E agora? Quem latiu primeiro?
E agora? Quem latiu primeiro?
Atualizado em 26/05/2010 às 11:05, por
Silvia Dutra.
Um advogado e ex-promotor da cidade onde eu moro, Weston, na Flórida, está lutando para salvar da pena de morte um cliente muito especial e querido: seu animal de estimação, uma cachorra Labrador de nove anos chamada Gigi.
Desde o dia 1º de Maio, Gigi está presa no canil do condado de Broward e só não recebeu a injeção letal ainda porque seu dono pagou 500 dólares para entrar com um apelo no sistema de Justiça. O crime de Gigi foi ter matado Bella, um Yorkshire Terrier de sete anos, com uma dentada no pescoço. Os dois animais usavam coleiras no momento da briga e três testemunhas têm versões diferentes sobre o incidente.
Brian Tamburro, babá de Bella -- existe isso aqui, acredite se quiser -- passeava com a cachorrinha quando encontraram Gigi e seu dono, Tom Austin. Tamburro diz que Bella foi atacada por Gigi sem qualquer provocação e que Austin nada fez até ser tarde demais.
Austin diz que Bella latiu e chegou perto demais de Gigi, numa atitude de confronto, e que sua cachorra agiu em legítima defesa. Outra testemunha, o vizinho José Valest, confirma que foi Bella quem começou a confusão com latidos irritantes e que a reação de Gigi foi rápida demais para qualquer dos cuidadores ter tempo de evitar a tragédia.
A carrocinha foi chamada e Gigi, imediatamente, foi levada à prisão. Isso porque no condado de Broward existe essa lei -- aprovada e vigorando desde Maio de 2008 -- de que qualquer animal que machuque seriamente um humano ou que mate outro animal deve ser sacrificado. Acontece que leis do estado da Flórida permitem até duas ofensas, antes de um animal ser condenado à morte, e é nessa dicotomia entre leis semelhantes, com punição de severidades diferentes, que o advogado Austin está se pegando para tentar salvar o pescoço de Gigi.
Os proprietários de Bella, Brenda e Brian Gato (eu não estou inventando, o sobrenome deles é Gato mesmo) estão pedindo a pena de morte depois de saber por outros vizinhos dos antecedentes criminais de Gigi. No passado, ela já teria tido outros confrontos com animais menores. Brenda Gato diz que Bella era seu "bebê" e que ela está de luto. Ela inclusive mandou fazer uma tatuagem da finada em seu calcanhar, porque era onde Bella mais gostava de ficar enquanto a seguia pela casa.
Tom Austin contesta as acusações, dizendo que Gigi nunca foi violenta e que sempre conviveu pacificamente com seu filho, gatos (não os proprietários de Bella), coelhos e as crianças da vizinhança. Ele diz estar vivendo uma situação kafkaniana, sem trocadilhos. Prometeu que vai comprar uma focinheira para os passeios de Gigi, caso o juiz dê a ela uma segunda chance.
Lisa Mendhein, porta voz do Serviço de Controle de Zoonoses do condado de Broward, disse não ter o número exato de animais que já foram sacrificados por conta dessa lei, mas informa que os arquivos da entidade mostram que 20 apelos judiciais semelhantes já foram feitos e somente em dois casos a pena de morte não foi aplicada.
Pode parecer brincadeira isso tudo, mas nos Estados Unidos leis envolvendo animais são levadas a sério, apesar das decisões não serem fáceis e todo o assunto gerar muita controvérsia. Quando a lei de Broward foi aprovada, muitos residentes a consideraram um passo importante para proteger pessoas e animais de estimação de proprietários irresponsáveis, que criam ou saem às ruas com bichos grandes, agressivos, sem coleiras, focinheiras ou instrumentos de contenção.
Outros questionaram o fato de uma lei de um condado ser mais rigorosa do que a lei do Estado ao qual pertence. Muitos desafiaram também a validade de aplicar o que é considerado "justo e razoável" entre humanos para conceitos de Justiça -- como o que constitui provocação, ou legítima defesa -- em casos envolvendo animais.
Na época, um conselho de Juízes do condado de Broward decidiu manter a lei, apesar de toda a polêmica. Seis meses depois Mercedes, uma cachorra mestiça de Pit Bull, invadiu o quintal de uma casa em Fort Lauderdale e matou um gato que dormia sossegado na varanda. Seu destino seria a eutanásia, sem choro nem vela, mas o proprietário contratou o advogado Jason Wandner que entrou com um processo na Justiça tentando reverter a lei de Broward. O processo corre até hoje, entre apelos e recursos dos dois lados.
Mercedes vive desde o incidente num hospital para animais, esperando a decisão da Justiça. Quanto à Gigi, seu destino deve ser decidido nos próximos dias. Se condenada seu proprietário promete levar o caso para instâncias judiciais superiores. Populares daqui de Broward já iniciaram um movimento arrecadando assinaturas numa petição pedindo a absolvição da cachorra. Até uma página no Facebook foi criada para as pessoas deixarem mensagens sobre o caso. Parece piada, mas o destino de Gigi depende agora de qual advogado vai demonstrar maior habilidade pra convencer o juiz do seguinte fato: quem latiu primeiro?
Se o juiz aceitar os depoimentos de Tom Austin e do vizinho, José Valest, de que Bella iniciou a confusão, Gigi sairá livre, porque foi provocada. Eu chego a pensar que ela pode até ter sido xingada na linguagem canina, com ofensas como "seu pai era um cachorro". Ou ainda pior: "sua mãe não passava de uma cadela". Se esse foi o caso, quem poderia condená-la de ter reagido?
Se o juiz pender pro lado dos Gatos e aceitar as alegações de que Gigi tem um passado que não a recomenda, Tom Austin vai ter uma longa e custosa batalha pela frente. Como eu já disse em colunas anteriores, leis é o que não faltam nos Estados Unidos. Já bom senso parece estar em falta. Depois dessa chego à conclusão de que além de ter vizinhos que vivem em Denial eu mesma vivo no "Absurdistão".

| Reprodução |
| Bella |
Brian Tamburro, babá de Bella -- existe isso aqui, acredite se quiser -- passeava com a cachorrinha quando encontraram Gigi e seu dono, Tom Austin. Tamburro diz que Bella foi atacada por Gigi sem qualquer provocação e que Austin nada fez até ser tarde demais.
Austin diz que Bella latiu e chegou perto demais de Gigi, numa atitude de confronto, e que sua cachorra agiu em legítima defesa. Outra testemunha, o vizinho José Valest, confirma que foi Bella quem começou a confusão com latidos irritantes e que a reação de Gigi foi rápida demais para qualquer dos cuidadores ter tempo de evitar a tragédia.
| Rep . | |
| Gigi |
Os proprietários de Bella, Brenda e Brian Gato (eu não estou inventando, o sobrenome deles é Gato mesmo) estão pedindo a pena de morte depois de saber por outros vizinhos dos antecedentes criminais de Gigi. No passado, ela já teria tido outros confrontos com animais menores. Brenda Gato diz que Bella era seu "bebê" e que ela está de luto. Ela inclusive mandou fazer uma tatuagem da finada em seu calcanhar, porque era onde Bella mais gostava de ficar enquanto a seguia pela casa.
Tom Austin contesta as acusações, dizendo que Gigi nunca foi violenta e que sempre conviveu pacificamente com seu filho, gatos (não os proprietários de Bella), coelhos e as crianças da vizinhança. Ele diz estar vivendo uma situação kafkaniana, sem trocadilhos. Prometeu que vai comprar uma focinheira para os passeios de Gigi, caso o juiz dê a ela uma segunda chance.
Lisa Mendhein, porta voz do Serviço de Controle de Zoonoses do condado de Broward, disse não ter o número exato de animais que já foram sacrificados por conta dessa lei, mas informa que os arquivos da entidade mostram que 20 apelos judiciais semelhantes já foram feitos e somente em dois casos a pena de morte não foi aplicada.
Pode parecer brincadeira isso tudo, mas nos Estados Unidos leis envolvendo animais são levadas a sério, apesar das decisões não serem fáceis e todo o assunto gerar muita controvérsia. Quando a lei de Broward foi aprovada, muitos residentes a consideraram um passo importante para proteger pessoas e animais de estimação de proprietários irresponsáveis, que criam ou saem às ruas com bichos grandes, agressivos, sem coleiras, focinheiras ou instrumentos de contenção.
Outros questionaram o fato de uma lei de um condado ser mais rigorosa do que a lei do Estado ao qual pertence. Muitos desafiaram também a validade de aplicar o que é considerado "justo e razoável" entre humanos para conceitos de Justiça -- como o que constitui provocação, ou legítima defesa -- em casos envolvendo animais.
Na época, um conselho de Juízes do condado de Broward decidiu manter a lei, apesar de toda a polêmica. Seis meses depois Mercedes, uma cachorra mestiça de Pit Bull, invadiu o quintal de uma casa em Fort Lauderdale e matou um gato que dormia sossegado na varanda. Seu destino seria a eutanásia, sem choro nem vela, mas o proprietário contratou o advogado Jason Wandner que entrou com um processo na Justiça tentando reverter a lei de Broward. O processo corre até hoje, entre apelos e recursos dos dois lados.
Mercedes vive desde o incidente num hospital para animais, esperando a decisão da Justiça. Quanto à Gigi, seu destino deve ser decidido nos próximos dias. Se condenada seu proprietário promete levar o caso para instâncias judiciais superiores. Populares daqui de Broward já iniciaram um movimento arrecadando assinaturas numa petição pedindo a absolvição da cachorra. Até uma página no Facebook foi criada para as pessoas deixarem mensagens sobre o caso. Parece piada, mas o destino de Gigi depende agora de qual advogado vai demonstrar maior habilidade pra convencer o juiz do seguinte fato: quem latiu primeiro?
Se o juiz aceitar os depoimentos de Tom Austin e do vizinho, José Valest, de que Bella iniciou a confusão, Gigi sairá livre, porque foi provocada. Eu chego a pensar que ela pode até ter sido xingada na linguagem canina, com ofensas como "seu pai era um cachorro". Ou ainda pior: "sua mãe não passava de uma cadela". Se esse foi o caso, quem poderia condená-la de ter reagido?
Se o juiz pender pro lado dos Gatos e aceitar as alegações de que Gigi tem um passado que não a recomenda, Tom Austin vai ter uma longa e custosa batalha pela frente. Como eu já disse em colunas anteriores, leis é o que não faltam nos Estados Unidos. Já bom senso parece estar em falta. Depois dessa chego à conclusão de que além de ter vizinhos que vivem em Denial eu mesma vivo no "Absurdistão".






