"É uma escalada", diz Leonardo Sakamoto sobre ameaças na internet
O cenário político brasileiro de 2014, marcado pela polarização entre PT e PSDB nas eleições presidenciais, protestos espalhados pelas ruas de todo o país e ânimos exaltados na internet, levou o jornalista e cientista político a pesquisar sobre o comportamento radical das pessoas na rede.
Atualizado em 13/06/2016 às 13:06, por
Alana Rodrigues*.
Os estudos, também baseados na temporada que passou como pesquisador visitante no departamento de política da New School, em Nova York, deram vida ao livro "O que eu aprendi sendo xingado na internet".
Crédito:Divulgação Livro ensina a lidar com mensagens de ódio na internet
Sakamoto usa a experiência adquirida com os diversos ataques recebidos para traçar uma reflexão sobre o ódio e a intolerância nas redes sociais e fazer uma espécie de guia, com dicas para que leitores não compartilhem mentiras e difamações. Alguns dos escritos, publicados inicialmente em seu blog, serviram de termômetro para avaliar a recepção do público e seguir uma linguagem leve ao longo das 158 páginas da obra. "Acho que falta conteúdo que traduza esses conceitos sobre intolerância, ódio, debate público, para a população em geral", avalia.
As coações contra o jornalista se intensificaram em janeiro deste ano, quando o jornal mineiro Edição do Brasil publicou uma entrevista falsa, na qual o jornalista teria dito que os aposentados são “inúteis à sociedade”. Apesar do veículo assumir que o conteúdo era falso, a publicação ajudou a aumentar o ódio por ele e resultou até em ameaças de morte. Sakamoto também foi acusado de receber dinheiro do governo para criticar opositores. Uma página na internet afirmava que sua ONG, Repórter Brasil, teria recebido "mais de R$ 1 milhão por ano para puxar o saco de Dilma".
O jornalista observa que quem escreve sobre direitos humanos tem de estar preparado para receber críticas. "Você está discutindo, colocando em xeque determinados preconceitos que as pessoas têm cristalizados. É uma tentativa de provocar um processo de reeducação, de desconstruir e reconstruir algo. E nem todo mundo aceita que alguém questione seu ponto de vista ou tente fomentar uma nova reflexão".
Sakamoto explica que aprende a superar cada xingamento, como se ganhasse uma capa de proteção. Assim, se a violência seguinte for igual à anterior, não doerá tanto. “É uma escalada. Ninguém começa fazendo ameaça de morte. E as pessoas percebem quando você não se importa com determinadas coisas e parte para ataques cada vez mais violentos”. Crédito:Reprodução
Obra traz experiência de Sakamoto com haters
Ele alerta para as diferentes manifestações agressivas na rede. "Uma coisa é o ódio difuso, espalhado de forma aberta. Quando é feito de forma canalizada, que tem um movimento por trás, seja com objetivo político, seja socialeconômico porque a empresa ou um grupo político não concorda com aquilo que o jornalista está falando é extremamente preocupante".
"A gente pensa nas ameaças, ameaças de morte, nos processos judiciais ou na pressão via governos. Só que existe, no submundo da internet, correndo no esgoto da rede mundial de computadores, formas que colocam contra a parede formas de impedir o trabalho do jornalista, de colocar ele em situação de vulnerabilidade. Acontece com vários colegas de profissão. E é por isso que temos que ficar de olho", acrescenta.
Alternativas
Para o cientista político, as pessoas deveriam ser educadas, desde o ensino fundamental, a saber ler conteúdo de mídia e atuar nela. Além disso, entender que uma reportagem bem apurada deve ter mais credibilidade do que uma notícia falsa circulada na forma de um meme ou de mensagens no WhatsApp.
Uma das atitudes que Sakamoto recomenda ao ser xingado na internet é não entrar em pânico. Ele sugere a tentativa de travar um diálogo. "Não responda na mesma moeda, porque muitas vezes a pessoa não te conhece e se baseia numa informação que você sabe que pode gerar aquela atitude", explica. "As pessoas na rede não são avatares sem coração. Devem ser respeitadas e ouvidas", pondera.
O autor também lembra que todos são responsáveis por aquilo que compartilham. "Um like num texto não é inofensivo. Se você dá um like numa notícia de uma menina que acaba de ser estuprada por mais de trinta homens, você está apoiando aquilo. Há condenações nesse sentido", alerta.
O jornalista acredita que a sociedade vive a adolescência da internet. "Acho que em breve vamos aprender a lidar com instrumentos de comunicação em tempo real que a internet nos permite de uma forma um pouco mais saudável e racional do que nesse momento que vivemos hoje", completa.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves.
Crédito:Divulgação Livro ensina a lidar com mensagens de ódio na internet
Sakamoto usa a experiência adquirida com os diversos ataques recebidos para traçar uma reflexão sobre o ódio e a intolerância nas redes sociais e fazer uma espécie de guia, com dicas para que leitores não compartilhem mentiras e difamações. Alguns dos escritos, publicados inicialmente em seu blog, serviram de termômetro para avaliar a recepção do público e seguir uma linguagem leve ao longo das 158 páginas da obra. "Acho que falta conteúdo que traduza esses conceitos sobre intolerância, ódio, debate público, para a população em geral", avalia.
As coações contra o jornalista se intensificaram em janeiro deste ano, quando o jornal mineiro Edição do Brasil publicou uma entrevista falsa, na qual o jornalista teria dito que os aposentados são “inúteis à sociedade”. Apesar do veículo assumir que o conteúdo era falso, a publicação ajudou a aumentar o ódio por ele e resultou até em ameaças de morte. Sakamoto também foi acusado de receber dinheiro do governo para criticar opositores. Uma página na internet afirmava que sua ONG, Repórter Brasil, teria recebido "mais de R$ 1 milhão por ano para puxar o saco de Dilma".
O jornalista observa que quem escreve sobre direitos humanos tem de estar preparado para receber críticas. "Você está discutindo, colocando em xeque determinados preconceitos que as pessoas têm cristalizados. É uma tentativa de provocar um processo de reeducação, de desconstruir e reconstruir algo. E nem todo mundo aceita que alguém questione seu ponto de vista ou tente fomentar uma nova reflexão".
Sakamoto explica que aprende a superar cada xingamento, como se ganhasse uma capa de proteção. Assim, se a violência seguinte for igual à anterior, não doerá tanto. “É uma escalada. Ninguém começa fazendo ameaça de morte. E as pessoas percebem quando você não se importa com determinadas coisas e parte para ataques cada vez mais violentos”. Crédito:Reprodução
Obra traz experiência de Sakamoto com haters Ele alerta para as diferentes manifestações agressivas na rede. "Uma coisa é o ódio difuso, espalhado de forma aberta. Quando é feito de forma canalizada, que tem um movimento por trás, seja com objetivo político, seja socialeconômico porque a empresa ou um grupo político não concorda com aquilo que o jornalista está falando é extremamente preocupante".
"A gente pensa nas ameaças, ameaças de morte, nos processos judiciais ou na pressão via governos. Só que existe, no submundo da internet, correndo no esgoto da rede mundial de computadores, formas que colocam contra a parede formas de impedir o trabalho do jornalista, de colocar ele em situação de vulnerabilidade. Acontece com vários colegas de profissão. E é por isso que temos que ficar de olho", acrescenta.
Alternativas
Para o cientista político, as pessoas deveriam ser educadas, desde o ensino fundamental, a saber ler conteúdo de mídia e atuar nela. Além disso, entender que uma reportagem bem apurada deve ter mais credibilidade do que uma notícia falsa circulada na forma de um meme ou de mensagens no WhatsApp.
Uma das atitudes que Sakamoto recomenda ao ser xingado na internet é não entrar em pânico. Ele sugere a tentativa de travar um diálogo. "Não responda na mesma moeda, porque muitas vezes a pessoa não te conhece e se baseia numa informação que você sabe que pode gerar aquela atitude", explica. "As pessoas na rede não são avatares sem coração. Devem ser respeitadas e ouvidas", pondera.
O autor também lembra que todos são responsáveis por aquilo que compartilham. "Um like num texto não é inofensivo. Se você dá um like numa notícia de uma menina que acaba de ser estuprada por mais de trinta homens, você está apoiando aquilo. Há condenações nesse sentido", alerta.
O jornalista acredita que a sociedade vive a adolescência da internet. "Acho que em breve vamos aprender a lidar com instrumentos de comunicação em tempo real que a internet nos permite de uma forma um pouco mais saudável e racional do que nesse momento que vivemos hoje", completa.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves.





