Dorina e Silvia - mulheres extraordinárias
Dorina e Silvia - mulheres extraordinárias
Atualizado em 02/09/2010 às 15:09, por
Silvia Dutra.
Desde domingo, o Brasil está um pouco mais pobre: morreu Dorina Nowill, aos 91 anos, 64 deles dedicados a um trabalho admirável para incluir os deficientes visuais na sociedade brasileira.
Dizer que ela foi uma mulher extraordinária é chover no molhado. E embora Dorina Nowill mereça todas as homenagens, vou ocupar esse espaço para falar de uma outra coisa triste, além da morte dela: as edições de livros e publicações em braille no Brasil continuam escassas. E os deficientes visuais -- especialmente crianças e jovens -- não têm muitas opções de autores e títulos, embora existam no país mais de 16 milhões deles, segundo dados coletados pelo IBGE no censo de 2000.
Se existem tantos brasileiros cegos ou com visão subnormal, alguém aí sabe me dizer por que faltam livros e revistas em braille? Por que as editoras não investem nesse segmento?
E já que estamos falando de inclusão, cidadania e mulheres extraordinárias, vou falar de uma outra brasileira que, apesar de não ser cega, está há anos fazendo um trabalho maravilhoso, totalmente voluntário, em benefício dos deficientes visuais de nosso país: Silvia Valentini. Paulistana, artista plástica, paisagista, perseguindo um doutorado na USP sobre como os deficientes visuais percebem o espaço urbano, Silvia é, como Dorina, um ser humano raro. Inteligente, determinada a mudar uma realidade de exclusão e preconceitos.
Tudo começou em 1994, quando ela virou voluntária na audioteca Clube da Boa Leitura, no Rio de Janeiro. Lá aprendeu braille e tomou consciência dos desafios enfrentados por cegos e principalmente surdocegos. Percebeu uma escassez tremenda de material em que pudessem ler e aprender. Um cego ainda pode tomar consciência do que acontece no mundo através da audição, pelo rádio ou televisão. Mas alguém que além de cego seja também surdo só pode aprender através do braille.
Silvia resolveu criar um cadastro e promover o cruzamento de informações dessas pessoas. Nascia o projeto "Ponto a Ponto". O objetivo inicial era aproximar os deficientes visuais, incentivando a convivência.
Amizades, colaborações profissionais, reencontros, descobertas de atividades e hobbies e até cinco casamentos nasceram graças a sua iniciativa. Seus arquivos guardam histórias tocantes, como a de um associado português que através do projeto fez amizade com outros cegos de várias partes do mundo e em 1999, aos 50 anos, casou-se com uma brasileira e mudou para o Brasil. Outra sócia, de 70 anos, encontrou na relação de endereços do Ponto a Ponto uma amiga de infância que julgava falecida.
Outros associados brasileiros aprenderam Espanhol trocando cartas com deficientes visuais da Espanha, Uruguai, Argentina e Cuba. Muitos voltaram a estudar, ou descobriram o gosto pelo conhecimento e por atividades até então desconhecidas, como a Yoga, Ciências, ou as palavras cruzadas. Há participantes em países distantes como o Egito, Portugal, Kuala Lumpur, China, India, Marrocos, Israel. A comunicação acontece em Português, Inglês e Espanhol, já que muitos dos inscritos são poliglotas. O que começou pequeno reúne hoje mais de 400 associados, em 40 países. É ou não é um trabalho lindo?
Muitos participantes, entusiasmados com a descoberta de novos horizontes, escreviam diretamente para Silvia, pedindo informações sobre assuntos específicos. Ela coletava material, transcrevia tudo para o braille numa máquina manual de sua propriedade e mandava pelo correio. Fez isso com mais de 300 artigos, sobre variados assuntos.
A procura por esses artigos era tanta que em 2006 ela decidiu expandir as atividades e criar o Boletim Ponto a Ponto, uma revista mensal, em braille, com assuntos atuais. Conseguiu o patrocínio do programa Petrobrás Cultural e lançou em setembro de 2008 a primeira edição do periódico. Com a ajuda da filha, Juliana, seleciona em jornais e revistas assuntos que entrarão em cada edição. O espaço é exíguo. Cada folha impressa ao ser transcrita para o braille ocupa 4 vezes mais espaço, por isso a edição tem que ser cuidadosa, trazendo assuntos que sejam interessantes para um grande número de pessoas.
Silvia diz que "a escrita braille é um encantamento, uma escultura. Uma folha escrita em braille passa a ser uma peça tridimensional, que faz superar limites". Depois de montado o Boletim segue para a Fundação Dorina Nowill, que faz a transcrição dos artigos selecionados para o braille, a diagramação, revisão e impressão. Cada exemplar tem 30 folhas impressas, frente e verso, e um artigo ilustrado em relevo. O sumário e o editorial são escritos em tinta e em braille, para despertar o interesse de quem enxerga. Se o não deficiente visual quiser saber sobre o conteúdo do boletim Ponto a Ponto terá que pedir para um cego ler e essa situação invertida devolve a autoestima e promove a socialização entre as pessoas, diminuindo os preconceitos.
A distribuição é gratuita e feita diretamente para leitores, bibliotecas e instituições para cegos de todo o Brasil, Portugal e países de língua portuguesa na Africa. Só na cidade de São Paulo há 1.540 usuários inscritos na Biblioteca Braille do Centro Cultural São Paulo. Estima-se que cada unidade da tiragem mensal de 2 mil exemplares atinja em média 30 pessoas, um considerável universo de 60 mil deficientes que de outra maneira não teriam acesso a tantas informações. Silvia conta que embora a Petrobrás Cultural tenha renovado o patrocínio por mais um ano, ela está a procura de novos parceiros porque pretende aumentar o boletim, produzir 120 páginas a cada edição. O Boletim Ponto a Ponto tem apoio da Lei Rouanet e isenção de 100% de impostos para empresas e pessoas físicas que queiram colaborar.
Os interessados podem fazer contato com Silvia pela Caixa Postal 823 - CEP 06709-970 - Cotia - SP. Ou através do email: rato1@terra.com.br

Dizer que ela foi uma mulher extraordinária é chover no molhado. E embora Dorina Nowill mereça todas as homenagens, vou ocupar esse espaço para falar de uma outra coisa triste, além da morte dela: as edições de livros e publicações em braille no Brasil continuam escassas. E os deficientes visuais -- especialmente crianças e jovens -- não têm muitas opções de autores e títulos, embora existam no país mais de 16 milhões deles, segundo dados coletados pelo IBGE no censo de 2000.
Se existem tantos brasileiros cegos ou com visão subnormal, alguém aí sabe me dizer por que faltam livros e revistas em braille? Por que as editoras não investem nesse segmento?
E já que estamos falando de inclusão, cidadania e mulheres extraordinárias, vou falar de uma outra brasileira que, apesar de não ser cega, está há anos fazendo um trabalho maravilhoso, totalmente voluntário, em benefício dos deficientes visuais de nosso país: Silvia Valentini. Paulistana, artista plástica, paisagista, perseguindo um doutorado na USP sobre como os deficientes visuais percebem o espaço urbano, Silvia é, como Dorina, um ser humano raro. Inteligente, determinada a mudar uma realidade de exclusão e preconceitos.
Tudo começou em 1994, quando ela virou voluntária na audioteca Clube da Boa Leitura, no Rio de Janeiro. Lá aprendeu braille e tomou consciência dos desafios enfrentados por cegos e principalmente surdocegos. Percebeu uma escassez tremenda de material em que pudessem ler e aprender. Um cego ainda pode tomar consciência do que acontece no mundo através da audição, pelo rádio ou televisão. Mas alguém que além de cego seja também surdo só pode aprender através do braille.
Silvia resolveu criar um cadastro e promover o cruzamento de informações dessas pessoas. Nascia o projeto "Ponto a Ponto". O objetivo inicial era aproximar os deficientes visuais, incentivando a convivência.
Amizades, colaborações profissionais, reencontros, descobertas de atividades e hobbies e até cinco casamentos nasceram graças a sua iniciativa. Seus arquivos guardam histórias tocantes, como a de um associado português que através do projeto fez amizade com outros cegos de várias partes do mundo e em 1999, aos 50 anos, casou-se com uma brasileira e mudou para o Brasil. Outra sócia, de 70 anos, encontrou na relação de endereços do Ponto a Ponto uma amiga de infância que julgava falecida.
Outros associados brasileiros aprenderam Espanhol trocando cartas com deficientes visuais da Espanha, Uruguai, Argentina e Cuba. Muitos voltaram a estudar, ou descobriram o gosto pelo conhecimento e por atividades até então desconhecidas, como a Yoga, Ciências, ou as palavras cruzadas. Há participantes em países distantes como o Egito, Portugal, Kuala Lumpur, China, India, Marrocos, Israel. A comunicação acontece em Português, Inglês e Espanhol, já que muitos dos inscritos são poliglotas. O que começou pequeno reúne hoje mais de 400 associados, em 40 países. É ou não é um trabalho lindo?
Muitos participantes, entusiasmados com a descoberta de novos horizontes, escreviam diretamente para Silvia, pedindo informações sobre assuntos específicos. Ela coletava material, transcrevia tudo para o braille numa máquina manual de sua propriedade e mandava pelo correio. Fez isso com mais de 300 artigos, sobre variados assuntos.
A procura por esses artigos era tanta que em 2006 ela decidiu expandir as atividades e criar o Boletim Ponto a Ponto, uma revista mensal, em braille, com assuntos atuais. Conseguiu o patrocínio do programa Petrobrás Cultural e lançou em setembro de 2008 a primeira edição do periódico. Com a ajuda da filha, Juliana, seleciona em jornais e revistas assuntos que entrarão em cada edição. O espaço é exíguo. Cada folha impressa ao ser transcrita para o braille ocupa 4 vezes mais espaço, por isso a edição tem que ser cuidadosa, trazendo assuntos que sejam interessantes para um grande número de pessoas.
Silvia diz que "a escrita braille é um encantamento, uma escultura. Uma folha escrita em braille passa a ser uma peça tridimensional, que faz superar limites". Depois de montado o Boletim segue para a Fundação Dorina Nowill, que faz a transcrição dos artigos selecionados para o braille, a diagramação, revisão e impressão. Cada exemplar tem 30 folhas impressas, frente e verso, e um artigo ilustrado em relevo. O sumário e o editorial são escritos em tinta e em braille, para despertar o interesse de quem enxerga. Se o não deficiente visual quiser saber sobre o conteúdo do boletim Ponto a Ponto terá que pedir para um cego ler e essa situação invertida devolve a autoestima e promove a socialização entre as pessoas, diminuindo os preconceitos.
A distribuição é gratuita e feita diretamente para leitores, bibliotecas e instituições para cegos de todo o Brasil, Portugal e países de língua portuguesa na Africa. Só na cidade de São Paulo há 1.540 usuários inscritos na Biblioteca Braille do Centro Cultural São Paulo. Estima-se que cada unidade da tiragem mensal de 2 mil exemplares atinja em média 30 pessoas, um considerável universo de 60 mil deficientes que de outra maneira não teriam acesso a tantas informações. Silvia conta que embora a Petrobrás Cultural tenha renovado o patrocínio por mais um ano, ela está a procura de novos parceiros porque pretende aumentar o boletim, produzir 120 páginas a cada edição. O Boletim Ponto a Ponto tem apoio da Lei Rouanet e isenção de 100% de impostos para empresas e pessoas físicas que queiram colaborar.
Os interessados podem fazer contato com Silvia pela Caixa Postal 823 - CEP 06709-970 - Cotia - SP. Ou através do email: rato1@terra.com.br






