“Dulce Carneiro – O signo enigmático da fotografia moderna no Brasil” por Ciça Carboni

O talento, o trabalho e o traquejo social de Dulce, a conduziram ao mercado fotográfico.

Atualizado em 21/02/2023 às 10:02, por Ciça Carboni.

Opinião

A fotografia moderna brasileira é repleta de silêncios de mulheres. O silêncio tem diminuído com pesquisas e publicações que revelam nomes de fotógrafas e seus valiosos olhares e trabalhos. Como uma linguagem do mundo moderno, a fotografia tem em seu contrato, um acordo com a permanência, ao mesmo tempo em que depende do efêmero, do clique, para existir, guardar e fazer durar, em tese. Os silêncios ainda existem. Muitas fotógrafas permanecem ocultadas pelo tempo e pelas condições que nele insistem em silenciar. Na ausência de um reconhecimento em vida, os acervos deixados por essas fotógrafas ficam responsáveis por quebrar o silêncio de suas autoras. Às vezes, nem isso.


Dulce Carneiro, natural de Atibaia, autodidata na fotografia, nascida numa família de classe média da cidade, lançou um livro de poesia em 1953 e foi apadrinhada por Oswald de Andrade, já no final da vida do modernista. Quando chega em São Paulo, na década de 50, ingressa no Fotoclube Bandeirantes. A atividade fotoclubista ainda não era decadente, como seria anos depois. Lá, Dulce fotografa e é fotografada além de perguntar, no boletim do Fotoclube, em 1956: fotografia é arte? É importante lembrar que a fotografia no Brasil, nesse momento, não havia adentrado os portais sagrados dos museus mais importantes do país.



Crédito:Reprodução Foto de Dulce Carneiro, publicada no boletim do Fotoclube Bandeirantes em 1960






O talento, o trabalho e o traquejo social de Dulce, a conduziram ao mercado fotográfico. Fotografias mais poéticas no começo, enveredaram para retratos de industriais, fotografias de arquitetura e de grandes obras, algo incomum para uma mulher fazer nesse momento. Enquanto isso suas contemporâneas, na maioria imigrantes, estavam envolvidas com fotojornalismo, causas indígenas e de gênero, criando agências de fotógrafos, produzindo grandes reportagens em veículos impressos, eram militantes da fotografia e através da fotografia. Mas Dulce não. Ela fotografou obras de Burle Marx e Oscar Niemayer, a construção do Centro Cultural São Paulo, a casa de Flavio de Carvalho, em Valinhos-SP, sempre com a presença de assistentes e equipamentos de ponta. Costurava seus próprios cases de equipamentos, assim como a maioria das próprias roupas e claro, luvas de pelica para manusear suas câmeras fotográficas. Participou de bienais e trienais de fotografia no MAM-SP, além de exposições individuais.


Até que um dia, o silêncio se fez definitivo. No final da década de 90, sem uma data precisa, Dulce entregou seus equipamentos, destruiu todo o acervo de fotografias que pertencia a ela, vendeu seu apartamento em São Paulo e se mudou para São Sebastião, no litoral norte. E nunca mais fotografou. Dos quase 20 anos que morou na cidade duas ou três pessoas sabiam que Dulce foi artista. Sem fotografias, nem no mercado fotográfico Dulce era lembrada, um esquecimento desejado, devido aquilo que ela chamou de vulgarização da fotografia.


Com a chegada dos equipamentos digitais, o mercado é acessado por mais profissionais e liderado, protagonizado e dominado por homens, mais uma vez. Nenhuma fotógrafa em qualquer área teve vida fácil no caminho do reconhecimento artístico e profissional. Dulce não foi a única que abandonou a fotografia ou que desapareceu com sua obra, porque o silêncio não vem por acaso. Vem do desejo de silenciar, de fazer de conta que nunca existiram. Em vista dessas práticas, Dulce faz um gesto firme de destruição de seu trabalho, como quem diz, eu silencio por minha própria vontade. Esse é o meu acordo.


Crédito:Reprodução Dulce Carneiro, na década de 90, em raro retrato


Mas a fotografia é linguagem malandra e seu acordo moderno de reprodução tarda e vinga. É possível conhecer parte do trabalho de Dulce, restaram algumas obras com terceiros e em galeria e museus. Dulce também restou em outras pessoas, seus amigos, colegas de trabalho, poucos familiares, assistentes, desse jeito que transbordamos em quem nos cerca. E foram muitas pessoas. Na maioria delas a marca de Dulce é indelével. Intensa, talentosa, direta, exigente, elegante, generosa. Afinal fotografias são marcas, signos, mas as pessoas também não são?


Crédito:Arquivo Pessoal

é jornalista, documentarista e professora do Centro Universitário das Américas – FAM. Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e autora do livro - Quem sabia já morreu.