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"É combatendo a impunidade que a realidade muda", diz Eliane Brum, de Época

"É combatendo a impunidade que a realidade muda", diz Eliane Brum, de Época

Atualizado em 09/03/2009 às 18:03, por Eduardo Neco/Redação Portal IMPRENSA.

"É combatendo a impunidade que a realidade muda", diz Eliane Brum, de Época

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Quem já teve a oportunidade de ler uma reportagem de Eliane Brum não se supreende ao saber que a jornalista levou mais de trinta prêmios para casa. Caso você tenha a acompanhado de perto no ano passado, tampouco esboçará surpresa ao saber que a jornalista é uma das 13 premiadas pelo Troféu Mulher IMPRENSA. A repórter especial da revista Época garantiu a vitória na categoria "Repórter de Revista" com mais de 26% dos votos.

Divulgação
Eliane Brum
O modo como as pautas se desenrolam nas mãos de Eliane justifica o prestígio que seus vinte anos de carreria lhe trouxeram. A abordagem da repórter faz dos atores sociais das matérias personagens de carne e osso, gente com sobrenome, apelido, time de futebol e prato predileto.

Fato: ao estudar uma pauta, Eliane troca o vocabulário frio da análise jornalística imparcial por algo mais caloroso e verdadeiro. Dispensa o que os manuais de redação chamam de "gancho" e procura um motivo para entrevistar os Josés e as Marias do Brasil. E encontra. Eliane não vê perigo em transitar em lugares desconhecidos e busca sair da zona de conforto em que se instalaram milhares de profissionais da àrea que ruminam o que há de entediante na profissão pela falta de gana.

Ao Portal IMPRENSA, Eliane Brum declara que combater a impunidade é o caminho certo para acabar com as desigualdades e discriminação na profissão de jornalista. Fala ainda sobre as pautas especiais de 2008, o convívio com a morte anunciada de uma de suas fontes e de experiências que justificam cada um dos prêmios conquistados e provam de forma clara porque Eliane Brum é umas das melhores repórteres do País.

Portal IMPRENSA - Existe algum estigma disseminado pelo retrógrado pensamento machista que ainda dificulta o avanço das mulheres no jornalismo?

Eliane Brum - Não conheço a realidade das redações do Brasil inteiro, que é bem grande e tem de tudo, como a gente sabe. Nas redações de São Paulo e Porto Alegre, que foram os dois lugares onde trabalhei, acredito que não há incompatibilidade entre ser mulher e trabalhar numa redação. É claro, sempre pode haver casos isolados. Mas, no geral, as redações estão cheias de mulheres, atuando como repórteres e editoras. Não tenho nenhuma estatística, mas numa análise literalmente visual, me parece que as mulheres são maioria. Por outro lado, o que também é fácil constatar, é muito raro ver mulheres em cargos de direção de redação em jornais e revistas. As mulheres, em geral, só são diretoras de redação nas chamadas revistas femininas ou de celebridades, uma reserva de mercado que também acho esquisita. Acho que aí há um caminho a ser percorrido, ainda.

I MPRENSA - Apesar dos avanços em relação aos direitos das mulheres no mercado de trabalho, ainda existe desigualdade salarial - quando a mulher ocupa a mesma função de um homem - e ainda é grande a incidência de casos de assédio moral. Você acredita na mudança desse panorama?

Eliane - Acredito que sim. Vai depender muito da coragem das mulheres de denunciar eventuais casos de assédio moral. É combatendo a impunidade que a realidade muda. Hoje a Justiça tem sido sensível a esse tipo de caso, e as pessoas passaram a temer processos de assédio moral. Com relação à desigualdade salarial, não conheço as estatísticas. Nos lugares onde trabalhei, não constatei esse tipo de diferença no salário de homens e mulheres.

IMPRENSA - Hoje, as redações abrigam muitas mulheres e, em muitos casos, o número supera o de homens. Na sua opinião, o que explica essa "invasão" das redações por parte das mulheres?

Eliane - Não sei. Há mais mulheres em quase todos os lugares, eu acho. E nos espaços onde antes eram raridades ou vetadas, como Forças Armadas, arbitragem de futebol, delegacias de polícia, elas também estão chegando.

IMPRENSA - Alguns acham que prêmios como o Mulher IMPRENSA são provas da desigualdae de gênero, machismo ou feminismo. Como você vê essa afirmação? Na sua opinião, dentro deste contexto, qual a importância do prêmio?

Eliane - Eu acho que é uma homenagem bacana. Em medidas históricas, à ascensão da mulher ao mercado de trabalho é uma conquista muito recente. Nesse sentido, o prêmio é o reconhecimento de uma mudança importante. Pessoalmente, estou muito feliz com o reconhecimento do meu trabalho, com o fato de que colegas votaram em mim porque acham minhas reportagens relevantes.

IMPRENSA - O Mulher Imprensa reconhece os trabalhos realizados no ano anterior à premiação. Na sua opinião, qual foi sua grande pauta no ano passado ?

Eliane - O ano de 2008 foi um ano muito rico para mim, porque fiz muitas reportagens com temáticas diferentes, que me exigiram superar limites e impuseram dificuldades novas. E lancei o livro - "O Olho da Rua" (Globo) - com dez grandes reportagens e dez novos textos refletindo sobre cada uma delas, contando dos meus impasses, descobertas e também dos meus erros.

Como jornalista (e como gente) eu sempre tento sair da zona de conforto, para que a vida fique mais instigante. O ano passado foi bastante rico nesse sentido especialmente por três reportagens mais viscerais. A primeira foi uma experiência num retiro vipássana, em que fiquei dez dias sem falar, 120 horas sem me mexer. Foi publicada com o título "O Inimigo Sou Eu". Em seguida, fiz uma matéria muito dura, que teve um grande custo pessoal, que foi "Suicídio.com". Nela, contava a morte de Yoñlu, um adolescente gaúcho que se suicidou com ajuda e testemunho de grupos na internet.

Mas o trabalho mais impactante para mim foi a reportagem sobre a morte, publicada na Época em duas retrancas: "A Enfermaria Entre a Vida e a Morte" e "A Mulher que Alimentava". Para fazer essa reportagem eu acompanhei quase que diariamente os últimos quatro meses de vida de uma mulher comum, mas extraordinária, chamada Alice de Oliveira Souza. Ela tinha um câncer nas vias biliares, fora da possibilidade de cura. Também acompanhei a rotina da Enfermaria de Cuidados Paliativos do Hospital do Servidor Público Estadual, onde tive contatos com pacientes e profissionais muito especiais.

Como vivemos a morte, hoje, e como Ailce viveu a morte dela, eram os temas da minha reportagem. Para realizá-la, tive de entrar em contato com minha própria forma de lidar com a morte, que foi profundamente alterada. E, depois, com a dor de perder Ailce. Sou profundamente grata a ela pelo muito que me ensinou e por ter me dado a maior prova de confiança que já recebi de alguém: Ailce permitiu que eu testemunhasse o fim da vida dela e contasse uma história que ela jamais leria.

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