Documentário de Ernesto Rodrigues expõe censura de João Havelange a biografia

Em meio à polêmica sobre as biografias não autorizadas, o jornalista Ernesto Rodrigues lançou, durante a 37ª Mostra Internacional de Cinema,em São Paulo, o documentário "Conversa com JH”.

Atualizado em 04/11/2013 às 16:11, por Igor dos Santos*.

No filme, ele mostra como foi censurado por João Havelange, ex-presidente da Fifa (Federação Internacional de Futebol Associado), durante a produção do livro que escreveu sobre sua vida —, “Jogo Duro - A História de João Havelange”, lançado em 2007.
Crédito:Arquivo pessoal Jornalista diz que não fará obras do gênero enquanto não houver mudança na lei
Rodrigues explica que a ideia de fazer uma biografia de Havelange foi uma consequência de seu trabalho obre a vida do piloto brasileiro Ayrton Senna. O ex-empresário do atleta gostou de seu trabalho e o convidou para fazer uma biografia sobre o ex-presidente da entidade máxima do futebol.
“Eu me interessei porque ele [Havelange] era na época, e continua sendo, alguém muito importante”, conta. “A gente faz biografias não porque a pessoa é boa ou ruim, mas porque a pessoa é importante”, afirma.
O jornalista, que ouviu mais de 150 pessoas, em sete países diferentes, conta que combinou com Havelange que lhe mostraria a versão final do livro antes de sua publicação, mas que a palavra final seria a sua.
No entanto, Rodrigues diz que mostrar o livro para seu biografado foi uma experiência “traumática”, pois Havelange queria cortar muitas coisas do livro.
“Ele não queria que eu colocasse nada que tivesse a palavra de críticos, episódios que foram difíceis ou que ele foi derrotado politicamente. Era como se ele quisesse ditar a vida dele e que eu produzisse um panfleto sobre ele”, relata.
Depois disso, Rodrigues perdeu o apoio de sua editora — Objetiva —, pois a empresa ficou com receio de ser processada por causa da lei, considerada “absurda” pelo jornalista, que proíbe a publicação de biografias não autorizadas. A obra só foi publicada graças ao apoio da Record.
Os bastidores do processo de redação do livro e os encontros árduos entre biógrafo e personagem são o foco do documentário. Apesar disso, Rodrigues afirma que tem orgulho de seu livro e que o filme não é uma forma de resposta ao ex-presidente da Fifa e aos críticos, que chamaram a obra de "chapa-branca".
“Quem assiste ao documentário vê que o Havelange mentiu para mim. Ele traiu minha confiança. Eu mostrei os originais do meu livro e ele me censurou”, afirma. Rodrigues acrescenta que, mesmo diante do impasse, o ex-presidente da Fifa não o processou em razão da obra.

Desafios
O jornalista diz que o maior desafio de produzir um livro sobre a vida de alguém no Brasil é a lei que proíbe a publicação de biografias não autorizadas. Ele diz que o artigo praticamente “impossibilita” esse tipo de obra, pois inibe os autores.
“Isso é uma censura. A questão que está em jogo é a liberdade de imprensa. Essa lei absurda intimida editoras e autores a desenvolver um gênero que é importantíssimo para a história do país”, afirma.
"Procure Saber"
Sobre o grupo de artistas que se uniram contra as biografias não autorizadas e criaram o grupo "Procure Saber", o jornalista diz que lamenta profundamente que estejam do outro lado dessa história músicos como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque, pois eles têm um saldo a favor que é imensamente maior que essa polêmica.
“Espero que esse episódio da vida deles acabe rapidamente, pois são artistas muito queridos e há muita gente que realmente tem algo a esconder comemorando, pois pessoas tão prestigiadas estejam erguendo essa bandeira”, diz.
Futuro
Quando perguntado se pretende escrever biografias no futuro, Rodrigues diz que um personagem que lhe desperta interesse é o político brasileiro José Dirceu. No entanto, ele afirma que, após as experiências que teve com biografias, a primeira que considera “gratificante” e a segunda “sofrida”, ele não pretende voltar a escrever um livro do gênero tão cedo.
“Enquanto essa lei existir, não pretendo voltar [a trabalhar com isso] porque é uma situação muito intimidadora. Esse clima de cadeia e processo é muito ruim, então eu não pretendo fazer nada nesse sentido enquanto tiver esse artigo”, conclui.

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves

Assista ao trailer: