectadores das outras televisões.
Foto: Rodrigo Dalcin/ UnB Agência






