Deputado Michel Temer, presidente nacional do PMDB: "O PMDB será a segunda e a terceira via em 2006"

Deputado Michel Temer, presidente nacional do PMDB: "O PMDB será a segunda e a terceira via em 2006"

Atualizado em 18/08/2005 às 17:08, por Pedro Venceslau e Renato Barreiros.

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Ser ou não ser governo? Apoiar Lula ou arriscar-se em vôo solo em 2006? Criticar ou defender o presidente? Mais presente do que nunca na atual administração, o partido presidido pelo deputado Michel Temer vive um momento de intenso debate interno. Ao mesmo tempo que jura fidelidade absoluta ao executivo, se movimenta intensamente nos bastidores para chegar a um nome de consenso para disputar a presidência contra Lula em 2006. "Seremos a segunda e a terceira via", promete Temer. Nesta entrevista exclusiva para Portal IMPRENSA, o presidente do PMDB avalia o momento político, o trabalho da imprensa e faz planos para 2006.

Portal Imprensa- O sr. acha que a mídia está sendo mais dura com o presidente Lula do que foi com o ex -presidente Fernando Henrique?

Temer - Não acredito nisso. A mídia foi dura com todos. Eu não me lembro de um episódio em que a mídia tenha sido suave. Quando da compra de votos, a mídia bateu muito nesse assunto. Bateu até insuflada pelo PT, que não deu trégua.

Portal Imprensa- A TV Câmara, que foi montada durante sua gestão como presidente da Câmara, fez com que os parlamentares mudassem sua atitude?

Temer - Mudou. Os deputados começaram a andar mais bem vestidos, a se comportar. Quando pediam a palavra, sabiam que não estavam falando só para os deputados, mas para a televisão.

Portal Imprensa- Que conselho o Sr. daria para os deputados do baixo clero conseguirem um espaço na mídia?

Temer - Agir com muita correção e equilíbrio. Às vezes, para aparecer na mídia, a pessoa acaba produzindo fatos que visam apenas a exibição. Às vezes estes fatos não são conseqüentes, nem sérios. E a imprensa percebe isso - desde o repórter que está lá no Salão Verde até o editor. O deputado não deve sair falando só por falar para produzir fatos.

Vou contar um episódio. Numa ocasião, quando eu era constituinte, no meu primeiro mandato, em 87, o tema do dia era medidas provisórias. Então eu preparei um longo discurso, peguei um pequeno expediente, estudei o caso e fui à tribuna. Me dediquei mais de dez dias para construir um discurso de 40 minutos. Só que, no mesmo dia, uma deputada que usava trança, cortou o cabelo. Eu achava que ia aparecer com destaque, mas só saiu uma notinha. Já a trança ocupou um espaço extraordinário. Quem se atreve a fazer factóide, às vezes ganha muito mais espaço na imprensa.

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"O PMDB será a segunda via em 2006"

Portal Imprensa - Qual a importância do assessor de imprensa para um deputado?

Temer - Trocar idéias. O assessor não é um produtor de notícias, mas alguém para trocar idéias, fazer uma análise da imprensa com você. Sempre utilizei o trabalho dos assessores com esse objetivo - fazer o meio de campo para a imprensa.

Portal Imprensa- O Sr. confia no off?

Temer - Nunca tive traições. Sempre que pedi off, saiu em off. Já cheguei a conversar longamente com um jornalista e, no final, ele perguntou: "qual é a frase sua que eu devo colocar aqui"? E eu dizia.


"O erro de Lula foi fazer um governo de adesão"

Imprensa- Quando o Sr. era Presidente da Câmara costumava negar muitas entrevistas? Que tipo de entrevista o Sr. negava?

Temer - Havendo tempo eu não negava, até porque é útil dar entrevista.

Portal Imprensa - O Presidente Fernando Henrique era mais acessível ao Sr. do que o Presidente Lula?

Temer - Eu creio que sim.

Portal Imprensa- Era mais habilidoso politicamente?

Temer - Ele gostava do que fazia e gostava de conversar com parlamentares. Eu era Presidente da Câmara e sempre ia às dez horas da noite conversar com o FHC. Ele me ligava e perguntava: "o que você está fazendo? Então vem tomar um café". E eu ficava lá, conversando com ele longamente. Isso era útil. Com o Presidente Lula, eu tive pouco contato. Tod os parlamentares tiveram pouquíssimos contatos. Acho fundamental. num regime democrático, que o Presidente tenha muito contato com as instituições, com os partidos políticos, com as lideranças. A sensação que eu tenho é que ele (Lula) não gosta de conversar sozinho com parlamentar.

Portal Imprensa- O Sr acredita que o PMDB chegará fortalecido e com chances de lançar um candidato forte em 2006?

M ichel Temer - A cho que o PMDB vai ser a primeira ou a segunda via nas próximas eleições. A análise política mais correta é que PT e PSDB buscam a disputa entre si para que sejam ignoradas as demais possibilidades. Mas uma possibilidade forte é exatamente a do PMDB. A possibilidade de nós alcançarmos a presidência da República é muito grande.

Portal Imprensa- Se existe a disposição de lançar candidato próprio, não seria o momento do PMDB desembarcar do governo e começar a preparar essa candidatura?

Temer - N ós estamos preparando essa candidatura. A tese institucional do PMDB é: para lançar candidato é preciso que o partido não esteja ocupando cargos no governo. Esta foi a decisão da convenção nacional de 12 de dezembro do ano passado, quando se decidiu precisamente pelo desembarque do governo e pelo começo da preparação da candidatura própria. Mas, como você sabe, existem no PMDB aqueles que querem permanecer no governo... Só que isto não tem impedido que o partido, sob a minha presidência, procure o caminho da candidatura própria. Já existem até candidatos pré-lançados: Garotinho, Rigotto, Requião. Ele já estão no páreo. Nós temos feito algumas viagens pelo país com a presença de todos e em todos os locais que nós vamos, a base toda do PMDB é favorável à candidatura própria..

Portal Imprensa - Qual o nome mais forte no PMDB?

Temer - Eu diria que hoje, o Garotinho é o nome mais forte. Nas pesquisas ele aparece em segundo lugar. Trata-se do PMDB disputando a presidência da República. O Garotinho já foi candidato à Presidência da República, governador do Rio e ainda elegeu a esposa governadora. Mas temos também o Rigotto, que surpreendeu lá no Rio Grande do Sul, quando saiu com 2% e se elegeu governador. O Requião tem um índice altíssimo lá no Paraná. Outros governadores, como o Luís Henrique, Jarbas Vasconcelos, Marcelo Miranda também são nomes de grande prestígio.

Imprensa- Mas o partido vive uma guerra interna...

Temer - Não... no momento da prévia haverá uma disputa, embora as relações sejam politicamente cordiais. E pessoalmente cordiais entre todos os disputantes.

Portal Imprensa- O Sr. já participou e combateu vários governos. Como o Sr. avalia esse momento político do PT? É possível que o Presidente da República realmente não saiba de nada? Que ele tenha sido traído?

Temer - É uma pergunta difícil de responder. O presidente tem dito que desconhece tudo. Mas a evidências demonstram que realmente seria difícil o presidente não ter ciência. O noticiário todo diz que ele foi comunicado várias vezes da existência desses fatos, como o mensalão.

Portal Imprensa- O Sr. diria que é o fim do PT?

Temer - F icou muito difícil para o PT... Eu mesmo, quando o PT foi eleito - e você sabe que eu não apoiei a candidatura do presidente Lula - tive muita esperança. A mesma esperança que tiveram milhões de brasileiros. Mas embora muita gente veja só o aspecto negativo, eu vejo um aspecto positivo. Hoje não é possível você corromper ou ser corrompido sem que as coisas venham à luz. Isso se deve muito à velocidade da informação em tempo real, imediata, que é capaz de impedir os desajustes administrativos.

Portal Imprensa- O Sr. acredita que outro líder no PT seja capaz de reagrupar o partido?

Temer - Eu acho que não. O PT jogou muito em cima da figura do Lula. E convenhamos, continua jogando. Não se formou uma outra liderança capaz de substituí-lo.

Portal Imprensa- O Sr. acha que houve um aparelhamento do Estado pelo PT?

Temer - O maior erro do Lula foi fazer um governo de adesão e não um governo de coalizão. Faço essa distinção, porque o governo de coalizão é coisa dos Países civilizados. Se um partido ganha a eleição e verifica que não pode governar sozinho, o que ele faz? Ele diz: vou distribuir o governo entre aqueles que possam aliar-se comigo. O presidente Lula optou por um governo preponderantemente do PT. Houve um amálgama de vários representantes de vários partidos num mesmo setor governativo. Talvez tenha sido a razão pela qual que se criou toda essa confusão. O governo procedeu mal.

Portal Imprensa- No duelo entre José Dirceu e Roberto Jefferson, qual dos dois tem mais credibilidade entre os parlamentares do PMDB?

Temer - O José Dirceu foi muito firme na sustentação das suas teses. Mas o problema é o da credibilidade. Dois dias depois ele foi desmentido e foi confirmado exatamente o que o Roberto Jefferson dizia da Portugal Telecom.

Imprensa- . O Sr. conviveu com o José Dirceu. Ele é realmente uma figura arrogante?

Temer - Comigo, ele nunca foi. Não tenho nenhuma queixa. É verdade que nós tivemos pouco contato. Ele falava mais comigo quando eu presidia a Câmara e ele era o presidente do PT. No governo foram cinco ou seis ocasiões. De qualquer forma, eu sentia que ele não tinha o apreço de todos.