Depoimento: "Foram sete anos de assédio moral contínuo", conta jornalista
O caso de assédio do funkeiro MC Biel contra a repórter do portal iG fez IMPRENSA retomar o debate sobre assédio moral e sexual contra jornalistas.
Atualizado em 14/06/2016 às 14:06, por
Vanessa Gonçalves.
funkeiro MC Biel contra a repórter do portal iG fez IMPRENSA retomar o debate sobre assédio moral e sexual contra jornalistas. Para discutir este tema, foi lançada a campanha #SemASSÉDIOnaimprensa, na qual jornalistas e comunicadores de todo o Brasil podem contar suas histórias, sob anonimato.
O assédio é um dos maiores traumas da vida profissional de qualquer pessoa. A tal ponto que as consequências vão permear por anos a personalidade do assediado, abalando sua confiança em detrimento da sua auto-estima.
Após este pequeno preâmbulo é sempre bom ressaltar que os assédios - moral e sexual - são considerados “normais” em uma redação jornalística, tanto que na maioria das vezes são banalizados e os detratores ficam impunes.
Desempregado e deslumbrado por uma oportunidade profissional, em um veículo que parecia referencial, eu compunha todos os requisitos para ser a vítima perfeita.
A primeira forma de praticar o assédio é o acerto do salário. Aproveitando-se da vulnerabilidade do novo funcionário é oferecida uma remuneração com um terço abaixo do piso da profissão e sem o registro CLT de jornalista, para o qual foi contratado e de um sindicato que tenha exigências menos rígidas.
Dentro desta redação, fiquei sabendo de outras histórias do assédio, sendo que as próprias vítimas não reconheciam que estavam sitiadas pelo 'chefe'.
Entre as narrativas do cerco moral, havia absurdos e coisas pitorescas: serviços extras jornalísticos com pagamentos não honrados e, quando cobrados, a resposta era 'esqueci'; gritos com palavrões diante de toda empresa; objetos atirados contra a parede como intimidação; e até fora do trabalho, como cobrar em espécie de um jornalista metade do valor do presente de casamento, do qual o 'Opressor' ganhou de graça; discussão com estagiário chegando ao cúmulo de empurrá-lo e por fim, reclamar em público do odor de dentro do banheiro por várias vezes após um funcionário utilizá-lo.
Os profissionais desta redação viviam uma espécie de 'Síndrome de Estocolmo'. Achavam divertido o comportamento vil e tirano, impondo humilhações diárias. No início da 'caminhada', eu tinha a mesma percepção dos colegas – uma simpatia e compreensão indevida pelo 'Opressor'. E até hoje, um ou outro ainda tem a mesma opinião.
A paranoia do 'Opressor' era descontrolada. Por muitas vezes, devido à sua tecnofobia, cinco jornalistas ficavam transcrevendo “seus” bilhetes pessoais feitos à mão incriminando um 'inimigo', que havia sido seu amigo a pouco tempo. Virou uma perseguição sem nexo e ética, da qual os jornalistas eram obrigados a transcrever notícias, matérias e ilações escritas por 'Ele' à mão contra a sua obsessão, que virara um opositor terrível.
O segundo passo foi o abalo da minha auto-estima. O 'Opressor' gritava e humilhava por motivos simples ou sem razão, criando padrões inexistentes de qualidade. Eu comecei a acreditar que não era uma questão profissional e sim uma 'caridade', como todas as contratações da redação.
Mesmo você trabalhando corretamente, todos os dias, 'Ele' continuava exigindo mais. Começava a reclamar dos seus horários, mesmo a carga horária sendo cumprida rigorosamente. Mas a exigência é que você entrasse mais cedo e saísse mais tarde, mas, claro, sem receber horas extras. Assim, quando percebi, estava fazendo exatamente o que 'Ele' queria e mesmo assim não o satisfazia.
Já assombrado, não recebendo por hora extras, foi pedido um trabalho extra aos finais de semana, pelo qual eu receberia cerca R$ 400 mensais. Após seis meses perguntei por que eu não havia recebido nada. E a resposta foi a mais indigna possível: 'não me lembro deste acordo'.
Eu estava vulnerável, me achando incompetente, já que por muitas vezes era chamado pelo 'Chefe' para ouvir que não era bom em nada e que outros iriam ter mais destaque, enquanto eu poderia pensar em me 'aposentar lá', por causa da sua 'caridade'. Não estava presente no momento, mas ouvi queixas de assédio sexual que duas jornalistas sofreram na redação. Dois episódios que me foram relatados: chamada à sala do 'Chefe', ela recebeu um pedido para alterar a temperatura do ar condicionado no aparelho da sala e assim o 'Opressor' olhava para a bunda dela e falava: - 'Nossa, você passou dez vezes na fila da gostosura'. O segundo foi combinar um valor salarial, mas como o assédio não foi retribuído como esperado, o pagamento foi anulado.
O patrão 'Opressor' sempre tem um delator dentro de qualquer redação. Conhecido no popular como “leva e Traz” é o que também faz as fofocas desde que fique no anonimato. Não é por dinheiro e sim por afagos no ego. Ele quer desfrutar de uma amizade do 'Opressor' e não ser incomodado por 'Ele', mesmo que precise trair a confiança de alguns de seus colegas.
O assédio ficou mais intenso quando a redação inteira se reuniu para uma pauta especial, que seria uma homenagem ao 'Opressor'. Muitas horas entrando em contato com fontes e uma dedicação com afinco para obter a informação necessária para o desfecho da tarefa. Lembro-me que era uma sexta-feira, 'Ele' viu que um destaque não estava da forma que gostaria. Aos gritos, vociferando palavrões e declinando algumas características físicas minhas, 'vomitou' o ‘engano’ em cima de mim. Posteriormente, continuava a achincalhar por telefone, não perdia a oportunidade de falar mal e de humilhar.
Quando você fica muito tempo na mesma redação, você conhece alguns atalhos e ‘quem é quem’ neste recinto. A pressão vinha crescendo mês a mês, sem motivos, pois nunca a audiência tinha sido tão alta, alcançando metas impressionantes, números de veículos médios, mesmo sendo um pequeno, com relevância.
As humilhações pessoais eram consecutivas, horas extras não eram pagas, trabalhos aos finais de semana eram compensados com folgas semanais, da qual ele divergia e muito, benefícios obrigados por lei eram motivos de constrangimentos diários e até idas ao banheiro eram questionadas.
O 'Opressor' desejava o meu pedido de demissão e assim não pagaria o que rege a lei em multas e indenizações. 'Ele' exigiu que o departamento de RH mostrasse o custo do transporte coletivo e do plano de saúde para cada trabalhador da empresa, um motivo para constranger os funcionários. Um mal-estar geral estava costurado.
Os gritos eram comuns, o terror aumentava e a cada dia era provocado um conflito comigo a estrategicamente. Pedi férias para amainar a temperatura da redação e encaixei uma licença devido aos problemas de saúde derivados da pressão psicológica que sofria.
Na volta das férias e da licença médica, o assédio continuou. Em uma reunião, 'Ele' exigiu que as pessoas trabalhassem aos finais de semana sem compensação financeira e sem folgas. Não aceitei. E o grupo a princípio, concordou em não ceder.
Recebemos um fax 'Dele', exigindo que fossemos trabalhar aos finais de semanas, empunhando pela ideia de ‘que para sermos alguém na vida, tínhamos que trabalhar até no ‘motel’, que os nossos benefícios (obrigatórios por lei) eram maravilhosos, vale refeição, vale transporte e convênio médico, e que deveríamos ficar na redação mesmo sem receber horas extras’.
Ficamos indignados, todos pareciam transtornados e fizemos uma reunião para decidir o que seria feito. Um dos mais experientes deu a ideia de escrever uma carta, outro, que se mostrava um dos mais revoltados com o pedido descabido, redigiu a resposta ao fax.
A escrita foi coerente, nítida em seus propósitos e não submissa, evocando que a lei fosse cumprida e que 'Ele' teria a liberdade de demitir qualquer pessoa, mas utilizando das regras regidas pela CLT. Ficamos apreensivos para o resultado da resposta, pela primeira vez contestávamos em grupo, e que na verdade queríamos abrir um diálogo e não aceitar uma imposição escravista.
O 'Opressor' tratou a carta com uma bomba provocativa a agiu como qualquer tirano sabe fazer. Eu era o chefe de redação e fui o primeiro a ser chamado, a princípio tratado com educação, me explicou calmamente que não aceitava a carta e me despediu. Eu sabia que poderia acontecer isso. Não fiquei surpreso e sim aliviado de não viver mais naquele perturbado ambiente. Chamou outra colega, que vinha sofrendo uma pressão desumana e a colocou em férias; o que deu a ideia da carta não foi chamado; outros quatro foram 'convidados a uma conversa' e receberam apenas broncas.
O 'Opressor' telefonou ao contador e pediu orientações para demitir as pessoas por justa causa e descobriu que não seria possível. Então, o 'Ele' partiu para agressão verbal, após duas horas da primeira reunião.
'Ele' foi ao meio da redação e me chamou de ‘filho da puta’, acusou-me de ter feito a cabeça dos outros colegas e que não iria me demitir e que eu pedisse a demissão. Não aceitei a imposição e decidi que não iria trabalhar mais aos finais de semana sem compensação financeira ou por folga e disse a ainda o chamei de ingrato. Os revoltados de antes, se calaram diante da violência verbal. Apenas uma funcionária respondeu. Os outros ficaram acovardados e um atônito. Durante o dia discutimos duas ou três vezes sobre o mesmo assunto.
Mas 'Ele' impôs ao poder do dinheiro, apelando para ganância e ambição dos profissionais. Após pressionar a três pessoas a pedirem as 'contas' e não ter tido resultado, chamou aquele que escreveu a carta prometendo uma promoção a “chefe de redação” e um pequeno aumento, além de prêmios, a cada trimestre de R$ 1.000.
O então ‘redator do manifesto’ aceitou a primeira proposta, sem nenhuma imposição, ocupando o cargo de chefe de redação a partir daquele momento, teve o seu salário aumentado e pediu aos outros utilizando a metodologia do “medo” a trabalharem aos finais de semana gratuitamente e sem folga. A unidade da redação, se um dia existiu, estava quebrada.
Apenas eu e uma colega mantivemos a posição de não aceitar a imposição escravista. A colega foi demitida assim que voltou de férias.
Após este episódio, o novo chefe de redação fazia o jogo do 'Patrão', mas sem entrar em discussão comigo, que mesmo contra a lei, havia sido rebaixado de cargo, mas o salário não foi alterado.Cumpria meus horários e trabalhava como nunca e a audiência cresceu mais ainda.
Mas o assédio moral se mantinha, recebia telefonemas quase diários 'Dele' pedindo para eu procurar emprego e sair da empresa.
Pessoalmente, eu era 'relembrado' sobre a demissão pelo menos duas vezes por semana. Mandava recados pelo seu chefe de redação. Eu não admitia ceder. Não queria perder os direitos trabalhistas graças a imposição de um tirano.
Depois da Copa do Mundo de 2014, por 'livre e espontânea pressão', tirei férias e na volta fui demitido. Foram dez meses de pressão mental absurda, sete anos de assédio moral contínuo.
Mesmo assim na carteira profissional, 'Ele' e o seu contador não fizeram o registro correto da CLT, tive que provar em quase uma briga jurídica para eles cumprirem o que a lei manda. E na 'conversa' da demissão 'Ele' 'profetizou' que eu ia sentir falta daquele trabalho, e que não era bom suficiente para grandes redações e que lamentaria muito no futuro a saída.
Após 29 dias, eu estava empregado em uma redação com mais de 70 pessoas, ganhando o dobro e com um projeto maravilhoso para desenvolver. Mas havia um porém: o local do trabalho era próximo do antigo “emprego” e teria que encontrar quase que diariamente com o 'Ele'.
Quando 'Ele' soube que tinha alcançado um posto fora da sua profecia, ficou perplexo sobre a minha nova posição, chamou alguns colegas do meu novo emprego para evocar que contrataram um encrenqueiro.
E mesmo após, eu ter saído do primeiro projeto após o assédio, em duas oportunidades de desenvolver um trabalho fui boicotado pelo 'Opressor', que procurou pessoas nestas empresas jornalísticas pedindo a minha não contratação. 'Ele' lamentava a opressão que sofrera no início da sua carreira e que isso trouxe conseqüências trágicas para a sua personalidade. 'Ele' processou o antigo empregador e venceu. Atualmente, o 'Opressor' continua em atividade. É uma pessoa muito rica e também a mais infeliz que eu conheci.
Este assédio moral mudou a minha vida. Não consigo relaxar em nenhum momento diante dos colegas e chefes. Acreditar que ganhei a 'chave de braço' com o 'Opressor' pelos direitos trabalhistas, não valeu um segundo do meu esforço.Deveria ter pedido demissão e denunciado o comportamento desvirtuado na Justiça". Campanha Sem Assédio na imprensa
O objetivo da campanha é mostrar como repórteres do sexo feminino e masculino estão expostos ao assédio moral e sexual, tentando encontrar ao lado de especialistas e das entidades ligadas à imprensa formas de reduzir/acabar com esse tipo de ação com soluções práticas.
Os interessados podem mandar seus relatos para o e-mail: redacao@portalimprensa.com.br, colocando no assunto: depoimento sem assédio na imprensa, até 17 de junho. Garantimos que sua identidade e a do assediador serão mantidas em sigilo.
* O nome foi alterado para respeitar a privacidade da jornalista.
O segundo relato é de jornalista Cristiano Abreu* , que sofreu assédio durante anos no veículo onde trabalhava.
O assédio é um dos maiores traumas da vida profissional de qualquer pessoa. A tal ponto que as consequências vão permear por anos a personalidade do assediado, abalando sua confiança em detrimento da sua auto-estima.
Após este pequeno preâmbulo é sempre bom ressaltar que os assédios - moral e sexual - são considerados “normais” em uma redação jornalística, tanto que na maioria das vezes são banalizados e os detratores ficam impunes.
Desempregado e deslumbrado por uma oportunidade profissional, em um veículo que parecia referencial, eu compunha todos os requisitos para ser a vítima perfeita.
A primeira forma de praticar o assédio é o acerto do salário. Aproveitando-se da vulnerabilidade do novo funcionário é oferecida uma remuneração com um terço abaixo do piso da profissão e sem o registro CLT de jornalista, para o qual foi contratado e de um sindicato que tenha exigências menos rígidas.
Dentro desta redação, fiquei sabendo de outras histórias do assédio, sendo que as próprias vítimas não reconheciam que estavam sitiadas pelo 'chefe'.
Entre as narrativas do cerco moral, havia absurdos e coisas pitorescas: serviços extras jornalísticos com pagamentos não honrados e, quando cobrados, a resposta era 'esqueci'; gritos com palavrões diante de toda empresa; objetos atirados contra a parede como intimidação; e até fora do trabalho, como cobrar em espécie de um jornalista metade do valor do presente de casamento, do qual o 'Opressor' ganhou de graça; discussão com estagiário chegando ao cúmulo de empurrá-lo e por fim, reclamar em público do odor de dentro do banheiro por várias vezes após um funcionário utilizá-lo.
Os profissionais desta redação viviam uma espécie de 'Síndrome de Estocolmo'. Achavam divertido o comportamento vil e tirano, impondo humilhações diárias. No início da 'caminhada', eu tinha a mesma percepção dos colegas – uma simpatia e compreensão indevida pelo 'Opressor'. E até hoje, um ou outro ainda tem a mesma opinião.
A paranoia do 'Opressor' era descontrolada. Por muitas vezes, devido à sua tecnofobia, cinco jornalistas ficavam transcrevendo “seus” bilhetes pessoais feitos à mão incriminando um 'inimigo', que havia sido seu amigo a pouco tempo. Virou uma perseguição sem nexo e ética, da qual os jornalistas eram obrigados a transcrever notícias, matérias e ilações escritas por 'Ele' à mão contra a sua obsessão, que virara um opositor terrível.
O segundo passo foi o abalo da minha auto-estima. O 'Opressor' gritava e humilhava por motivos simples ou sem razão, criando padrões inexistentes de qualidade. Eu comecei a acreditar que não era uma questão profissional e sim uma 'caridade', como todas as contratações da redação.
Mesmo você trabalhando corretamente, todos os dias, 'Ele' continuava exigindo mais. Começava a reclamar dos seus horários, mesmo a carga horária sendo cumprida rigorosamente. Mas a exigência é que você entrasse mais cedo e saísse mais tarde, mas, claro, sem receber horas extras. Assim, quando percebi, estava fazendo exatamente o que 'Ele' queria e mesmo assim não o satisfazia.
Já assombrado, não recebendo por hora extras, foi pedido um trabalho extra aos finais de semana, pelo qual eu receberia cerca R$ 400 mensais. Após seis meses perguntei por que eu não havia recebido nada. E a resposta foi a mais indigna possível: 'não me lembro deste acordo'.
Eu estava vulnerável, me achando incompetente, já que por muitas vezes era chamado pelo 'Chefe' para ouvir que não era bom em nada e que outros iriam ter mais destaque, enquanto eu poderia pensar em me 'aposentar lá', por causa da sua 'caridade'. Não estava presente no momento, mas ouvi queixas de assédio sexual que duas jornalistas sofreram na redação. Dois episódios que me foram relatados: chamada à sala do 'Chefe', ela recebeu um pedido para alterar a temperatura do ar condicionado no aparelho da sala e assim o 'Opressor' olhava para a bunda dela e falava: - 'Nossa, você passou dez vezes na fila da gostosura'. O segundo foi combinar um valor salarial, mas como o assédio não foi retribuído como esperado, o pagamento foi anulado.
O patrão 'Opressor' sempre tem um delator dentro de qualquer redação. Conhecido no popular como “leva e Traz” é o que também faz as fofocas desde que fique no anonimato. Não é por dinheiro e sim por afagos no ego. Ele quer desfrutar de uma amizade do 'Opressor' e não ser incomodado por 'Ele', mesmo que precise trair a confiança de alguns de seus colegas.
O assédio ficou mais intenso quando a redação inteira se reuniu para uma pauta especial, que seria uma homenagem ao 'Opressor'. Muitas horas entrando em contato com fontes e uma dedicação com afinco para obter a informação necessária para o desfecho da tarefa. Lembro-me que era uma sexta-feira, 'Ele' viu que um destaque não estava da forma que gostaria. Aos gritos, vociferando palavrões e declinando algumas características físicas minhas, 'vomitou' o ‘engano’ em cima de mim. Posteriormente, continuava a achincalhar por telefone, não perdia a oportunidade de falar mal e de humilhar.
Quando você fica muito tempo na mesma redação, você conhece alguns atalhos e ‘quem é quem’ neste recinto. A pressão vinha crescendo mês a mês, sem motivos, pois nunca a audiência tinha sido tão alta, alcançando metas impressionantes, números de veículos médios, mesmo sendo um pequeno, com relevância.
As humilhações pessoais eram consecutivas, horas extras não eram pagas, trabalhos aos finais de semana eram compensados com folgas semanais, da qual ele divergia e muito, benefícios obrigados por lei eram motivos de constrangimentos diários e até idas ao banheiro eram questionadas.
O 'Opressor' desejava o meu pedido de demissão e assim não pagaria o que rege a lei em multas e indenizações. 'Ele' exigiu que o departamento de RH mostrasse o custo do transporte coletivo e do plano de saúde para cada trabalhador da empresa, um motivo para constranger os funcionários. Um mal-estar geral estava costurado.
Os gritos eram comuns, o terror aumentava e a cada dia era provocado um conflito comigo a estrategicamente. Pedi férias para amainar a temperatura da redação e encaixei uma licença devido aos problemas de saúde derivados da pressão psicológica que sofria.
Na volta das férias e da licença médica, o assédio continuou. Em uma reunião, 'Ele' exigiu que as pessoas trabalhassem aos finais de semana sem compensação financeira e sem folgas. Não aceitei. E o grupo a princípio, concordou em não ceder.
Recebemos um fax 'Dele', exigindo que fossemos trabalhar aos finais de semanas, empunhando pela ideia de ‘que para sermos alguém na vida, tínhamos que trabalhar até no ‘motel’, que os nossos benefícios (obrigatórios por lei) eram maravilhosos, vale refeição, vale transporte e convênio médico, e que deveríamos ficar na redação mesmo sem receber horas extras’.
Ficamos indignados, todos pareciam transtornados e fizemos uma reunião para decidir o que seria feito. Um dos mais experientes deu a ideia de escrever uma carta, outro, que se mostrava um dos mais revoltados com o pedido descabido, redigiu a resposta ao fax.
A escrita foi coerente, nítida em seus propósitos e não submissa, evocando que a lei fosse cumprida e que 'Ele' teria a liberdade de demitir qualquer pessoa, mas utilizando das regras regidas pela CLT. Ficamos apreensivos para o resultado da resposta, pela primeira vez contestávamos em grupo, e que na verdade queríamos abrir um diálogo e não aceitar uma imposição escravista.
O 'Opressor' tratou a carta com uma bomba provocativa a agiu como qualquer tirano sabe fazer. Eu era o chefe de redação e fui o primeiro a ser chamado, a princípio tratado com educação, me explicou calmamente que não aceitava a carta e me despediu. Eu sabia que poderia acontecer isso. Não fiquei surpreso e sim aliviado de não viver mais naquele perturbado ambiente. Chamou outra colega, que vinha sofrendo uma pressão desumana e a colocou em férias; o que deu a ideia da carta não foi chamado; outros quatro foram 'convidados a uma conversa' e receberam apenas broncas.
O 'Opressor' telefonou ao contador e pediu orientações para demitir as pessoas por justa causa e descobriu que não seria possível. Então, o 'Ele' partiu para agressão verbal, após duas horas da primeira reunião.
'Ele' foi ao meio da redação e me chamou de ‘filho da puta’, acusou-me de ter feito a cabeça dos outros colegas e que não iria me demitir e que eu pedisse a demissão. Não aceitei a imposição e decidi que não iria trabalhar mais aos finais de semana sem compensação financeira ou por folga e disse a ainda o chamei de ingrato. Os revoltados de antes, se calaram diante da violência verbal. Apenas uma funcionária respondeu. Os outros ficaram acovardados e um atônito. Durante o dia discutimos duas ou três vezes sobre o mesmo assunto.
Mas 'Ele' impôs ao poder do dinheiro, apelando para ganância e ambição dos profissionais. Após pressionar a três pessoas a pedirem as 'contas' e não ter tido resultado, chamou aquele que escreveu a carta prometendo uma promoção a “chefe de redação” e um pequeno aumento, além de prêmios, a cada trimestre de R$ 1.000.
O então ‘redator do manifesto’ aceitou a primeira proposta, sem nenhuma imposição, ocupando o cargo de chefe de redação a partir daquele momento, teve o seu salário aumentado e pediu aos outros utilizando a metodologia do “medo” a trabalharem aos finais de semana gratuitamente e sem folga. A unidade da redação, se um dia existiu, estava quebrada.
Apenas eu e uma colega mantivemos a posição de não aceitar a imposição escravista. A colega foi demitida assim que voltou de férias.
Após este episódio, o novo chefe de redação fazia o jogo do 'Patrão', mas sem entrar em discussão comigo, que mesmo contra a lei, havia sido rebaixado de cargo, mas o salário não foi alterado.Cumpria meus horários e trabalhava como nunca e a audiência cresceu mais ainda.
Mas o assédio moral se mantinha, recebia telefonemas quase diários 'Dele' pedindo para eu procurar emprego e sair da empresa.
Pessoalmente, eu era 'relembrado' sobre a demissão pelo menos duas vezes por semana. Mandava recados pelo seu chefe de redação. Eu não admitia ceder. Não queria perder os direitos trabalhistas graças a imposição de um tirano.
Depois da Copa do Mundo de 2014, por 'livre e espontânea pressão', tirei férias e na volta fui demitido. Foram dez meses de pressão mental absurda, sete anos de assédio moral contínuo.
Mesmo assim na carteira profissional, 'Ele' e o seu contador não fizeram o registro correto da CLT, tive que provar em quase uma briga jurídica para eles cumprirem o que a lei manda. E na 'conversa' da demissão 'Ele' 'profetizou' que eu ia sentir falta daquele trabalho, e que não era bom suficiente para grandes redações e que lamentaria muito no futuro a saída.
Após 29 dias, eu estava empregado em uma redação com mais de 70 pessoas, ganhando o dobro e com um projeto maravilhoso para desenvolver. Mas havia um porém: o local do trabalho era próximo do antigo “emprego” e teria que encontrar quase que diariamente com o 'Ele'.
Quando 'Ele' soube que tinha alcançado um posto fora da sua profecia, ficou perplexo sobre a minha nova posição, chamou alguns colegas do meu novo emprego para evocar que contrataram um encrenqueiro.
E mesmo após, eu ter saído do primeiro projeto após o assédio, em duas oportunidades de desenvolver um trabalho fui boicotado pelo 'Opressor', que procurou pessoas nestas empresas jornalísticas pedindo a minha não contratação. 'Ele' lamentava a opressão que sofrera no início da sua carreira e que isso trouxe conseqüências trágicas para a sua personalidade. 'Ele' processou o antigo empregador e venceu. Atualmente, o 'Opressor' continua em atividade. É uma pessoa muito rica e também a mais infeliz que eu conheci.
Este assédio moral mudou a minha vida. Não consigo relaxar em nenhum momento diante dos colegas e chefes. Acreditar que ganhei a 'chave de braço' com o 'Opressor' pelos direitos trabalhistas, não valeu um segundo do meu esforço.Deveria ter pedido demissão e denunciado o comportamento desvirtuado na Justiça". Campanha Sem Assédio na imprensa
O objetivo da campanha é mostrar como repórteres do sexo feminino e masculino estão expostos ao assédio moral e sexual, tentando encontrar ao lado de especialistas e das entidades ligadas à imprensa formas de reduzir/acabar com esse tipo de ação com soluções práticas.
Os interessados podem mandar seus relatos para o e-mail: redacao@portalimprensa.com.br, colocando no assunto: depoimento sem assédio na imprensa, até 17 de junho. Garantimos que sua identidade e a do assediador serão mantidas em sigilo.
* O nome foi alterado para respeitar a privacidade da jornalista.






